A pergunta

A pergunta é duvidosa, não porque sejam duvidosas, uma por uma, as palavras que a compõem, mas porque não se pode saber, exactamente, o que tinha na cabeça o perguntador quando a formulou. Tomá-la à letra, seria demasiado simples: todos contamos histórias. Contam-nas os romancistas, contam-nas os dramaturgos, contam-nas os poetas, contam-nas também aqueles que não são, nem hão-de ser, poetas, dramaturgos ou romancistas. Todo o falar é uma história, as palavras ditas entre o levantar da cama, pela manhã, e o regresso a ela, chegada a noite, incluindo as do sonho, ou as que o sonho descreveriam, representam uma história, contínua ou fragmentada, e podem, como tal e em qualquer momento, ser organizadas em história escrita.p> Mas a pergunta, tal como é feita em francês, e o seria em português também, transporta consigo um outro significado, irónico, talvez pejorativo, que consiste em insinuar que o escritor é um malicioso veiculador de enganos, de ilusões, de falsidades, enfim, de mentiras, para tudo dizer numa só palavra. Isso são histórias, respondemos nós a um interlocutor que, intencionalmente ou não, abusa da nossa credulidade. A diferença, neste caso, está em que o escritor, tudo quanto escreve, escreve-o com intenção, umas vezes clara, outras vezes oculta, óbvia e visível para as necessidades duma história que tem de ser «reconhecida» passo a passo, mas também escondida atrás da imediatidade consciente para que mais profundos possam vir a ser os efeitos de ressonância subsequentes. Digamos, então, que o escritor é um mistificador impenitente e sem desculpa: conta histórias e sabe que as suas histórias não são mais do que isso, umas quantas palavras suspensas em equilíbrio instável, frágeis, assustadas pela vertigem do não-sentido que as empurra, soltas ou organizadas, para o caos dos códigos cuja chave se perdeu.

Mas, não o esqueçamos, assim como as verdades puras não existem, também não existem as puras falsidades. Porque se toda a verdade leva consigo, inevitavelmente, uma parte de falsidade, nenhuma falsidade o é tanto qua não veicule uma parte de verdade. A falsidade contém, portanto, duas verdades: a sua verdade própria («Se eu sou falso e digo que o sou, digo uma verdade»), e a verdade outra de que acaba por ser veículo, voluntário ou involuntário, e leve ela, ou não leve, por sua vez, uma parte de falsidade. Convenho que a clareza, tanto a do pensamento como a da expressão, não abunda no que acabei de escrever, mas a culpa não a tenho eu, a vida é que não é clara.

Se me perguntais, pois, se ando por aí a contar histórias, responderei que sim, que tudo quanto conto são histórias, de umas e das outras, fingimento de verdades, ou verdades do fingimento, mas a história que, em minha opinião, mais deverá importar ao leitor, contra a própria evidência material, não é a que parece ser-lhe proposta na obra escrita. Um livro não é constituído apenas por personagens, situações, peripécias, lances, surpresas, efeitos de estilo, exibições de técnica narrativa, um livro é, sobretudo, o que, nele, puder ser encontrado e identificado com o seu autor. Isto não significa que o leitor tenha de entregar-se a um trabalho de detective ou de geólogo, procurando pistas ou pesquisando camadas tectónicas, ao fim das quais, como um culpado ou uma vítima, ou como um fóssil, estaria o autor. Pelo contrário: o autor está no livro, o autor é todo o livro, mesmo que o livro não seja o autor todo. Não foi para chocar a sociedade do tempo que Flaubert declarou que Madame Bovary era ele próprio. Aliás, pode dizer-se que a afirmação não peca por excesso, mas por defeito: Flaubert foi também o marido e o amante de Ema, foi a casa e a rua, foi a cidade e aqueles quantos, de todas as condições, que nela viviam, pois que a imagem e a compreensão de tudo isso tiveram de passar, inteiras, por um só homem, Gustave Flaubert, o autor. Ema Bovary é Gustave Flaubert porque sem ele seria nada.

Contamos histórias, pois claro. Contamos a nossa própria história, não a da vida, não a história biográfica, mas essa outra que, em nosso próprio nome, dificilmente teríamos a coragem de contar, não por dela nos envergonharmos, mas porque o que há de grande no ser humano é grande de mais para caber em palavras, e aquilo em que somos geralmente pequenos e mesquinhos é a tal ponto quotidiano e comum que não levaria qualquer novidade a esse outro grande e pequeno que é o leitor. Talvez por tudo isto alguns autores, entre os quais me incluo, favoreçam, nas histórias que contam, não a história do que vivem e vêm viver, mas a história da sua própria memória. Somos a memória que temos, e essa é a história que contamos.

José Saramago

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