90 Anos, 90 Palavras (6)

João Mau-Tempo

João Mau-Tempo é o nome da personagem do romance “Levantado do Chão”, de José Saramago, publicado na década de 1980 e aclamado com vários prêmios. Esta obra impecável de Saramago nos permite observar, por meio de João Mau-Tempo, todas as contradições do sistema social, por meio do latifúndio (monárquico e republicano), a luta de classes dos trabalhadores rurais, a guarda sobre o trabalho e a violência que impedem qualquer reivindicação, a competição entre os trabalhadores para a produtividade do senhor da terra, as misérias que o povo tem de passar para sustentar uma classe dominante, etc.. João Mau-Tempo, portanto, é a personagem que nos faz acompanhar a trajetória de um menino, cujo sistema o transforma em homem desde a tenra idade e, sofrendo todas as misérias em nome do capital latifundiário, acaba por se tronar um homem, cuja infância roubada, continua a sua labuta até o fim dos dias. Por meio do João Mau-Tempo (re)conhecemos a história do povo e a negação dos direitos de tantos Joãos do mundo, cuja sorte está no Mau-Tempo herdado do nome (e da estrutura social baseada no capital). Um trecho e uma recomendação de leitura!

“João Mau-Tempo não tem corpo de herói. É um pelém de dez anos retacos, um cavaco de gente que ainda olhava árvores mais como alpenduradas de ninhos do que como produtoras de cortiça, bolota ou azeitona. É uma injustiça que se lhe faz obrigá-lo a levantar-se ainda noite fechada, andar meio a dormir e com o estômago frouxo o pouco ou o muito caminho que o separa do lugar de trabalho, e depois dia afora, até o sol posto, para tornar a casa outra vez de noite, morto de fadiga, se isto é ainda fadiga, se não é já transe de morte. Mas esta criança, palavra só por comodidade usada, pois no latifúndio não se ordenam assim as populações em modo de prever-se e respeitar-se tal categoria, tudo são vícios e basta, que os mortos é só enterrá-los, não é posível fazer trabalhar os mortos, esta criança é apenas uma entre milheiros, todas iguais, todas sofredoras, todas ignorantes do mal que fizeram para merecerem tal castigo”(p. 56 – grifos meus)

Fonte: SARAMAGO, José. Levantado do chão. 4 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. 366 p.

Merilin Baldan
Pedagoga (2008,UFSCar)
Mestre em Educação Escolar (2011, FCLAr/UNESP)
Doutoranda em Educação (UFSCar)
(Recebido por correio electrónico)

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