Crítica de língua inglesa celebra “A Viagem do Elefante”

Apontamento

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O delicioso romance do Prémio Nobel português narra a viagem entre Lisboa e Viena de um elefante indiano chamado Salomão, um presente do Rei de Portugal ao seu primo, o Arquiduque Maximiliano, em 1551. Saramago evita as confusas convenções da ficção histórica usando um estilo coloquial, no qual o diálogo flui através das páginas em frases intermináveis sem a pontuação convencional. O herói é o estóico cornaca Subhro, que suporta um rebaptismo ignominioso para Fritz a meio da viagem e todo o tipo de católicas prevaricações: há uma tentativa de exorcismo do elefante, e em Pádua um clérigo fazedor de falsos milagres pretendeu combater a disseminação do protestantismo.

Saramago enquanto narrador é uma presença constante e autodepreciativa. Como podemos, pergunta-se, visualizar uma viagem «no século dezasseis, em que não havia estradas nem postos de abastecimento de gasolina, croquetes e chávenas de café».

New Yorker (clicar para ler no original)

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Um Homem e o seu Elefante

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O seu pior embaraço académico na escola secundária pode ter começado com um professor de inglês pedindo que partilhasse a sua visão sobre Moby Dick dizendo à turma o que a grande baleia branca simbolizaria. Você encolher-se-ia, embora tivesse lido o livro, e sopraria pensando no significado simbólico daquele estúpido peixe. Após permitir-lhe que divagasse ao vento no mais longo minuto da sua vida, o professor virou-se para a miúda mais inteligente da turma, que tranquilamente falou continuamente sobre o simbolismo daquele estúpido peixe… não, mamífero!… em todo o romance. Espera, as baleias são mamíferos?

Você pode exorcizar esse demónio com A Viagem do Elefante de José Saramago. O Prémio Nobel português faleceu no passado verão, originalmente publicado em 2008, está agora a atingir as livrarias dos EUA com uma excelente tradução de Margaret Jull Costa. O romance relata a viagem de um elefante indiano chamado Salomão que se vê forçado a uma viagem de Lisboa a Viena sob direcção do seu cornaca (tratador) Subhro, no Outono e início de Inverno de 1551-1552. Digo “forçado” porque ninguém pode empurrar um elefante para qualquer lugar, mesmo que o próprio elefante seja receptivo a uma rápida mudança de cenário.

Então, endireitem-se — Salomão é um grande símbolo com dentes e com as suas próprias noções sobre o que fará ou não e a que ritmo. O que quer ele dizer? Posso oferecer uma ou duas sugestões, mas antes, deixem-me afirmar que a viagem é de longe o mais importante componente deste romance. O papel de Salomão é menor no que respeita a trazer significado à história do que para contextualizar as acções e motivações dos seus personagens humanos.

A viagem de Salomão começa quando o rei de Portugal, D. João III, precisando urgentemente de um presente de casamento para o herdeiro do trono dos Habsburgo, se lembra de ter recebido um elefante indiano uns anos antes. Salomão e Subhro, desconhecidos da corte e do povo por esta altura, são requisitados com urgência com uma boa lavagem para o elefante e um novo conjunto de roupas para o seu interlocutor. Subhro não é tanto um símbolo, já agora, mas sim o centro intelectual do romance, um cornaca Bengali levado para longe, longe da sua terra natal e com a habilidade de Sancho Pança e um profundo amor pela sua carga de quatro toneladas. Enviados para o herdeiro austríaco, Maximiliano, como uma espécie de presente de consolação (apenas demos bolos de fruta aos amigos e família que apareceram à porta espontaneamente na época de Natal), Subhro e Salomão viajam pela Europa de Lisboa a Espanha, de barco para Génova e atravessam as apertadas passagens dos Alpes no Inverno para chegar a Viena. Em todo o processo, Maximiliano atribui novos nomes ao duo, Suleimão e Fritz. Tal como diz o herdeiro dos Habsburgo a Subhro, Fritz é um nome comum na Áustria, mas ele será o único Fritz com um elefante. Nem o elefante nem o cornaca alguma vez aceitam as suas novas identidades.

