A Viagem do Elefante no “Los Angeles Times”

fjsEra uma vez — num tempo de guerra civil e de espectáculo, quando o fervor Protestante varreu a Europa e a Inquisição intimidava os fiéis — um elefante indiano que viajou a pé de Lisboa para Viena. Quatro séculos e meio depois, esta árdua e inverosímil caminhada inspirou o Nobel português José Saramago para escrever o seu mais optimista, brincalhão, humorístico e mágico livro, uma nota de graça escrita perto do fim da sua vida.

Como Cervantes e Voltaire, Swift e Twain, Saramago, que morreu em Junho aos 87 anos, era adepto da distorção da realidade para fins satíricos. A sua feroz oposição à longa ditadura de Salazar moldou os seus romances mais violentos, incluindo Ensaio Sobre a Cegueira (1995), uma parábola negra na qual uma cidade contemporânea mergulha no caos e na crueldade depois de uma epidemia tornar a população cega.

Em comparação, A Viagem do Elefante é uma brincadeira divertida. Ele nasce de outra fonte da mestria de Saramago, o seu grande amor pelo seu avô materno, Jerónimo, um guardador de porcos analfabeto que o introduziu à grande arte de contar histórias. Saramago honrou-o em 1998 no seu discurso do Nobel como “esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras.” A Viagem do Elefante começa em 1551, quando o católico rei português, D. João III e sua mulher, Catarina de Áustria, enviam o elefante Salomão como prenda de casamento ao seu primo, o pró-Luterano Arquiduque Maximiliano de Áustria.

Saramago magica um elenco de personagens ficcionais que encarnam os baseados nos registos históricos. O primeiro de entre eles é Subhro, o cornaca ou tratador de Salomão.

“Escarranchado sobre o encaixe do pescoço com o tronco maciço de salomão, manejando o bastão com que conduz a montada,” escreve Saramago, o cornaca “prepara-se para ser a segunda ou terceira figura desta história, sendo a primeira, por natural primazia e obrigado protagonismo, o elefante salomão.” (O terceiro é o Arquiduque Maximiliano, que surge a meio do livro com “a colorida cauda de pavão dos parasitas da corte.”)

Subhro é um homem astuto que estaria perto do fundo da rígida hierarquia caso não estivesse fora dela. Para manter o seu trabalho e preservar a saúde e a segurança de Salomão, ele tem de estar preparado para entender-se com toda a gente que encontra, incluindo o capitão português que comanda a comitiva e o Arquiduque austríaco. Desde cedo, convence o capitão a reorganizar a escolta, colocando os lentos bois que carregam a comida e a água para Salomão à frente de dúzias de cavaleiros e carregadores.

Saramago criou um cornaca tão intensamente observador, de espírito independente e astuto quando em contacto com a autoridade, que seria perfeitamente actual nos tempos modernos. Qualquer um diante de um patrão autocrático reconhecerá o momento em que Subhro, rebaptizado de Fritz a meio da viagem pelo Arquiduque, sensatamente caracteriza o seu novo senhor: “…o comandante da cavalaria portuguesa era um homem com quem se podia falar, um amigo, não um arquiduque autoritário como este, que, além de ser genro de carlos quinto, não se vê que outros méritos possua.”

O caminho para Viena está repleto de perigos, incluindo uma alcateia de lobos que pensa “na sorte grande que seria […] dispor daquelas toneladas de carne logo à saída da toca,” e passagens mortíferas pelo Alpes. Na sua grande parte, o gigante Salomão mantém a sua plácida natureza, deslumbrando todos os que testemunham a sua passagem. Um padre de aldeia pede ao elefante que colabore num falso milagre; outro tenta um exorcismo. E Salomão gentilmente acalma uma multidão em pânico representando um acto de compaixão.

A Viagem do Elefante é um conto rico de ironia e empatia, regularmente interrompido por brilhantes reflexões sobre a natureza humana e comentários sobre os poderosos que insultam a dignidade humana. Lendo a densa narrativa de Saramago, uma torrente quase contínua de palavras sem parágrafos, pontos finais ou aspas, penso na voz do seu avô, humanizando a noite com histórias suspensas de “lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias.”

E o que acontecerá quando o elefante chega a Viena?

Saramago dá ao cornaca as últimas, embora duradouras, linhas: “[…] irão dar-lhe muitas palmas, irá sair muita gente à rua, e depois esquecem-se dele, assim é a lei da vida, triunfo e olvido.”

Jane Ciabattari, Los Angeles Times

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