A FLIP celebra Saramago

fjs“Não queria estar na pele da Pilar quando eu desaparecer, mas de toda a maneira vamos ficar perto um do outro, as minhas cinzas vão ficar debaixo da pedra do jardim”, ouve-se José Saramago dizer no vídeo que o realizador português Miguel Gonçalves Mendes preparou para apresentar na 8ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde o escritor foi ontem à noite homenageado. “Medo? Não. A morte para mim é a diferença entre estar e já não estar.” José Saramago, que morreu no dia 18 de Junho, vira-se para a câmara e diz: “Pilar, encontramo-nos noutro sítio” e apaga uma luz.

Os 40 minutos exibidos na Flip, com cenas que estão incluídas no documentário “José & Pilar” e outras que não estarão, fazem crer que Miguel Gonçalves Mendes quis fazer “um filme sobre a intimidade de duas pessoas extraordinárias”, como notou o jornalista e escritor brasileiro Arthur Dapieve, que conduziu a conversa que se seguiu com o realizador que durante três anos filmou a vida do Prémio Nobel.

A Tenda dos Autores, um dos locais onde se realizam as sessões com os escritores e convidados da Flip, estava cheia. “Pilar, vou para casa”, diz Saramago. E vai. Em seguida vê-se o escritor sentado à sua secretária na casa de Lanzarote, em Espanha, depois de ter colocado um disco de música clássica no leitor de CD. Olha para o computador, encosta-se para trás na cadeira como se estivesse a pensar, como se fosse difícil o processo de escrita. O espectador ainda não viu o ecrã. Ele pega no rato, clica: “Este para aqui e este para ali”. De repente, o público que assiste ao desata às gargalhadas. Saramago não está a escrever um novo livro, José está a jogar paciências no computador. “Está ganho. As cartas fazem uma espécie de dança” e são boas para que afugentar o Alzheimer, diz. Pouco depois, Pilar aparece, tem que ligar alguma coisa na secretária onde o escritor está sentado, e ele, com ar de garoto maroto, dá-lhe uma palmada no rabo. Também os vemos de mão dada, à noite, sentados no sofá a ver televisão.

Assistimos à rotina do dia-a-dia, ao casamento, à entrega a Pilar das páginas que José Saramago vai escrevendo, e a seguir, vemos a espanhola a traduzi-los para castelhano. A determinada altura as vozes dos dois sobrepõem-se, lêem os mesmos excertos dos livros em línguas diferentes (português e castelhano).

Ao contrário de escritores que viveram a boémia, “a minha vida não tem qualquer espécie de interesse. Onde eu ponho as coisas que são verdadeiramente importantes é nos meus livros”, afirma Saramago, lembrando que “o tempo aperta” e que quando o tempo aperta há um sentimento de urgência. Nos excertos de “José & Pilar”, que ontem no Brasil foram apresentados mundialmente pela primeira vez (a estreia nos cinemas portugueses está marcada para Novembro, mas haverá uma apresentação a 14 de Outubro no DocLisboa), assistimos ao momento em que dentro de um avião, algures entre a Europa e a cidade brasileira de São Paulo, Saramago se vira para a mulher e lhe diz: “Tive uma ideia sobre Caim”. Pilar, chama a hospedeira e pede: “Por favor uma cerveja, uma cerveja. Estou a ter um ataque de pânico.” Bebe a cerveja de um trago. Saramago teve a ideia daquele que acabou por ser o seu último livro.

O documentário possível

Miguel Gonçalves Mendes, que é também o realizador do documentário “Autografia” sobre Mário Cesariny que recebeu o Prémio Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, tem mais de 230 horas filmadas. Fez uma primeira montagem do filme com seis horas e agora tem uma versão final de duas horas. “O que acabámos de ver”, explica Miguel Gonçalves Mendes, “não tem a ver com o filme. O documentário não tem uma única entrevista. No filme Saramago não aparece como aqui a falar para a câmara. É mesmo só o dia-a-dia. Sem ser pejorativo, o filme é uma espécie de Big Brother da vida de José Saramago. Desde a ideia que ele teve para o livro «A Viagem do Elefante» (2008) até ao final, acompanhando uma fase muito má da vida dele que foi quando adoeceu.” Mas, assegura, o filme apesar de triste é também muito optimista, passa por lá a “vontade de viver e de amar”, sem “rodriguinhos”.