Os romances de Saramago tendem a vaguear de um tópico para outro, mas o foco principal aqui é o quão ridículo e mesquinho pode tornar-se o comportamento humano quando é invisivelmente conduzido por forças culturais e sociais. A loucura humana é a verdadeira besta rugiente no romance (o mau temperamento de Salomão limita-se a pontapear gentilmente um padre que tenta exorcizar demónios do paquiderme) e o elefante torna-se um mudo conspirador num esquema para criar um falso milagre que fará renascer a defunta carreira de Santo António de Pádua e colocar Maximiliano no centro das atenções no império austríaco ao descer das montanhas no seu novo presente de casamento. Subhro, que fala muito e bem, gasta muito do seu tempo a cuidar de Salomão e a defender-se a si e ao seu cargo das idiotices de diversas pessoas e das instituições sociais, uma tarefa não inconsequente numa Europa recém dividida entre catolicismo e protestantismo, onde a suspeita institucional pode fazer cair a calamidade na cabeça dos que se destacam de alguma maneira. E um elefante, se nada mais faz, atrai a atenção.

Saramago não tenta entrar na cabeça de Salomão, o que nos liberta de seguir o diálogo interno de um personagem cujos únicos interesses consistem em comer, banhar-se e decidir sobre se fará as mais bizarras coisas que os seus companheiros humanos lhe pedem para fazer. Mas dá-nos pistas sobre o que vai no coração de Salomão. Durante a sua longa viagem, o elefante tenta agradar a Subhro e a sua ligação emocional é uma das muitas delícias do livro. Há algo entre humanos e elefantes que transcende as fronteiras das espécies.

A Viagem do Elefante é na verdade um romance adulto que as crianças mais velhas podem gostar de ler ou ouvir ler. Não há um carácter profano no romance e a capacidade de Saramago para espremer deliciosos diálogos dos seus personagens encantará quase toda a gente. A compaixão e o amor por uma humanidade defeituosa que ele traz ao seu trabalho são muito raros no mundo literário e na sociedade em geral, que parece desvalorizar essas qualidades num tempo em que são desesperadamente necessárias.

O que é isto? Não expliquei o que Salomão representa? Acreditem – não terão problemas em percebê-lo por vocês. Deixe a sua mulher lê-lo e os dois poderão passar alguns minutos no final do dia tentando perceber o simbolismo de Salomão. Lembra-se da sua mulher? A rapariga inteligente da sua turma de inglês na escola, que tinha percebido tudo sobre Moby Dick e o tinha feito sentir-se um parvo? Sim, ela tornou-se muito mais cool quando foram os dois para a Universidade.

Sam Stowe é um escritor e poeta que vive em Raleigh, North Carolina, e tem um duradouro amor por elefantes.

Ler texto original na California Literary Review

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A Viagem do Elefante no Los Angeles Times

fjsEra uma vez — num tempo de guerra civil e de espectáculo, quando o fervor Protestante varreu a Europa e a Inquisição intimidava os fiéis — um elefante indiano que viajou a pé de Lisboa para Viena. Quatro séculos e meio depois, esta árdua e inverosímil caminhada inspirou o Nobel português José Saramago para escrever o seu mais optimista, brincalhão, humorístico e mágico livro, uma nota de graça escrita perto do fim da sua vida.

Como Cervantes e Voltaire, Swift e Twain, Saramago, que morreu em Junho aos 87 anos, era adepto da distorção da realidade para fins satíricos. A sua feroz oposição à longa ditadura de Salazar moldou os seus romances mais violentos, incluindo Ensaio Sobre a Cegueira (1995), uma parábola negra na qual uma cidade contemporânea mergulha no caos e na crueldade depois de uma epidemia tornar a população cega.

Em comparação, A Viagem do Elefante é uma brincadeira divertida. Ele nasce de outra fonte da mestria de Saramago, o seu grande amor pelo seu avô materno, Jerónimo, um guardador de porcos analfabeto que o introduziu à grande arte de contar histórias. Saramago honrou-o em 1998 no seu discurso do Nobel como “esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras.” A Viagem do Elefante começa em 1551, quando o católico rei português, D. João III e sua mulher, Catarina de Áustria, enviam o elefante Salomão como prenda de casamento ao seu primo, o pró-Luterano Arquiduque Maximiliano de Áustria.

Saramago magica um elenco de personagens ficcionais que encarnam os baseados nos registos históricos. O primeiro de entre eles é Subhro, o cornaca ou tratador de Salomão.

