«A Europa na Geografia da História». Intervenção de improviso no Simpósio Sete Sóis Sete Luas

Bom, muito boa tarde. A minha função aqui é muito simples. Sou o porteiro, quer dizer, só tenho que abrir a porta, não tenho mais nada para fazer, e, simplesmente como porteiro educado dos bons tempos, abrirei a porta, afastar-me-ei para o lado, e deixarei passar, com a devida reverência, as pessoas que são efectivamente importantes neste encontro, que são o juiz Antonio di Pietro e o meu amigo Vasco Graça Moura.

Em todo o caso, não parecia mal que o porteiro, tendo sido tão atento, enfim, perguntasse às pessoas que entraram, como estão, se estão bem de saúde, se fizeram uma feliz viagem. Não faço essas perguntas mas terei de dizer que como porteiro estou muito feliz por ter aberto a porta a duas pessoas como estas. E o porteiro depois de eles terem entrado fica a pensar, que também os porteiros têm direito a pensar, na importância de que entrem, de vez em quando, pela sua porta determinadas pessoas. E no fundo isso é o que conta. E se essas pessoas se propõem, agora acabemos com a metáfora da porta e passemos à sala onde efectivamente nos encontramos, tratar um tema, um tema um pouco estranho, há que dizer que eu quando olhei pela primeira vez para o tema do encontro, «A Europa na Geografia da História», fiquei um bocado sem saber se me punha na Geografia, ou na História, ou na Europa. A Europa não pode ser entendida fora da sua Geografia e da sua História, mas a sua História não é com certeza só a história das batalhas, não é só a história dos pactos, das coroas, no tempo em que as havia; é algo muito mais, o viver da gente. Claro que de tudo isto não se poderá falar, será interessante ver por que ângulo é que um e outro vão pegar num tema que, tal como se apresenta, não é fácil. Mas queria em todo o caso eu, já que tenho esta obrigação de porteiro, dizer o seguinte: tem-se falado muito da Europa, e até agora quase não se disse nada da Europa. E quase não se disse nada da Europa, porque aqueles que deveriam falar da Europa não têm falado.

Claro que há uns outros que têm que falar da Europa e têm que falar e falaram e continuam a falar; são os políticos, são os governos, são os eurodeputados aqui dignamente representados, não se conheciam, mas onde é que vai a Europa se os eurodeputados não se conhecem? Esta é uma questão séria, uma questão que eles têm que esclarecer. Então o que me parece é que nós, nós a arraia-miúda, os que não somos governos nem somos políticos e não somos eurodeputados, ou deputados europeus, temos falado pouco da Europa, alguns quando falam dizem mal, outros dizem bem, outros só dizem mal, outros só dizem bem, mas um debate a sério, uma discussão a sério, para a qual os povos evidentemente não foram chamados, porque não houve referendos, não houve discussão pública, tudo isto sabemos que foi feito, como se dizia aqui há anos quando se fazia qualquer coisa contra a classe trabalhadora, se dizia nas costas dos trabalhadores. Neste caso os trabalhadores somos nós, quer dizer, inventaram-nos, puseram-nos nas mãos uma Europa para a qual nós não contribuímos nada; nem com as nossas certezas nem com as nossas dúvidas e não temos mais remédio que é aguentar. Mas agora quem se está a aguentar são eles e mal.

As ideias que fervem ali são, algumas delas, francamente preocupantes. Não vou discutir o alargamento, evidentemente, não vou discutir a nova constituição da Europa, não vou discutir uma série de coisas que estão por aí, em primeiro lugar porque me falta competência, tendo em conta que não passo de um porteiro. Eu tenho uma tese, todos temos teses mesmo quando lhe chamamos outra coisa, que é de que a Europa verdadeiramente não existe. Não, a Europa de facto não existe. Há um lugar geográfico e agora cá estamos, a história, a geografia a que se chamou Europa, e, portanto, ao longo da história, agora temos a outra vertente, ao longo da História esta Europa foi várias coisas diferentes, muitas delas contraditórias e a maior parte delas conflituosas entre si. Parece que o tempo da felicidade chegou no século XX, portanto a Europa uniu-se, resta saber se se reuniram os europeus, isso é outra questão. Não quero cair na má-língua de que a Europa é uma associação de interesses e pouco mais, mas eles deviam convencer-nos a nós, cidadãos, que são muito mais, que a Europa é muito mais do que isso.

Bom, a conferência não é minha, claro está, eu sou só o apresentador, o que abre a porta. O juiz Antonio di Pietro é conhecido mundialmente, digamos das tarefas de Hércules, de uma tarefa de Hércules que ficou por fazer, porque o Hércules não teve tempo, foi aquela a que o juiz Antonio di Pietro deitou mãos limpas porque nós estamos necessitados de mãos limpas neste mundo, de detergente que as lave e de honradez que as mantenha limpas, isso é o que nós estamos necessitados, porque o juiz Antonio di Pietro agora é um político, pelo menos as notícias que chegam cá são essas, evidentemente que não esqueceu, não pode ter esquecido, o que foi essa odisseia de que no fundo saiu vencido, este é o drama. A Itália de hoje não é um espelho onde um italiano honrado tenha gosto em contemplar-se. Não sei se será preciso voltar outra vez à batalha, a batalha pela legalidade, a batalha pela justiça, a batalha pela limpeza moral, de que o juiz Antonio di Pietro deu tantas provas.

