Crítica à edição de “O Caderno” de Saramago em blog do New York Times

Neste espaço escrevem regularmente os editores da The Book Review do jornal New York Times. O texto, de autoria de Gregory Cowles, foi publicado no dia 29 de Março e pode ser lido em seguida:

José Saramago, blogueiro literário

Pode um blogue elevar-se ao nível da literatura?

fjsNão me refiro a este blogue, naturalmente. Aqui no Paper Cuts, somos mais como as chefes de claque e os mirones do mundo dos livros, o que é o mesmo que dizer somos leitores. Aplaudimos a literatura; não a fazemos. Mas se um brilhante e proeminente romancista – um Prémio Nobel, digamos – gravasse os seus pensamentos e observações num blogue, poderia isto aproximar-se da literatura?

A questão é colocada pela chegada do mais recente trabalho de José Saramago, “O Caderno”, que recolhe uma série de posts do blogue que Saramago, o Nobel português, escreveu de Setembro de 2008 a Agosto de 2009, por insistência de sua mulher e de amigos. Verdadeiro na forma, os seus posts são mini-ensaios, muitos deles mais curtos que uma coluna de jornal, nos quais enfrenta assuntos desde a política (“George Bush expulsou a verdade do mundo, estabelecendo a idade da mentira que agora floresce em seu lugar”) à edição (“Voltaire não tinha agente literário”) à própria natureza de escrever num blogue (“É isto o mais próximo que temos do poder dos cidadãos? Somos mais sociáveis quando escrevemos na Internet?”). São fascinantes e provocadores, e de um grande prazer em mergulhar neles. Mas parecem-me demasiado localizados e fugazes para que possam contar como literatura, e reforçam a minha impressão, expressa noutro local nesta página, de que os blogues são pela sua natureza em parte jornalismo, em parte jornais. Fico contente por saber como Saramago reagiu quando leu pela primeira vez Gabriel García Márquez — “Precisava de colocar as minhas ideias em ordem, disciplinar o meu coração em sobressalto e, acima de tudo, aprender a controlar o compasso com o qual esperei ser capaz de fazer o meu caminho pelo novo mundo que tinha acabado de aparecer perante os meus olhos” — mas no final, continuaria a preferir ler um romance de Saramago em vez de um seu post no blogue.

Saramago, ele próprio, parece pensar da mesma forma, aparentemente. No seu último post escreve: “Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem…”

Texto original

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