“Escarranchado sobre o encaixe do pescoço com o tronco maciço de salomão, manejando o bastão com que conduz a montada,” escreve Saramago, o cornaca “prepara-se para ser a segunda ou terceira figura desta história, sendo a primeira, por natural primazia e obrigado protagonismo, o elefante salomão.” (O terceiro é o Arquiduque Maximiliano, que surge a meio do livro com “a colorida cauda de pavão dos parasitas da corte.”)

Subhro é um homem astuto que estaria perto do fundo da rígida hierarquia caso não estivesse fora dela. Para manter o seu trabalho e preservar a saúde e a segurança de Salomão, ele tem de estar preparado para entender-se com toda a gente que encontra, incluindo o capitão português que comanda a comitiva e o Arquiduque austríaco. Desde cedo, convence o capitão a reorganizar a escolta, colocando os lentos bois que carregam a comida e a água para Salomão à frente de dúzias de cavaleiros e carregadores.

Saramago criou um cornaca tão intensamente observador, de espírito independente e astuto quando em contacto com a autoridade, que seria perfeitamente actual nos tempos modernos. Qualquer um diante de um patrão autocrático reconhecerá o momento em que Subhro, rebaptizado de Fritz a meio da viagem pelo Arquiduque, sensatamente caracteriza o seu novo senhor: “…o comandante da cavalaria portuguesa era um homem com quem se podia falar, um amigo, não um arquiduque autoritário como este, que, além de ser genro de carlos quinto, não se vê que outros méritos possua.”

O caminho para Viena está repleto de perigos, incluindo uma alcateia de lobos que pensa “na sorte grande que seria […] dispor daquelas toneladas de carne logo à saída da toca,” e passagens mortíferas pelo Alpes. Na sua grande parte, o gigante Salomão mantém a sua plácida natureza, deslumbrando todos os que testemunham a sua passagem. Um padre de aldeia pede ao elefante que colabore num falso milagre; outro tenta um exorcismo. E Salomão gentilmente acalma uma multidão em pânico representando um acto de compaixão.

A Viagem do Elefante é um conto rico de ironia e empatia, regularmente interrompido por brilhantes reflexões sobre a natureza humana e comentários sobre os poderosos que insultam a dignidade humana. Lendo a densa narrativa de Saramago, uma torrente quase contínua de palavras sem parágrafos, pontos finais ou aspas, penso na voz do seu avô, humanizando a noite com histórias suspensas de “lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias.”

E o que acontecerá quando o elefante chega a Viena?

Saramago dá ao cornaca as últimas, embora duradouras, linhas: “[…] irão dar-lhe muitas palmas, irá sair muita gente à rua, e depois esquecem-se dele, assim é a lei da vida, triunfo e olvido.”

Jane Ciabattari, Los Angeles Times

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José Saramago: A Viagem do Elefante

fjsEm 1551 o Rei Dom João de Portugal decidiu dar como presente um elefante ao seu primo, o Arquiduque Maximiliano de Habsburgo. Para que a oferta se verificasse, o elefante teve que andar de Lisboa a Viena. Perto do fim de A Viagem do Elefante, com o paquiderme e a sua comitiva enfrentando o final do Outono, o clima dos Alpes, o narrador especula sobre o porquê da viagem ter de ser feita naquelas condições, mas os dados históricos são escassos. Isto é tudo para a vantagem do narrador enquanto a história “não é apenas selectiva, é também discriminatória”. É melhor, diz, “ser romancista, ficcionista, mentiroso”, para tomar-se de liberdades, para preencher os espaços vazios, e mesmo assim preservar “a sagrada coerência do relato”.

Este último ponto é certamente irónico já que Saramago interrompe constantemente a sagrada coerência da história. O romance publicado postumamente é altamente estilizado e escrito no modo de torrente contínua que empregou no passado: pontos finais são escassos, as vírgula abundam, as aspas não existem, os parágrafos são a excepção e não a regra. Mas a narração é também transtemporal, permitindo a Saramago revisitar alguns dos seus temas favoritos – religião, poder, arte, a condição humana – e tratá-los para além das amarras do tempo e da história. Olhemos, por exemplo, para as mudanças vividas pelo escritor até ao fim da sua vida. Ele pode ser um mentiroso mas, por vezes, esta premissa cria problemas. As palavras puxam outras apenas “pelo bem que soam juntas” e isto pode criar impressões injustas (neste caso sobre os austríacos) e assegurar que o escritor faz muitos inimigos. Outras vezes, ele simplesmente tem de ceder. É escusado, por exemplo, tentar descrever paisagens espectaculares de novas maneiras quando tantos outros as descreveram antes.

