Acerca de um «apunte» de Juan de Mairena

(Sobre la política y la juventud.)

La política, señores — sigue hablando Mairena –, es una actividad importantísima… Yo no os aconsejaré nunca el apoliticismo, sino, en último término, el desdeño de la política mala, que hacen trepadores o cucañistas, otro propósito que el de obtener ganancia y colocar parientes. Vosotros debéis hacer política, aunque otra cosa os digan los que pretenden hacerla sin vosotros, y, naturalmente, contra vosotros. Sólo me atrevo a aconsejaros que la hagáis a cara descubierta; en el peor caso con máscara política, sin disfraz de otra cosa; por ejemplo: de literatura, de filosofía, de religión. Porque de otro modo contribuiréis a degradar actividades tan excelentes, por lo menos, como la política, y a enturbiar la política de tal suerte que ya no podamos nunca entendernos.

Y a quien os eche en cara vuestros pocos años bien podéis responderle que la política no ha de ser, necesariamente cosa de viejos. Hay movimientos políticos que tienen su punto de arranque en justificada rebelión de menores contra la inepcia de los sedicentes padres de la patria. Esta política, vista desde el barullo juvenil, puede parecer demasiado revolucionaria, siendo, en el fondo, perfectamente conservadora. Hasta las madres – ¿hay algo más conservador que una madre? – pudieran aconsejarla con estas o parecidas palabras: «Toma el volante, niño, porque estoy viendo que tu papá nos va a estrellar a todos – de una vez – en la cuneta del camino.»

Quando Antonio Machado isto escreveu, em um qualquer dos anos de 1934 a 1936, tinha, das suas idades de homem, bastante experiência e conhecimento de causa para falar de novos e velhos com o misto de cepticismo e de ilusão que reconhecemos nesta página de Juan de Mairena. Sessenta anos chegam para compreender certos mecanismos do mundo, mesmo quando se vive tão fora das suas vantagens e servidões, como é regra geral dos poetas, e deste o foi em particular. Considerem-se, por outro lado, as circunstâncias da vida pública da Espanha de então – crise económica, conflito institucional, instabilidade política, agitação social –, e encontraremos definido o quadro ideológico propício àquelas manifestações de enfado e desencanto que se diz serem características da velhice, mas que, não raro, exprimem antes a profunda mágoa, civicamente justificada, de ter de assistir à derrocada, já não direi dos sonhos ideais, mas das simples esperanças duma vida justa. No horizonte de Espanha perfilava-se o espectro da guerra civil, a Europa e o Mundo contavam as armas e os homens.

Apesar de tudo, Juan de Mairena ainda se mostra confiante. Divide salomonicamente a política em boa política e má política, e, condenando com rigor os políticos da política má, que são, mas não por coincidência, os velhos, apela aos jovens para que façam eles a boa política, aquela que vai ser, supõe-se, portadora da salvação da pátria e da felicidade dos cidadãos. É verdade que a Juan de Mairena, um irónico, convirá lê-lo sempre duas vezes, não tanto para descobrir nas palavras sentidos segundos e terceiros, mas para subtilizar o tom, entender a mudança do registo estilístico, seguir o desenho do sorriso. É que, de súbito, torna-se-nos irresistível perguntar-lhe se, de facto, acredita no que está a escrever. Não me refiro, claro está, ao desdém com que tratou os oportunistas que fazem, ou tornam, má a política – esses trepadores o cucañistas que se servem dela para ganhar dinheiro e colocar os parentes –, mas é duvidoso que Mairena não tivesse presente, ao reflectir nesta questão, a própria vida de Machado, que, quando jovem, sem dúvida haverá esperado do mundo bem mais e bem melhor do que o mesmo mundo agora lhe estava impondo com a indomável força dos factos. Trinta anos depois, será a vez de os jovens de 68 se negarem a aceitar passivamente o caminho que lhes tinha sido aberto e confirmado pelos pais – esses mesmo (falo de gerações, não de países ou de povos) de quem Juan de Mairena, neste seu apunte, parecia esperar tantas e tão diferentes coisas. Hoje, e não creio que haja exageração crítica neste juízo, pais e filhos de todo o mundo, unidos, estão finalmente de acordo sobre os fins úteis da política e sua pragmática meta: obter ganancia y colocar parientes. Homem céptico, desenganado, filósofo de costela estóica, porém ingénuo e simples de seu natural, Juan de Mairena imaginava poder fazer-se política de cara descoberta, ou, se máscara tivesse de levar-se, que ela fosse, precisamente, a máscara política. Ora, nós sabemos, e surpreende-me que o não soubesse ele então, que ninguém nunca usa a sua própria máscara, e que a política precisa, não apenas de uma máscara, mas de todas, trocando de cara, de figura e de ademanes conforme as necessidades tácticas e estratégicas, chegando ao ponto, nos casos reconhecidamente geniais, de usar mais do que um disfarce ao mesmo tempo, o que, como é óbvio, não significa que se reconheça de igual maneira em cada um deles. A mais sucinta lição da História diz-nos que a máscara foi mil vezes religiosa, que em alguns casos trouxe visagens filosóficas, e nestes modernos tempos nossos já se torna escândalo ver com que frequência a política se vem aproveitando da literatura. Isto para não falar do espectáculo: não é preciso mais que ler Mairena, para saber que ele não viveu bastante para conhecer a televisão.

Com estas reflexões, de tinta pessimista, não tenho em mente levar os jovens a afastarem-se da política. Bem pelo contrário, o que eu desejaria era que eles soubessem praticar, em velhos, tão boa política como a que Juan de Mairena lhes imagina a partir do momento em que, novíssimos, tendo afastado do volante o pai senil e irresponsável, nos conduzissem no direito rumo pela estrada, levando consigo a nossa eterna gratidão e o justificado orgulho de todas as mães do mundo. Ora, também neste ponto se enganou Juan de Mairena: os jovens, hoje, conduzem os seus próprios carros, geralmente em direcção aos mesmos desastres.

No toméis, sin embargo, al pie de la letra lo que os digo. En general, los viejos sabemos, por viejos, muchas cosas que vosotros, por jóvenes, ignoráis. Y algunas de ellas — todo hay que decirlo – os convendría no aprenderlas nunca. Otras, sin embargo, etc., etcétera.

Afinal, Juan de Mairena não guardava extremas ilusões sobre o proveito que os seus alunos eram capazes de tirar das lições de Retórica e Poética que lhes ia propinando. Este outro apunte, com o seu irónico remate – etc., etcétera –, repõe no seu lugar aquela saudável dose de cepticismo que consiste em esperar que cumpra cada um com o seu dever – ontem, hoje, amanhã, na juventude e na velhice, até ao fim –, para então, feitas as contas, termos uma ideia mais ou menos clara acerca do que somos e do que fizemos. Há razões para pensar que Juan de Mairena, ao contrário do que disse de si mesmo, foi o menos apócrifo dos professores…

José Saramago

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