Brasil, 500 anos de descobertas literárias

Provavelmente tem a Literatura razões que a História ignora ou desdenha, ocupada como está, quase sempre, a destrinçar princípios e fins nas coisas da vida e do mundo. A História dirá, por exemplo, que a Literatura brasileira começou nas margens do Ipiranga e que tudo quanto no Brasil se escreveu antes do grito famoso é tributário de um tempo que, não podendo, obviamente, ser apagado dos calendários de Cronos, pertenceria, em todo o caso, a um período larvar em que os sinais de uma identidade nova se estariam procurando trabalhosamente uns aos outros. No entanto, se bem que pegada à História como uma folha de papel a outra folha de papel, a Literatura é, ao mesmo tempo, um fluido que irresistivelmente escapa às linhas de separação que uma História obsessionada por tentações de periodização sistemática lhe pretendesse impor. Sempre algo começou a ser escrito antes para vir a ser terminado depois. Em Literatura as rupturas, mesmo as que nos apareceram carregadas de dramatismo, mesmo as que se apresentaram com propósitos radicais, acabaram, mais tarde ou mais cedo, por ser condicionadas pela realidades envolventes e por elas assimiladas. As soluções de continuidade convertem-se em pausas para recuperar o fôlego, em momentos para as respirações profundas. Talvez por isto me agrade tanto que o tema deste Simpósio seja «Brasil: 500 Anos de Descobertas Literárias»: em primeiro lugar, claro está, as que couberam e cabem ao Brasil, mas também as que precisaram e precisam de Portugal para ser. Num e noutro casos, obra comum da Língua Portuguesa, esse lugar de encontro aonde sempre estamos chegando e para onde sempre estamos caminhando, essa sempre inacabada descoberta, esse horizonte movediço que as mãos que escrevem tocam e que os olhos que lêem afagam.

José Saramago

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