90 Anos, 90 Palavras (61)

Esperança

“A esperança, só a esperança, nada mais, chega-se a um ponto em que não há mais nada senão ela, é então que  descobrimos que ainda temos tudo” diz Ricardo Reis a Marcenda; esta é a confissão do pessimista, do homem que descobre na subjetividade do amor a única possibilidade de espantar os pesadelos goyescos objetivos que criámos para nos afogarmos; e apesar disso, diante de Saturno devorando os seus próprios filhos estão as lágrimas do poeta, as nossas lágrimas; e a sua comiseração é tão imprescritível como a esperança nua. Convocamos todos os solitários do planeta para mudar o mundo porque “não há mais nada”. Essa foi a lição que Saramago me deu com a sua vida e a sua obra, e também com a sua obra literária. Ao lado do meu pai e da sua paixão pela simplicidade, não concebo melhor legado.

 

María Novoa Portela

Professora do  Departamento de Economia da Universidad Autónoma Metropolitana-A

Cidade do México

(recebido por email)

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