A Alegria de Saramago

fjsUma das grandes qualidades de José Saramago – morto aos 87 anos em 18 de junho passado – era o de nunca ter sofrido daquela doença que o crítico americano Harold Bloom definia como “a angústia da influência”. Vivia as obras alheias – de há quinhentos anos ou de hoje – com o genuíno orgulho de quem, acima de tudo, se identifica com a grandeza das coisas belas. Se sofria de alguma coisa, era da alegria da influência. Como diria o professor e escritor português Eduardo Prado Coelho, não tinha medo de gostar.

Começo esta memória projetiva de Saramago sob o signo da alegria, porque estou cansada das recorrentes acusações de pessimismo que lhe foram sendo feitas. Muitas e muitas vezes lhe perguntavam porque se indignava tanto, porque fazia questão de futurar em negativo, quando a vida se mostrava tão afável com ele. Saramago respondia desabridamente a estas provocações, porque não confundia a sua felicidade com a infelicidade de grande parte do mundo à sua volta. Possuía, em altíssimo grau, aquilo a que os cristãos chamam compaixão — capacidade de partilhar a paixão dos outros.

Também isso fez dele um escritor universal. Ao velho postulado segundo o qual a literatura não se faz com bons sentimentos, poderia responder: nem com sentimentos ruins. Sobretudo, a literatura não se faz com o umbigo, mas com as tripas – e ele sabia como ninguém expôr as tripas do mundo. Há muito de “instalação”, no sentido plástico e contemporâneo do termo, nas alegorias que são o motor dos seus romances. Muito de “performance”, também; o seu discurso é uma intersecção vibrante, torrencial, de vozes eruditas e populares.

Aquilo que parece, como tantas vezes é dito, “uma escrita difícil”, torna-se transparente palavra-em-ação, quando lido em voz alta. Utilizou a vírgula como marca de democratização da palavra: no barroco arrojado de Saramago, as vozes menores habitam o mesmo espaço das vozes maiores. Os seus romances históricos são futuristas, porque proféticos e protagonizados por personagens da arraia-miúda; os seus romances futuristas são históricos, porque desenvolvem tragédias anunciadas. A sua é uma escrita de herança, como era a do Padre António Vieira, um dos seus grandes modelos – na escrita, e não só. Como Vieira, Saramago foi revolucionário e conservador, feroz e terno, um vendaval de lucidez e assombro. Gostava de gostar, sim – mas também de não gostar.

Extremamente delicado no trato, não era um homem de contenções, e menos ainda de mesuras. O professor Eduardo Lourenço escrevia, no dia seguinte à sua morte: “Aparece tarde no horizonte da ficção portuguesa, quando já ninguém o esperava, provavelmente nem ele. E isso é já em si um paradoxo e sobretudo um milagre cultural. À sua maneira, era uma versão nossa da Gata Borralheira.”

Depois de consagrado Cinderelo, este Gato Borralheiro dedicou-se a levantar do chão a gata lamurienta e pobrezinha que a cultura portuguesa se acostumou a ser, apesar de possuir um armário cheio de fadas e trajes sumtuososos. As suas primeiras declarações depois da notícia do Prêmio Nobel, em 1998, foram de exaltação da literatura de expressão portuguesa, de Luís de Camões a Jorge Amado e Sophia de Mello Breyner. E deu o seu nome a um prêmio para jovens escritores – prêmio que que foi concedido a Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, Adriana Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe e, nesta edição, João Tordo. O depoimento da escritora Hélia Correia ao jornal Público é eloquente: “Que tenho um pensamento de triunfo é o que eu gostaria de explicar. Porque há aqui triunfo: a plenitude de um cidadão inteiramente dedicado à sua polis e aos seus contemporâneos. E a plenitude de um ‘poeta’, daquele que faz obra e é por ela tornado glorioso”.

É nessa dimensão de exemplo que a ideia de uma “geração Saramago” pode fazer sentido. As parábolas alegóricas que são a matéria e o ato da ficção saramaguiana funcionam como sonhos instigantes, um genuíno cinema da imaginação. A constante defesa do escritor em relação à transposição para o cinema real – em particular o hollywoodesco – dos seus livros é, em si mesma, outra parábola exemplar. Permitiu apenas um filme, a um particular cineasta, o brasileiro Fernando Meirelles (que filmou o meu Saramago favorito, Ensaio sobre a Cegueira).

Em nenhum dos jovens escritores laureados com o Prêmio José Saramago se sente sequer uma nota da música do mestre – mas todos eles confessam a sua admiração diante do poder imagético e da energia verbal dessa obra. Saramago é difícil de copiar; o seu trajeto ensina precisamente a não temer as influências – e , sobretudo, a não nos vergarmos a elas. Ensina-nos também a não termos pressa e a não nos deixarmos encandear pelas sereias do sucesso – e esse é um ensinamento precioso, nestes tempos em que a literatura facilmente se confunde com a indústria da moda.

Creio que a felicidade que teve a coragem de procurar e alimentar na sua vida pessoal contribuiu para que o seu espírito crescesse em liberdade, inquietação e generosidade. Respeitou o neorrealismo dos seus camaradas políticos mas criou uma voz única – clássica, barroca, cubista. Fez o mesmo com a sua cabeça e a sua existência – largou a pele da ortodoxia sem rejeitar as suas origens nem abandonar os seus ideais. Os livros que nos deixa são feitos de tudo isto – e do riso de um homem que morreu de bem consigo e com a vida. Coisa rara.

Inês Pedrosa é escritora e directora da Casa Fernando Pessoa

Fonte: Revista Bravo!

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