Ou pensemos sobre o seu país de origem, Portugal. Aí em tempos foi ordenada a retirada do romance de Saramago, de 1992, O Evangelho Segundo Jesus Cristo de uma lista para um prémio literário. Em A Viagem do Elefante, Saramgo volta atrás. Em 1551, escreve, Portugal ainda não tinha uma coesa identidade nacional mas já se preparava para abraçar a “saudade” como filosofia de vida que levaria a “não poucas dificuldades de comunicação para a sociedade em geral e a alguns graus de perplexidade num nível pessoal, também”. Novamente, uma pausa na viagem do elefante dá subitamente lugar à denúncia do Algarve moderno onde a “praia” é agora “beach”, um “pescador” um “fisherman”, clubes nocturnos têm nomes estrangeiros e “nestas épocas em que descem os civilizados à barbárie, ser ele a terra do português tal qual se cala”.

A religião cristã, um alvo tradicional para Saramago, é gentilmente atacada aqui, ainda mais quando comparado com o seu “Evangelho” onde tinha Jesus na cruz pedindo perdão pelos pecados de seu pai. Em “A Viagem do Elefante”, Jesus tem o hábito de ser inconsequente, falhando a reconstrução do templo devido “à falta de mão-de-obra ou de cimento” ou não percebendo que os demónios imortais escapariam aos porcos de Galileia. Algumas destas informação são dadas por Subhro, o gentil cornaca do elefante, que tem de ser cuidadoso para não ofender os senhores cristãos. Ele gosta de contar a história de Ganeixa, deus dos elefantes, que bem pode ser um conto de fadas para os seus ouvintes cristãos, mas, se assim é, será como a história do homem que morreu e ressuscitou passados três dias.

A Viagem do Elefante é um livro de um homem velho, no melhor sentido. No final torna-se coerente no sentido em que a história providencia um enquadramento para suportar a sabedoria acumulada ao longo de uma vida que começou na pobreza extrema e acabou com um Prémio Nobel e a aclamação internacional. Saramago nunca está longe do ouvido do leitor – sussurrando e incitando, apontando o caminho. Há aqui traços do “Quem, Quê” de Lenine a partir da longa vida do comunista mas sem a perspectiva de uma violenta resolução. Num lado um imperador que não é melhor que um cornaca num elefante mas que tem o poder de mudar o nome deste de Subhro para Fritz; um padre com água comum no aspersório; um secretário do tribunal com a sua língua viperina. Do outro lado, os que o servem: o elefante, o cornaca, os camponeses e os soldados. À excepção do elefante, Saramago diverte-se com todos eles e, no final, A Viagem do Elefante é apenas isso: divertida e inteligênte, espírituosa e genial.

O elefante morre menos de dois anos após terminar a sua viagem. Saramago morreu em Junho de 2010 quase dois anos após ter terminado o romance que apenas agora é publicado na tradução inglesa. O homem e a silenciosa criação que transportava as suas palavras juntam-se numa cósmica coincidência final e na realização de uma oferta maravilhosa para os que estamos ainda aqui.

Harry McGrath, Herald Scotland

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A Viagem do Elefante no Boston Globe

fjsJosé Saramago, o romancista e Nobel português, terminou a sua viagem com uma outra: uma caminhada no século XVI, de Viena a Lisboa, de um elefante chamado Salomão, uma oferta do Rei português D. João III para o Arquiduque Maximiliano, herdeiro para o Santo Império Romano. A Viagem do Elefante, escrita não muito tempo antes da morte de Saramago em Junho, apresenta a sua única mistura de absurdo, súbita lógica, comédia tendendo para a melancolia, uma digressão que nos encaminha para efeitos inesperados.

Guiado por Subhro, o discursivo cornaca de Salomão, e escoltado por um destacamento de soldados portugueses, o elefante, a quem é permitida uma ocasional discursividade, viaja para Norte para Castelo Rodrigo, atravessa Espanha, e faz o seu caminho até Valladolid, onde é entregue a Maximiliano. O cortejo, ricamente acrescentado por cortesãos e tropas, continua por mar até Génova, atravessa os Alpes pelo gelado Passo de Brenner, e é triunfalmente recebido em Viena.

