A Viagem do Elefante no The Guardian: a mão do mestre

fjs“O passado é uma área imensa de chão empedrado que muitas pessoas gostariam de percorrer como se fosse uma auto-estrada, enquanto outros se movem pacientemente de pedra em pedra, levantando cada uma porque precisam de saber o que se esconde por baixo. Por vezes, escorpiões rastejam ou centopeias […] mas não é impossível que, pelo menos uma vez, um elefante possa aparecer…”

Quando morreu no último mês, o homem que escreveu estas palavras em A Viagem do Elefante, José Saramago, era um homem idoso, de 87 anos. As suas preocupações, as suas ideias políticas, as suas paixões podiam parecer ultrapassadas: um comunista obstinado impaciente para com os ditadores, subversivo das ortodoxias, desrespeitador das corporações internacionais, um camponês nascido num país marginal e identificando-se sempre com os menos poderosos, um radical que viveu numa época em que até os liberais são ditos como de esquerda… Mas o permanente radicalismo intransigente da sua arte torna-o impossível de afastamento das lotadas salas de chat do presente. Ele adiantou-se-nos; ele está à nossa frente. O seu trabalho pertence ao nosso futuro. E isto conforta-me. Enquanto pacientemente levantamos pedras nos infindáveis campos da literatura moderna, devemos esperar escorpiões e larvas, mas é agora uma certeza que, pelo menos por uma vez, um elefante apareceu.

O discurso de Saramago na aceitação do Nobel em 1998 foi característico na sua teimosa auto-referência e limitação. Falou de si e do seu trabalho. Mas falou, sobretudo, com uma simplicidade arduamente conquistada que lhe permitiu dizer grandes coisas de forma tranquila. Soou como um homem pensativo e sério falando com um amigo. Tendo falado dos seus avós, camponeses portugueses, e das personagens nos seus primeiros romances, avançou para dizer: “foi com tais homens e mulheres do chão levantados, pessoas reais primeiro, figuras de ficção depois, que aprendi a ser paciente, a confiar e a entregar-me ao tempo, a esse tempo que simultaneamente nos vai construindo e destruindo para de novo nos construir e outra vez nos destruir. Só não tenho a certeza de haver assimilado de maneira satisfatória aquilo que a dureza das experiências tornou virtude nessas mulheres e nesses homens: uma atitude naturalmente estóica perante a vida. Tendo em conta, porém, que a lição recebida, passados mais de vinte anos, ainda permanece intacta na minha memória, que todos os dias a sinto presente no meu espírito como uma insistente convocatória, não perdi, até agora, a esperança de me vir a tornar um pouco mais merecedor da grandeza dos exemplos de dignidade que me foram propostos na imensidão das planícies do Alentejo.”

E, chamando a si mesmo “o aprendiz”, disse acerca do seu talvez mais poderoso livro: “Cegos. O aprendiz pensou: «Estamos cegos», e sentou-se a escrever o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante.”

Na última frase desta eloquente afirmação, Saramago não diz homens-semelhantes mas criaturas-semelhantes. Para ele “o homem” não é o único objecto do interesse humano, em quem todos os valores e sentidos são inerentes, mas sim o membro de uma grande comunidade. Um alerta que Saramago nos envia e que nos diz que não somos o todo da criação e que o fim da criação é, normalmente, um cão. Desenvolvi um simples sistema de avaliação para a sua obra ficcional: os livros com um cão são melhores do que os que não têm um cão; quanto mais importante o cão, melhor o livro.

Em A Viagem do Elefante a sua recordação da importância do não-humano assume uma escala ainda maior. Não é portanto surpreendente que o avalie num nível muito alto da sua obra, e que imediatamente, e sem qualquer esforço, o junte aos mais proibitivos romances de que acabei por gostar mais – A Jangada de Pedra, Ensaio Sobre a Cegueira, A Caverna.