O Vasco Graça Moura, eu estava a pensar o que é que diria dele, além de amigo, porque temos outros conflitos. Aliás, creio mesmo que é uma amizade toda feita de conflitos, e de diferenças e de oposições e, às vezes, de uma certa impaciência, como é que este senhor continua a pensar como pensa, isto penso eu dele; e ele, estando do outro lado, também diz a mesma coisa, como é que aquele senhor continua a pensar como pensa. Enfim, mas eu prefiro chamar-lhe, no sentido renascentista da palavra, que não se usava na Renascença, que não é italiana, eu prefiro chamar-lhe um homem dos sete ofícios. Com a diferença de que os homens, os grandes artistas da Renascença italiana eram homens de sete ofícios, muitos deles eram ao mesmo tempo poetas, eram ao mesmo tempo escultores, engenheiros, arquitectos e esse é o grande espírito, a grande maravilha do espírito renascentista estava aí, que o homem é capaz de fazer tudo, não tem que se especializar na falangeta do dedo mínimo. E o Vasco Graça Moura é, nesse bom espírito renascentista, um homem dos sete ofícios, tendo em conta que é um magnífico poeta. Eu acho que ele é mais magnífico poeta, um magnífico romancista, mas se calhar isso é por espírito de contradição, uma vez que eu também sou romancista e não quero que ele seja melhor do que eu, evidentemente. É um tradutor como poucos, é um ensaísta como poucos, é certo que até agora só conto quatro ofícios, mas tenho a impressão de que ele se quiser poderá acrescentar três ofícios mais e menos conhecidos de que passaremos todos a tomar nota. É uma satisfação grande para mim ter podido apresentá-los, terem-me dado a honra de os apresentar, é uma satisfação enorme para mim, pensar que nesta pequena cidade de Santa Maria da Feira, naquela região chamada antigamente Terras de Santa Maria, com dez mil habitantes, dez mil habitantes são menos do que as pessoas que vivem na Avenida da Liberdade, que trabalham, quero dizer. O que é que se passa na Avenida da Liberdade? Pois não se passa muita coisa, quer dizer, estão umas companhias aéreas, umas empresas, o Parque Mayer. O Parque Mayer, instituição importantíssima, mas que a partir de agora vai subir até às alturas, e aqui estão dez mil pessoas no interior, um interior que não é muito interior em todo o caso, mas que enfim, dez mil pessoas, que dão, da possibilidade de trabalhar numa comunidade, dão um exemplo que efectivamente merecia ser aproveitado, um lugar como este em que há uma orquestra sinfónica juvenil, com 120 ou 130 músicos que actuam com regularidade, onde há uma biblioteca que tem, para uma povoação de dez mil habitantes, treze mil pessoas inscritas, eu suspeito que já estão inscritos aqueles que ainda não nasceram, digamos, tenho essa ideia. Não é evidentemente isso, são pessoas de fora de Santa Maria da Feira que se inscrevem aqui e que dá, efectivamente, dá isto uma impressão de vitalidade cultural que desgraçadamente não é a regra deste mundo, deste mundo não, quando eu digo deste mundo, digo este país. Este país, como todos sabemos, mesmo que não queiramos dizê-lo, sobretudo porque há convidados estrangeiros, este país está mal.

Mas como a Itália também não está melhor, agora quem está bem é a Espanha, que tem um primeiro-ministro que leva o tempo a dizer «España va bien, España va bien, nos están mirando todos en Europa para hacerlo que estamos haciendo nosotros aquí, nosotros estamos enseñando a Europa como ay que gobernar», este é o primero-ministro Aznar.

Bom, já falei de mais, falei de mais mas queria dizer duas ou três coisas que, quem sabe, podem vir a ser discutidas, embora eu não intervenha na discussão. A discussão se depois se fizer será convosco e peço-vos encarecidamente. Andaram a convencer-nos, quando nós éramos meninos, provavelmente os jovens de agora já não, diziam-nos sempre «A palavra é de prata», «O silêncio é de ouro», quer dizer com essa coisa do negócio da diferença de valor entre o ouro e a prata, o que queriam era convencer-nos a que estivéssemos calados. Pois eu dir-vos-ei que a palavra é de ouro e o silêncio, às vezes, nem a prata chega. Portanto, quando chegar a hora de falar, de perguntar, de duvidar, de interpelar, vireis fazer o favor, dirijo-me sobretudo aos mais jovens, de abrir a boca e, porque agora pode-se, e como se pode se não se aproveita, então alguma coisa ficou aí por resolver, porque quando nós éramos os mais velhos daqui tínhamos a idade que vocês têm, o falar, é que para nós nem sequer o silêncio era de ouro, tínhamos que estar ausentes, fora das vistas dos adultos quase, portanto vamos a conversar, porque se de um encontro destes não se tira nenhum proveito, se foi apenas passar uma tarde mais ou menos bem passada, em boa companhia, pois não sei se valeu a pena. Mas para valer a pena tem que valer a pena; tem que haver intervenção e debate. Não tenham dúvida nenhuma em dizer que não gostam disto ou daquilo, não tenham dúvida nenhuma em dizer que não percebem essa História da Europa, eu também não percebo, portanto estão em boa companhia. Interroguem o que é isso da História, para que é que serve a História, serve, é um conto que nos contam para que nós depois o vamos repetindo ou é alguma coisa viva que é preciso questionar, que é preciso interrogar. E a Geografia, coitada da Geografia, já não há Geografia, não é? Nos últimos anos as fronteiras da Europa levaram um sopro que varreu tudo. Vai ser preciso repor outra vez as coisas nos seus lugares, com o problema de que não sabemos quais são os lugares das coisas, que essa é a grande questão europeia, não saber onde estão os lugares das coisas. Muito obrigado, eles que falem.

José Saramago

Pin It on Pinterest

Share This