23 de Abril, Dia do Livro25 de Abril

O destino fez com que nascessem dois génios na mesma data: William Shakespeare e Miguel de Cervantes. Em alguns lugares do mundo celebra-se o aniversário oferecendo livros e flores, inteligência e beleza, a vida em definitivo.
A Fundação José Saramago oferece também neste 23 de Abril um livro e uma flor. O livro é “Uma Família do Alentejo”, escrito por um homem nobre e sábio que não quis que as histórias levantadas do chão das famílias pobres e combativas do Alentejo caíssem no esquecimento, subjugadas pela fúria do tempo e pela ira dos escritores oficiais, e a flor é um cravo, símbolo da Revolução do 25 de Abril que tantas esperanças soube despertar no Alentejo e no mundo. Unimos os dois aniversários porque ambos estão unidos no texto de João Domingos Serra e porque é assim que deve ser.
Assim, pois, neste 23 e 25 de Abril, um livro e uma flor. “Uma Família do Alentejo” e um cravo vermelho: esta é a contribuição da Fundação José Saramago para o Dia do Livro e para o 25 de Abril. Sempre.

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Prefácio de José Saramago
 Posfácio de Manuel Gusmão

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«Quem dele [João Domingos Serra] me falou pela primeira vez foi Maria João Mogarro: “E está aí o João Serra, de quem se diz que escreveu a sua vida, nunca vi, mas deve ser certo.” Imagina-se o meu alvoroço, um camponês escritor, um António Aleixo da prosa… “Uns apontamentos, não?”», perguntei eu a fingir um cepticismo que não sentia. “Que não”, respondeu ela, “«pelo menos é o que me têm dito.” No dia seguinte fomos bater à porta do João Serra, que não estava, estavam, sim, as filhas, “O nosso pai está no hospital”, disseram. Expliquei ao que ia, que estava a escrever um livro sobre o Lavre e que seria para mim uma grande ajuda poder passar uma vista de olhos pelo que ele tinha feito. Pusemo-nos de acordo em esperar que o pai saísse do hospital, aonde o tinham levado certos achaques agravados da velhice, e, finalmente, uns quantos dias depois, recebia das mãos do próprio João Domingos Serra o fruto do seu labor. Com o caderno debaixo do braço corri para o meu refúgio e pus-me a ler, com a ideia de ir copiando à mão as passagens mais interessantes, mas rapidamente compreendi que nem uma só daquelas palavras poderia perder-se. Não terminei a leitura. Meti uma folha de papel na máquina e comecei a trasladar, com todos os seus pontos e vírgulas, incluindo algum erro de ortografia, o escrito de João Serra. Tinha enfim livro. Ainda tive de esperar três anos para que a história amadurecesse na minha cabeça, mas o Levantado do Chão começou a ser escrito nesse dia, quando contraí uma dívida que nunca poderei pagar.»

José Saramago, in Prefácio a Uma Família do Alentejo

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fjs«A 8 de Agosto de 1972, João Domingos Serra, trabalhador rural, com 67 anos de idade e já doente, põe-se a escrever a história da sua vida, que começa com o casamento dos seus pais e se prolonga na dos seus filhos.

Desde o início do seu relato que o conto da sua vida se entrelaça com o da vida de outros, da sua família e da sua condição. E podemos mesmo considerar que é o cruzamento entre a sua vida pessoal e a conjuntura social, tal como a vive e a descreve no início da década de 70 (1972) que configuram a situação que lhe permite dedicar-se ao conto. Por um lado, doente do coração, deixou já de trabalhar, sendo apoiado pelos seus filhos:

“E numa idade não muito avançada os meus órgãos enfraqueceram; caí numa doença do coração e então fiquei reformado do trabalho pelos meus filhos; pois a luta pelo bem estar de todos os deserdados do bem era assim.”

Ao mesmo tempo, dá-se conta de uma situação que o tempo foi alterando:

“Graças a Deus os homens, as leis, as coisas, modificaram-se, e hoje, na data presente de 1972, já todos os trabalhadores sofredores alcançaram um nível de vida razoável, com mais conforto e mais esperanças.”

A partir, pois, de Agosto de 1972 começa João Domingos Serra a escrever aquilo que inicialmente é a história da sua vida e da vida da sua família e que virá depois a alargar-se de forma impressionante […]. Escreverá, não sabemos com que regularidade, num primeiro arco de tempo, até algures em 1973, altura em que a data da narração vem a coincidir com a dos acontecimentos narrados, ou seja, em que presente da narração e presente da história narrada coincidem. Escreve, com uma esferográfica de tinta preta, sem marcas de intervalo na página quadriculada do caderno que utiliza. Não abre parágrafos, a mancha da escrita é contínua, página após página.

Esta data de 1973 não é contudo a do fim da narrativa, é apenas a de uma primeira de várias interrupções que implicam texto que se vai acrescentando:

“Disse que terminava as minhas narrações, mas por Deus querer vou acrescentando a história da minha vida pobre e humilde, a qual me pus a escrever sem exageros.”

Este primeiro texto acrescentado cobre o resto do ano de 1973 e aproxima-se do dia 25 de Abril 1974, que se tornará o seu tópico fundamental. O modo como os acontecimentos históricos, nacionais e internacionais, integram a narrativa autobiográfica de João Domingos Serra são uma das mais comoventes características da sua narrativa.»

Manuel Gusmão, in Posfácio a Uma Família do Alentejo

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A edição de Uma Família do Alentejo conta com o apoio da Junta de Freguesia do Lavre e das Câmara Municipais de Montemor-o-Novo e Vendas Novas

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Ouvir “A Terra a Quem a Trabalha”, grande reportagem da TSF
emitida a 22 de Abril de 2010


 

 

 

 

 

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