A História confirma que em 1551, um elefante fez uma viagem de Lisboa a Viena, escoltado primeiro por enviados do Rei D. João III de Portugal e depois por oficiais do Arquiduque Maximiliano da Áustria. O elefante Salomão e o seu cornaca tinham feito já uma longa viagem por mar de Goa e passado um par de anos esperando num estábulo em Lisboa, antes de partirem para Valladolid como oferta do rei ao arquiduque, que viajou com ele para Itália de barco e através dos Alpes para Viena. No romance, Salomão e o seu cornaca Subhro (a quem o arquiduque renomeia, com a verdadeira infelicidade Habsburguiana, Fritz) avançam através de várias paisagens num ritmo lento, assistidos por vários funcionários e militares, e encontrando pelo caminho aldeões e habitantes dos vários locais que, de forma diferente, interpretam o súbito enigma de um elefante a entrar nas suas vidas. E esta é a história.

É extremamente divertida. O velho Saramago escreve com uma ligeira mão de mestre, o humor é terno, com um gozo tão temperado pela paciência e pela piedade que a picada se afasta e a inteligência mantém a sua vitalidade.

O episódio que começa com o cornaca discutindo religião com o capitão português é particularmente cativante. Tendo explicado que ele é Cristão, mais coisa menos coisa, Subhro começa a falar ao soldado sobre Ganesh. Tu sabes obviamente muito sobre Hinduismo, diz o capitão. Mais ou menos, senhor, mais ou menos, diz o cornaca, e explica como Shiva corta a cabeça de seu filho Ganesh e a substitui por uma cabeça de elefante. “Contos de fadas,” diz um soldado, e o cornaca responde: “Como aquele sobre o homem que, tendo morrido, ressuscitou no terceiro dia.” Camponeses de uma aldeia próxima ouvem com interesse. E concordam: “Não há muito sobre um elefante, verdadeiramente, quando andaste de volta de um, viste tudo o que havia para ver.” Mas a discussão religiosa desperta-os e acordam o padre para lhe dar as importantes notícias: “Deus é um elefante, padre.”

fjs

O padre sabiamente responde: “Deus está em todas as suas criaturas.” O porta-voz retorque: “Mas nenhum deles é deus.” “É tudo o que necessitaríamos,” diz o padre. Os camponeses argumentam até que o padre conclui prometendo ir e exorcizar o elefante: “Juntos,” diz-lhes, “lutaremos pela nossa santa religião, e relembra, o povo unido jamais será vencido.” No dia seguinte finge realizar um exorcismo, mas engana-os, usando o falso latim e não usando água benta; e o elefante castiga-o por isso; ou por qualquer outra razão, e embora sendo um animal educado, pontapeia-o, ainda que gentilmente. Todo o episódio é uma série de contidos milagres de absurdo, um riso surdo emergindo de uma profunda, resignada sabedoria afectuosa.

No seu entendimento sobre as pessoas, Saramago traz-nos algo muito raro – uma desilusão que permite o afecto e a admiração, um perdão claro. Ele não espera muito de nós. Ele está, talvez, próximo no espírito e no humor do nosso primeiro grande escritor, Cervantes, do que outro romancista desde então. Quando o sonho da razão e a esperança da justiça estão interminavelmente perdidas, o cinismo é a única saída; mas Saramago o teimoso camponês não escolherá a saída mais fácil.

Claro que ele não era um camponês; ele era um homem culto e sofisticado, um editor e jornalista, durante anos um habitante da cidade; ele amava Lisboa, e trata em muitos dos seus romances os assuntos da vida urbano-industrial. Ainda assim, olha para aquela vida a partir de um sítio fora da cidade, um local onde as pessoas fazem a sua própria vida com as suas mãos. Ele não oferece uma idílica regressão pastoral, mas uma realista sensação de onde e como as pessoas comuns genuinamente se ligam ao que fica de fora do nosso mundo comum.

