90 anos, 90 Palavras (65)

Circunlóquio

No texto encimado pelo título “Circunlóquios e evidências”, José Saramago defendeu a divulgação rigorosa dos factos, “por mais desagradável que tenham a cara”, sem recurso a “arabescos” que distraiam ou afastem o leitor. Para o insigne romancista, além de informativa, como se exige, a notícia deve ser precisa, directa e objectiva. Importa, ainda, que se apresente despojada de circunlóquios, isto é, sem palavras imprecisas ou inúteis, nem rodeios.

Esta sua lição encontra-se hospedada, há exactamente 40 anos, na revista Seara Nova. “É uma espécie de ressurreição”, tal qual a definiu Saramago ao relê-la. Foi em 2008, aquando de um pedido de autógrafo, algo que a sua infatigável generosidade nunca recusou.

Ainda hoje me pergunto” – disse, na altura, o autor – “como é que a censura deixou passar este texto, em 1972?” O caso não era para menos, já que a força pendia quase toda para o “outro lado”. Convinha ao regime usar e abusar de toda a sorte de circunlóquios, com as mais variadas e perifrásticas feições, para mascarar a humilhante realidade portuguesa.

 

“Não é novidade para ninguém, mesmo que não dedique especial atenção à vida do País, que andam por aí uns tantos problemas gravíssimos a pedir urgente resolução, remédio imediato, sob pena de vermos literalmente ameaçada a própria sobrevivência desta comunidade que o acaso das geografias e o fluxo das migrações aqui veio instalar e onde, se não prosperou, tem perdurado. Ora, se a nau é tão pequena e os problemas não o são, um espírito cultivador da ironia teria o mau gosto de dizer ‘ainda bem’, escorado na meridiana verdade de que, se a nau fosse grande, muito maiores seriam as dificuldades. Com o que, evidentemente, nos convidaria a agradecer ao mesmo céu a nossa pequenez” – sublinhava José Saramago em Outubro de 1972, lembrando que “[…] o circunlóquio é penumbroso, o eufemismo faz-se de arabescos que distraem os olhos e o entendimento – e as evidências têm de ser reconhecidas como tal, onde quer que se encontrem e por mais desagradável que tenham a cara. Não é prova de amor desfigurar a verdade. De cegueira, sim. E, como também diz um rifão que os nossos antepassados criaram, não há pior cego do que aquele que não quer ver…”.

A conduta cívica de José Saramago é uma biografia da ética. O autor de “Ensaio sobre a Cegueira” jamais depôs as “armas”. As suas palavras, vivas com lucidez em chama, estão mais acordadas que nunca. Só morre quem não vence o esquecimento. José Saramago permanece vivo na nossa mente. Continua a construir caminhos, mesmo que tenha de fazê-lo no próprio deserto, porque o que está em causa é a recuperação da independência moral do País.

 

José Miguel Noras

Economista, doutorado em História Regional e Local pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Nota: José Miguel Noras não seguirá as normas do “novo acordo ortográfico”, enquanto tal documento não for subscrito por todos os países lusófonos.

(via e-mail)

 

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