“Para dizer a verdade, não tenho o filme que queria. Precisava de mais seis meses de edição e não tenho dinheiro para o fazer. Já estou a montar há um ano e meio e portanto é uma loucura continuar a trabalhar” nele, afirmou Miguel Mendes. “José & Pilar” é co-produzido pela produtora 02, do realizador brasileiro Fernando Meirelles e pela produtora de Pedro Almodóvar, El Deseo. Apesar disso, Mendes, que também é um dos produtores do filme, disse na Flip que o filme foi muito caro, pois teve três anos de filmagens com viagens por várias partes do mundo. “Estou com dívidas de 100 mil euros e a reformular o empréstimo da minha casa. É assim, é a vida. Vivendo e aprendendo.”O realizador teve a ideia para este projecto depois de ter filmado José Saramago para um documentário que fez sobre a relação de Portugal com a Galiza. Quando o autor de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” viu o documentário premiado de Miguel Mendes sobre o poeta e pintor surrealista Mário Cesariny, disse-lhe: “Ah, Miguel eu aceito que faças o documentário sobre mim. Tenho é medo de não ser tão interessante como o Cesariny.”

O documentário “José & Pilar” termina com José Saramago a declarar a Pilar del Río que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, teria morrido muito mais velho do que quando chegasse a sua hora. O único Prémio Nobel da Literatura português esperava “morrer lúcido e de olhos abertos”. Pelo menos gostaria que fosse assim. E foi.