A viagem é baseada num acontecimento histórico; e talvez Saramago tenha perdido um pouco do seu poder por ele: Os seus grandes romances inventam a sua própria história. Ensaio Sobre a Cegueira é uma espantosa parábola sobre o que acontece quando, subitamente, todos deixam de ver; em A Jangada de Pedra, Espanha e Portugal separam-se da Europa e afastam-se flutuando; em A História do Cerco de Lisboa, a inserção de um “não” por um revisor altera drasticamente três séculos de vida portuguesa. Em A Viagem do Elefante, a extraordinária história está duramente ligada ao real; isto é, faltam-lhe algumas das livres explosões do realismo mágico de Saramago. Não obstante é, na sua maioria, uma delícia.

Não é tanto por causa dos acontecimentos. Saramago reconta-os bem o suficiente, preenchendo os poucos factos com acontecimentos que inventa, por vezes respeitosamente. A importante logística é bem imaginada: os carregamentos de forragem, as tinas de água, a necessidade de encontrar mais bois para puxar. A narração torna-se mais viva na última etapa: a luta de Salomão e Subhro, acostumados ao calor indiano, para ultrapassar os traiçoeiros Alpes, subjugados pela neve.

Mesmo no seu mais extraordinário trabalho, não são as histórias o coração da escrita de Saramago. Ele usa-as para trazer à superfície as idiossincrasias das suas personagens: Vira-as ao contrário, para apanhar as moedas que caiem dos seus bolsos. Atribui-lhes acções; questiona as suas acções; coloca-os a questionar as suas acções; tem os seus animais — cães, ou aqui, um elefante — a questionar as suas acções. No velho enigma metafísico — fazer ou ser — ele está do lado do ser, e os seus maravilhosos diálogos em espiral, talentosamente traduzidos por Margaret Jull Costa, são uma céptica e radiosa interrogação sobre o fazer.

O prazer em A Viagem do Elefante está nos encontros interrogadores das suas personagens. Subhro, um estrangeiro em Portugal, e ainda mais um estrangeiro entre os austríacos, divide-se entre a deferência — ele é um pequeno cornaca, no fim de contas — e a descoberta e a defesa da sua própria realidade. A sua e a do seu elefante. Quando o arrogante Maximiliano exige que reduza o costumeiro período de descanso de Salomão, dizendo que já não estava na Índia, ele recusa. “Se vossa alteza conhecesse os elefantes como eu tenho a pretensão de conhecer, saberia que para um elefante indiano, dos africanos não falo, não são da minha competência, qualquer lugar em que se encontre é índia.”

No seu adeus a Valladolid, falando com o comandante do destacamento português — após uma desconfiança inicial tinham-se tornado grandes amigos — compara-se à sua carga. “[…]em um elefante há dois elefantes, um que aprende o que se lhe ensina e outro que persistirá em ignorar tudo.” E continua: “Descobri que sou tal qual o elefante, uma parte de mim aprende, a outra ignora o que a outra parte aprendeu, e tanto mais vai ignorando quanto mais tempo vai vivendo.”

Ao serviço de reis e imperadores, Salomão e o seu Subhro, mesmo quando obedecem, afirmam os seus eus individuais — as suas almas, alguém pode dizer, se tal não ofender o devoto ateísmo do escritor. A mais divertida e cristalina cena de A Viagem do Elefante tem Subhro a ensinar Salomão a ajoelhar-se diante do santuário de Santo António em Pádua. E fá-lo sob a ameaça das autoridades religiosas locais, que acham conveniente encenar um “milagre.” Subhro estaria preocupado com a possível falha na actuação de Salomão. Não se preocupe, diz-lhe um padre: Os milagres que não acontecem são os “mais saborosos”. “[…] além disso, aliviamos de maiores responsabilidades os nossos santos.”

Uma linha de desafio percorre todas as obras de Saramago. Ele foi um Comunista e continuou como tal; mas nos seus romances não existe qualquer pista das algemas que o comunismo no poder tentou impor aos seus artistas. Em vez disso, há uma veia que rejeita todas as imposições, mesmo as da causa sobre o efeito. Assim, sentimos, lendo-o, que a lei da gravidade está a ser subvertida pelo puxão de outros corpos astrais, os que Saramago inventou e enviou para a nossa órbita.

Richard Eder, Boston Globe

Ler artigo no original

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