O outro lado da lua

(Sobre a identidade ibero-americana)

Comunicação apresentada por José Saramago ao I Encontro Internacional Becas Líder, em Cartagena das Índias (Colômbia), 2007

 

O que é a identidade ibero-americana? Não sei. Pior ainda, creio que ninguém sabe. E é por não saber, nem sequer sei muito bem o que é a identidade de um povo, que me permitirei estas reflexões em voz alta, sem papéis diante, para ver se entre todos somos capazes de chegar a alguma definição mais ou menos aceitável. Dizem os dicionários que identidade tem que ver com o que é idêntico, com o que é igual, de modo que, na suposição de que realmente exista uma identidade ibero-americana, teríamos de concluir pela existência de uma igualdade, ou identidade, entre o que hoje e desde 1492 se passa neste continente, por exemplo, com o que se passou e está passando na Península Ibérica, porque, de contrário, o termo "ibero-americano" não teria sentido e haveria que admitir, e reconhecer, que, no fundo,  não sabemos como chamar com precisão a esta parte do mundo. Digo América Latina, digo América do Sul, digo por vezes Ibero-América, mas sei que sempre está faltando algo. Seria bom termos aqui um atlas, sobretudo um daqueles feitos nos Estados Unidos ou em Inglaterra, que têm sobre estes assuntos ideias muito próprias, ainda que não originais, para vermos como resolvem eles a questão. Seria interessante.

Os portugueses que aqui estão não têm dúvida alguma, ainda que as pudessem ter, sobre o conceito de identidade do povo que são, porque crêem poder identificar, sem problemas de maior, os traços constantes de uma identidade portuguesa. Como nação, existimos desde o século XII. Se em cada época de um país ou de um povo, vivida por esse país ou por esse povo, é possível reconhecer características comuns que com relativa facilidade o identificam, esse parece ser o caso português. Assim, poderemos concluir que, ademais da continuidade biológica, suporte natural de todas as transformações, certas constantes nos terão identificado como colectivo desde o século XII ao século XXI. Nós, que aqui nos reunimos, somos a última maré do infinito mar do tempo que nos trouxe a este lugar, onde como portugueses nos afirmamos, como se não pudéssemos ser outra coisa. Não creio, no entanto, que essa definição seja reconhecível como identidade comum durante todo o tempo transcorrido entre o século XII e o século XXI. Temos sido muitas coisas, e algumas vezes opostas, algumas vezes em contradição e em conflito com aquilo que antes tínhamos sido. Isso sugere-me que, em vez de gastarmos o tempo a discorrer sobre a identidade de um povo, ou simplesmente sobre a identidade de uma pessoa, porque, ao fim e ao cabo, somos, em simultâneo, o mesmo e o diferente, deveríamos sim fomentar uma consciência que nos permitisse dizer quem somos neste momento, ou como nos devemos chamar, ou como nos vemos a nós próprios no nosso quotidiano, tendo em conta, obviamente, e com todo o rigor ao nosso alcance, o maior número possível de elementos sobreviventes do passado.

Se aplicarmos estes critérios à região a que chamamos Ibero-América, entramos em confusão total. Imaginemos que andamos por aí a perguntar a cada cidadão colombiano que encontrarmos na rua, ou no interior, ou no litoral, se ele se sente ibero-americano: até aqueles que crêem ter ideias sobre o assunto irão ter dificuldades para dizerem em que consiste ser-se ibero-americano. Um camponês colombiano permaneceria talvez em silêncio, observando com assombro o seu interlocutor, porque simplesmente não faria ideia do que lhe estavam falando.

Claro que para um conjunto de pessoas cultas, como é o caso deste fórum, o conceito de identidade ibero-americana apresenta-se como um dado familiar em que não há lugar a dúvidas. Mas se nos detivermos por um minuto a pensar naquilo que estamos a dizer, creio que a questão não poderá ser vista com toda essa clareza, talvez chegue à conclusão de que, até agora, tinha estado a viver simplesmente num paradigma. O facto de afirmar que todos sois ibero-americanos e assim pretender resolver a questão, nada resolve, aflora a superfície, não vai ao fundo dela.

 

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