António Souto

Caro José Saramago,

Em 7 de Fevereiro de 1997, no espaço da FNAC de Estrasburgo, tive o privilégio de lhe “fazer companhia”, com o já falecido e comum amigo Álvaro Guerra, na apresentação da edição francesa de Ensaio sobre a Cegueira (L’Aveuglement). Era então Leitor na Universidade de Ciências Humanas (agora Université Marc Block) e, apanhado de surpresa pelo animador da FNAC, fui incumbido de apresentar em traços largos a dita obra. Propus que se convidasse o escritor Álvaro Guerra (na ocasião nosso embaixador da Missão Permanente junto do Conselho da Europa) para falar de José Saramago. A mesa ficou, assim, mais composta, e a conversa (de)correu, creio, muitíssimo bem, com a sala a abarrotar e o público atento e entusiasta. Bastaria, de resto, a presença única de Saramago para que assim acontecesse. Depois, finda a apresentação, rumámos à Place de la Cathédrale, para um jantar típico no típico restaurante Maison Kammerzell. Com a Pilar e a senhora embaixatriz, a refeição tornou-se mais convivial. Descobri nesse dia o que a obra de Saramago me deixara já entrever – a simplicidade de um ser solidário, no que nisto há de grandeza humana. Hoje, que continuo acompanhando com anelo e admiração a sua obra, fruo com os alunos a admirável riqueza de Memorial do Convento, e está lá tudo, tudo o que Saramago escreve e é, no seu ser íntimo como na sua relação com os outros (sobretudo com os mais frágeis e desprotegidos), na sua generosidade como na sua acutilância. E, sempre à espreita, um discreto olhar feminino…

António Souto

12 de Agosto del 2009

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