A errância

Chego à polémica sobre o novo livro de José Saramago com mais de uma semana de atraso. Espero que me perdoem. Aproveitei para ler o livro.

Sim, eu sei que não era propriamente necessário, mas que diabo, um dia não são dias. Caso contrário, pensei, restar-me-ia dizer que Saramago é um ignorante filho de ignorantes cuja opinião não precisa de ser considerada. Ou sugerir que qualquer medíocre com disciplina pode ganhar um Nobel da Literatura – tal como eu, se treinar muito o drible e o chuto na bola ainda poderei um dia chegar a Eusébio. Ora ninguém me paga para escrever a crónica de Vasco Pulido Valente, não é verdade?

É certo, ter ganho o Nobel da Literatura não garante a ninguém imunidade contra a palermice. De todas as coisas que Saramago disse nas entrevistas de promoção, talvez uma me mereça particular reparo – dizer que a Bíblia não deveria estar ao alcance de crianças. Pelo contrário: as crianças não têm de ser poupadas a histórias, mesmo se cruéis e absurdas, como aliás grande parte das fábulas infantis são, que excitam a imaginação e a criatividade. Se a Bíblia não fosse fonte de grande literatura, Saramago não pegaria nela; porquê privar as crianças?

Quanto ao resto; um deus vingativo, rancoroso, capaz de fúrias indiscriminadas contra culpados e inocentes; um deus que testa os humanos como se fossem brinquedos; um deus que às vezes parece que “não gosta de nós” – bem, que escândalo pode haver? Qualquer pessoa que goste de ler o Antigo Testamento sabe disto. Deus diz: exterminem os amorreus, e os amorreus são exterminados. A mulher adúltera e o filho desobediente são apedrejados; o pai deve sacrificar o filho; o homem com apenas um testículo é proibido de entrar no templo, e por aí adiante.

A relação entre os humanos e o deus do Antigo Testamento – como diz Saramago “nem ele nos entende, nem nós o entendemos a ele” – é como uma história amorosa que poderia ter dado muito certo mas deu muito errado. Adão e Eva são expulsos do paraíso por um mal-entendido. Deus passa a vida descontente com o comportamentos daqueles que ele, afinal, criou. Chamar-lhe rancoroso e vingativo não tem nada de especial; entre todos, os judeus de Jonas a Flávio Josefo, Freud e Bellow (Job, que poderia ser acrescentado à lista, é gentio), que são quem melhor conhece esta história, não cessaram de notar o paradoxo – ser “escolhido” por Deus é ser escolhido para quê? Para uma história de perseguições e exílios?

E apesar de algumas picardias com Israel, este é o mais judaico dos livros de Saramago, principalmente no estilo de diálogo em perguntas que é tão típico da cultura judaica: “serei eu o guardião do meu irmão?”, “chamas a isso perdão?”, “que tipo de deus és tu?”, etc.

Quem interpela Deus assim asperamente é Caim, que neste impressionante livro seguimos do erro até à errância. Caim é alguém manchado, metafórica e literalmente (tem uma mancha na testa) pelo crime de ter matado o irmão. Enquanto foge do mundo através do mundo – a errância a que se entrega por ter errado -, tudo o que Caim diz vem da culpa que sente. Ele próprio, criminoso, tem rancor a Deus e não cessa de lhe apontar os crimes. É que é preciso um pecador para reconhecer outro pecador. Chama-se “recriminação”. E nisso estamos todos à vontade.

Rui Tavares

Historiador e Deputado do ao Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda

Artigo publicado no jornal Público a 28 de Outubro de 2009 

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