No discurso Nobel, disse: “Não podendo nem ambicionando aventurar-me para além do meu pequeno terreno de cultivo, restava-me a possibilidade de escavar para o fundo, para baixo, na direcção das raízes. As minhas, mas também as do mundo, se podia permitir-me uma ambição tão desmedida.” Esta dura, paciente escavação é o que dá a um livro tão ligeiro e delicioso como este a sua profundidade e o seu peso. Não é uma mera fábula, embora a história de uma viagem de um elefante pelas loucuras e superstições do século XVI possa sê-lo. Não existe uma moral. Não existe um final feliz. O elefante Salomão chegará a Viena, sim; e então, dois anos depois morrerá. Mas as suas pegadas manter-se-ão na mente do leitor: profundas, redondas impressões na lama, não levando à corte imperial austríaca ou a qualquer lugar conhecido, mas apontando, talvez, um mais compensador itinerário a ser seguido.

Ursula K Le Guin

The Guardian, 24 de Julho de 2010

*

The Elephant’s Journey by José Saramago

“The past is an immense area of stony ground that many people would like to drive across as if it were a motorway, while others move patiently from stone to stone, lifting each one because they need to know what lies beneath. Sometimes scorpions crawl out or centipedes, fat white caterpillars or ripe chrysalises, but it’s not impossible that, at least once, an elephant might appear. . .”

When he died last month, the man who wrote those words in The Elephant’s Journey, José Saramago, was an old man, 87 years old. His preoccupations and politics and passions might seem to belong to a past age: a diehard communist impatient of dictators, subversive of orthodoxies, disrespectful of international corporations, peasant-born in a marginal country and identifying himself always with the powerless, a radical who lived on into an age when even liberals are spoken of as leftist . . . But the still more intransigent radicalism of his art makes it impossible to dismiss him from the busy chatrooms of the present. He got ahead of us; he is ahead of us. His work belongs to our future. I take comfort in this. As we patiently lift stones in the endless fields of modern literature, we must expect scorpions and grubs, but it is now certain that, at least once, an elephant has appeared.

Acceptance of a Nobel prize is an almost irresistible invitation to one of Shelley’s unacknowledged legislators to do a bit of legislating. Saramago’s Nobel speech in 1998 was characteristic in its stubborn self-reference and limitation. He talked about himself and his works. He talked, however, with a hard-won simplicity that allowed him to say large things quietly. He sounded like a thoughtful, serious man talking to a friend. Having spoken of his grandparents, Portuguese peasant villagers, and of characters in his early novels, he went on to say: “It was with such men and women risen from the ground, real people first, figures of fiction later, that I learned how to be patient, to trust and to confide in time, that same time that simultaneously builds and destroys us in order to build and once more to destroy us. The only thing I am not sure of having assimilated satisfactorily is something that the hardship of those experiences turned into virtues in those women and men: a naturally austere attitude towards life. Having in mind, however, that the lesson learned still after more than twenty years remains intact in my memory, that every day I feel its presence in my spirit like a persistent summons, I haven’t lost, not yet at least, the hope of meriting a little more the greatness of those examples of dignity proposed to me in the vast immensity of the plains of Alentejo.”

And, calling himself “the apprentice”, he said of perhaps his most powerful book: “Blind. The apprentice thought, ‘We are blind’, and he sat down and wrote Blindness to remind those who might read it that we pervert reason when we humiliate life, that human dignity is insulted every day by the powerful of our world, that the universal lie has replaced the plural truths, that man stopped respecting himself when he lost the respect due to his fellow-creatures.”

In the last phrase of this eloquent sentence, Saramago doesn’t say fellow-men, but fellow-creatures. To him “man” is not the sole subject of human interest, in whom all value and meaning inheres, but a member of a large household. Saramago’s reminder to us that we aren’t the be-all and end-all of creation is, usually, a dog. I developed a simple ranking system for his fiction: the books with a dog are better than the ones with no dog; the more important the dog, the better the book.

In The Elephant’s Journey his reminder of the importance of the nonhuman is on a far larger scale. So it isn’t surprising that I rank it very high in his work, and that it immediately, with no effort at all, joined the more forbidding novels that I have come to love best – The Stone Raft, Blindness, The Cave.

