90 Anos, 90 Palavras (17)

Escuta

encosta o teu ouvido neste pedaço de terra húmida que te trago dum país distante, neste grão de terra, neste pedaço de alma como se fora a gota menos saliente da tua. Recolhe o teu espírito neste pedaço de barro dos barros como se fora o grão que construiu o mundo, a amostra que o Filósofo Improvável tomou entre as mãos, sabendo que daí tornaria possível construir esta terra de sangues e dores em seis dias apenas, e do barro ao espírito, das cinzas à alma, na terra onde descansou, escuta

encosta suavemente nas minhas mãos os teus olhos, repara, escuta como gemem as dores dos vivos os murmúrios serenos de quem desceu ao profundo das águas placentas para aí depositar o seu sangue, o seu corpo dorido dos dias agora repousando na imensidão do silêncio. E dos passos que se ouvem pisando a terra que não nos pertence, das lágrimas que descem suavemente como recados de clemência, do perdão a quem pariu o mundo, não sem muito das dores tomadas por suas, escuta

escuta este lugar onde as palavras não têm sombras, o tempo não separa nem significa nada, onde o tempo não planeja, não se move, não se entrega, onde o tempo não significa nada. É apenas um grão de terra, uma gota de água, uma réstia de ar, um castelo de memórias, uma montanha que se separou do tempo, uma gruta funda como o mundo onde se guardam os arquivos que teimam permanecer prisioneiros do passado, aqui e ali um sorriso, guardados nas toscas tábuas onde se guardam o que restará do teu, do meu corpo, engavetados nesta terra húmida que pertence a um país distante, a um plano sem ponto de fuga, a uma ardósia que o manto verde do musgo tapará a seu tempo, quando o tempo se separar do tempo e estes nossos corações, de coisa nenhuma e então, escuta.

Leonardo B.
Portugal
(Recebido por correio eletrónico)

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