Isabel Coutinho

Fonte: publico.pt

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A última viagem de Saramago

Após 230 horas de tomadas em três anos de produção, vem ao mundo o filme “José & Pilar”, que resulta ser um documentário sobre os últimos dias de José Saramago, dirigido pelo jovem português Miguel Gonçalves Mendes, com lançamento previsto para 16 de novembro de 2010, simultaneamente no Brasil, na Espanha e em Portugal, desenvolvido em associação com a produtora O2 Filmes, de Fernando Meirelles, e a espanhola El Deseo, de Pedro Almodóvar, do qual um aperitivo de mais ou menos 40 minutos foi apresentado na Flip, no final da noite deste sábado, dia 7 de agosto, onde se pode ver e ouvir um escritor em plena atividade, cheio de ideias e sagacidade, apesar de encontrar-se às vésperas da morte, enquanto as câmaras o acompanham a toda parte, de sua Lanzarote ao Rio, ao México, à Finlândia, aonde mais houvesse leitores ávidos para vê-lo e jornalistas excitados para lhe repetir as mesmas perguntas de sempre, às quais ele responde quantas vezes queiram com suas descrenças, que soam como idiossincrasias entre os que crêem em deuses e heróis. Recebe impropérios, maldições. E muitas juras de amor. Quando começaram as rodagens, ele ia a meio na tarefa de escrever “A Viagem do Elefante”, que conta a história do paquiderme, chamado Salomão, com o qual o então rei de Portugal, D. João III, casado com Catarina da Áustria, presenteou o arquiduque Maximiliano II, no século 16. Em meio a muitos entreveros, desavenças e tolices de nobres, militares e religiosos, Salomão parece o mais sábio entre os personagens que se cruzam na travessia para o norte, em direção a Salzburgo. Saramago teve a ideia do romance ao entrar por acaso no restaurante Elefant, na cidade austríaca, uma, como se diz, casa de repasto em estilo moderno, internacional, “clean”, onde se serve a comida ocidental contemporânea. “O que faz o elefante? Anda, anda, anda e anda”, diz o escritor num trecho do filme. E há Pilar, a companheira da maturidade. Personagem forte de espanhola, em contraposição à serenidade do velho autor a caminho da morte, como caminha para o norte o sábio elefante Salomão. O filme acompanha a execução do livro, cujas dificuldades não lhe chegam a causar embaraço, e Saramago diz que o melhor é deixar que o tempo passe e as coisas aconteçam e enfim o livro se faça. Enquanto isso, ouve Mozart jogando paciência no computador. “Para que não entre o Alzheimer”, justifica-se. No embate entre o homem e o tempo, desenrola-se sutilmente o temor de que o escritor não consiga terminar o romance antes que chegue a morte, aquela mesma que ele havia domesticado no romance “As Intermitências da Morte”, fazendo-a render-se ao amor. E há Pilar, que o encontrou quando ele tinha 65 anos, ela 28 mais jovem, e o acompanhou fielmente até o fim. “José&Pilar” também fala desse amor, por palavras, dedos entrelaçados, um malicioso tapa no traseiro capturado quase clandestinamente pela câmara, Pilar amadurecendo enquanto José envelhecia, mas de um envelhecimento cheio de vida, de reflexões vigorosas. Conversam muito, ele falando espanhol, quem sabe para honrar o território das Canárias onde fica Lanzarote, e o espectador se lembra que o escritor abandona seu idioma materno para melhor se entender com ela. “Perdi o emprego [de diretor-adjunto] no Diário de Notícias de Lisboa e tomei a decisão da minha vida”, conta, no filme. A decisão, diante do fato de que, já maduro, dificilmente conseguiria outro emprego de jornalista, foi a de tentar viver da literatura. O ano, 1975. Escreve bastante a partir de 1976, mas a obra que o ergue definitivamente entre os grandes vem a lume em 1980. “Levantado do Chão”, mais do que livro e metáfora, é o ponto de virada na literatura contemporânea em língua portuguesa. “Até então, eu tinha livros, mas não tinha uma obra”, comenta. O filme começou a ser produzido em 2008. Saramago teve tempo de terminar “A Viagem do Elefante” e ainda produziu “Caim”, mais uma vez surpreendendo a crítica e arrebatando os leitores. Morreu em junho de 2010, aos 87 anos. Serenamente, a dormir. Deixa-nos muitas horas de sua intimidade, de seu gênio criativo, de sua visão de mundo. E para onde iria? Por sua vontade, suas cinzas repousam sob as pedras do jardim, na casa de Lanzarote, em meio ao impressionante cenário cinzento da ilha vulcânica. Cinzas do homem em meio às cinzas do tempo. Para onde mais iria, afinal, ele que durante boa parte do filme repete sua convicção de que após a morte há apenas o nada, e que sua vida, não tendo tido qualquer coisa de interessante, nada de agitação como as daqueles que viveram na boemia, porque afinal o céu não existe e que a partir do momento em que se inventou o pecado, o inventor passa a ter o poder sobre os outros, e mesmo não havendo céu e inferno há quem creia que existem, e que tudo acaba, hoje estou aqui e já não estarei, diz, e sente como uma perda o acabar de cada dia, deve ser isto a velhice, mas afinal o universo nem sabe que existimos, o universo não saberá que Homero escreveu a Odisséia, ele não queria estar na pele da Pilar, ela é uma espécie de Santa Teresinha de Jesus – vê, ouve e não cala – ela, que foi monja teresiana. Há também, na exibição do filme, o diretor Miguel e um apresentador, protagonistas apenas para os créditos, comparam-no a Camões e Machado de Assis, Saramago teria dado boas gargalhadas, que Saramago ainda fala e deixa seu último paradoxo: ele, que não crê no depois, olha serenamente para a câmara e diz: “Pilar, encontramo-nos em outro sítio”.

Fonte: flip.org.br

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