History attests that in 1551, an elephant made the journey from Lisbon to Vienna, escorted first by officers of King João III of Portugal, then by officers of the Archduke Maximilian of Austria. Solomon the elephant and his mahout had already made a long sea voyage from Goa and spent a couple of years standing about in a pen in Lisbon, before setting off for Valladolid as a present from the king to the archduke, who travelled with him to Italy by ship and across the Alps to Vienna. In the novel, Solomon and his mahout Subhro (whom the archduke renames, with true Habsburg infelicity, Fritz) proceed through various landscapes at an unhurried pace, attended by various functionaries and military men, and meeting along the way with villagers and townsfolk who variously interpret the sudden enigma of an elephant entering their lives. And that’s the story.

It is extremely funny. Old Saramago writes with a masterfully light hand, and the humour is tender, a mockery so tempered by patience and pity that the sting is gone though the wit remains vital.

The episode that begins with the mahout discussing religion with the Portuguese captain is particularly endearing. Having explained that he is a Christian, more or less, Subhro undertakes to tell the soldiers about Ganesh. You obviously know a good deal about Hinduism, says the captain. More or less, sir, more or less, says the mahout, and goes on to explain how Shiva cut off his son Ganesh’s head and replaced it with an elephant’s head. “Fairy tales,” says a soldier, and the mahout says: “Like the one about the man who, having died, rose on the third day.” Peasants from the nearby village are listening with interest. They have agreed: “There’s not much to an elephant, really, when you’ve walked round him once, you’ve seen all there is to see.” But the religious discussion arouses them and they wake up their priest to inform him of the important news: “God is an elephant, father.”

The priest sagely replies: “God is in all his creatures.” The spokesman retorts: “But none of them is god.” “That’s all we’d need,” says the priest. The peasants argue till the priest settles it by promising to go and exorcise the elephant: “Together,” he tells them, “we will fight for our holy religion, and just remember, the people united will never be defeated.” Next day he pretends to perform an exorcism, but he cheats, using pig-Latin and unblessed water; and the elephant punishes him for it; or at any rate, for whatever reason, though usually a polite animal, it kicks him, though gently. The whole episode is a series of contained miracles of absurdity, quiet laughter rising out of a profound, resigned, affectionate wisdom.

In his understanding of people Saramago brings us something very rare – a disillusion that allows affection and admiration, a clear-sighted forgiveness. He doesn’t expect too much of us. He is perhaps closer in spirit and in humour to our first great novelist, Cervantes, than any novelist since. When the dream of reason and the hope of justice are endlessly disappointed, cynicism is the easy way out; but Saramago the stubborn peasant will not take the easy way out.

Of course he was no peasant; he was a cultivated and sophisticated man, an editor and journalist, for years a city-dweller; he loved Lisbon, and he deals in many novels with the issues of urban/industrial life. Yet he looks on that life from a place outside the city, a place where people make their own living with their own hands. He offers no idyllic pastoral regression, but a realistic sense of where and how common people genuinely connect with what is left of our common world.

In the Nobel talk, he said: “As I could not and did not aspire to venture beyond my little plot of cultivated land, all I had left was the possibility of digging down, underneath, towards the roots. My own but also the world’s, if I can be allowed such an immoderate ambition.” That hard, patient digging is what gives so light and delightful a book as this its depth and weight. It is no mere fable, as the story of an elephant’s journey through the follies and superstitions of 16th-century Europe might well be. It has no moral. There is no happy ending. The elephant Solomon will get to Vienna, yes; and then two years later he will die. But his footprints will remain in the reader’s mind: deep, round impressions in the dirt, not leading to the Austrian imperial court or anywhere else yet known, but indicating, perhaps, a more permanently rewarding direction to be followed.

Ursula K Le Guin’s Lavinia is published by Phoenix.

The Guardian, 24 July 2010

Pin It on Pinterest

Share This