A aventura de entrar no pensamento de Camus

“Albert Camus é uma figura fundamental do panorama literário do século XX, mas é também uma grande figura moral, pela qual passam as grandes contradições morais do mundo do pós-guerra”, disse ao DN António Mega Ferreira, presidente do CCB e admirador confesso deste escritor.

Na tarde cinzenta e chuvosa, as primeiras palavras a fazerem-se ouvir na sala Almada Negreiros pertenceram ao filósofo francês Jean-Paul Sartre. Num texto publicado depois da morte de Camus, a 4 de janeiro de 1960, Sartre lembrava “o humanismo insistente, estreito, puro, austero e sensual” deste escritor.

fjsO Estrangeiro, O Mito de Sísifo e O Exílio e o Reino foram as obras escolhidas para “dar ao público uma perspectiva sobre o pensamento de Camus, bem como a possibilidade de o reencontrar ou de o descobrir”, explicou Mega Ferreira.

O actor Pedro Lamares, a quem coube a leitura de excertos do romance O Estrangeiro, foi um dos primeiros a confessar o “maravilhamento” que a descoberta deste autor lhe trouxe.

“Vergonhosamente precisei de chegar aos 30 anos para ler Camus”, confessa o actor. “Mas este convite permitiu-me mergulhar no universo dele, na sua inteligência, na liberdade moral e no profundo humanismo das suas personagens”.

A liberdade é também, para Mega Ferreira, a grande questão que atravessa todo o pensamento do escritor e, provavelmente, a principal razão que “torna a sua obra intemporal”.

Apesar de Camus ter tido uma acção política activa , assumindo posições polémicas, como quando se afastou da esquerda francesa a propósito da guerra da Argélia, o CCB preferiu mostrar o lado humanista e moral que atravessou a sua vida e a sua obra.

O homem que escreveu sobre o absurdo e a estranheza da condição humana, que em 1957 recebeu o Nobel da literatura, está hoje no centro de uma polémica que, segundo Mega Ferreira, “ele consideraria ridícula e que, no fundo, não passa de um fait divers da política francesa”. A controvérsia deve-se à proposta do Presidente francês, Nicolas Sarkozy , de trasladar os restos mortais do escritor para o Panteão. O que pensaria de tudo isto o homem que, um dia, escreveu: “A posteridade é uma eternidade ilusória”? Para o director do CCB, “não faz sentido esta trasladação, mas também não faz sentido tanta polémica”. Porém, também considera que “este tipo de reconhecimento político não lhe acrescenta nada, nem traz mais leitores”.

Para lá de todas as polémicas, “a verdade é que há um retorno à obra e ao pensamento de Camus” e que se deve, sobretudo, à forma como ele mostra que “a liberdade é a única via possível para a felicidade”.

Para Pedro Lamares, o autor de A Peste é “profundamente apelativo, é mesmo uma lufada de ar fresco”. O actor considera que, por vezes, se dá uma imagem dos textos de Camus como sendo “difíceis e austeros, quando há nele um humor, uma leveza na forma como trata as questões e o quotidiano e que nos faz sentir muito próximos”, declara.

O grande contributo de Camus “consiste na forma como soube mostrar que o essencial é a coragem de enfrentar os valores dominantes sempre que eles são contra a moral”, conclui Mega Ferreira.

Fonte: dn.pt

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