90 anos, 90 Palavras (58)

Vontade

Genuinamente, não consigo imaginar o meu mundo sem o seu. Desde há mais de 20 anos, quando Blimunda me ensinou a chamar Vontade à força-motriz da humanidade que permanecia para mim inominável por não acreditar na Alma.

Daí para cá, tantos outros vieram para ficar.
Raimundo encabeça o meu cortejo interior, com a sua sabedoria de revisor-reconstrutor da História, a confrontar-me a cada passo com os fatais dois lados de todos os cercos da vida.
Já o seu Ricardo Reis passou a povoar-me a vivência do coração da minha Lisboa – não há Chiado em que não me pergunte qual seria a vista exacta da sua janela naqueles meses.
Vivo com estes e muitos mais. Recentemente, mudámo-nos para o prédio da Clarabóia, mas não sei se caberemos por muito tempo. É que outros estão, ainda, felizmente, a chegar. Desde sempre que, por instinto, doseio a sua vinda, percebo agora que para não deixar de ter o que dele desvendar.  

Ana Cristina Dias

42 anos

Economista desencantada

Mestranda em Cultura Portuguesa

Lisboa

(recebido por email)

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