Diálogo de culturas, caminho da cooperação

Uma iniciativa como esta que a Associação Portugal-URSS vai promover de um encontro de personalidades portuguesas e soviéticas, sobre o tema «Diálogos de Culturas, Caminho de Cooperação», contém, no seu simples enunciado, um programa claro de intenções, o qual, de algum modo, dispensará maior justificação, tão evidente é não poder haver cooperação sem diálogo e ser o diálogo, por sua vez, condição do conhecimento.

Contudo, além da bastante fundamentação que sempre se exigirá a qualquer projecto, cabem, neste caso, certas breves considerações sugeridas pelo próprio tempo que estamos vivendo, em particular no que se refere às relações internacionais. É patente que, no sentido literal da expressão, respiramos hoje uma atmosfera mais desanuviada, em contraste com as ansiedades, as tensões, os iminentes riscos para a paz que, ainda há poucos anos, faziam parte do nosso quotidiano. Trata-se de um facto novo que transporta em si extraordinárias potencialidades no sentido duma harmonia de relações que, não excluindo nem podendo excluir as contradições entre sistemas políticos, sociais e económicos diferentes, tomaria como referência suprema o respeito da vida e da dignidade dos homens. Assim saibamos aprender a lição do passado próximo: desde 1945, entre mortos feridos, os denominados conflitos locais já causaram milhões de vítimas.

Nos tempos históricos, desde a Antiguidade, sempre a cultura viajou de país a país, quer nos fardos dos comerciantes quer nas pontas das lanças. Como processos de expansão, o comércio e a guerra levavam consigo cultura de um lugar a outro, servindo a força militar e o domínio económico de mecanismos de pressão cultural que, se algumas vezes fecundaram positivamente as populações sujeitas, também não raro foram causa directa do definhamento das culturas próprias. Os exemplos abundam, não parece necessário chamá-los aqui.

Ora, ainda que sem cair na tentação de optimismos prematuros, apetece dizer que nunca esteve tanto ao alcance, como hoje, fazer dialogar as culturas, colocando-as como tal frente a frente, sem que por trás delas se perfile a sombra dos canhões e a teia dos cifrões. Seria perigosa ingenuidade supor que essas sombras se retiraram da cena internacional, mas grave desatenção seria também não reparar que as forças culturais, em toda a parte, crescem e ganham uma consciência cada vez maior do papel, porventura decisivo, que lhes cabe no concerto e no desconcerto do mundo. O diálogo, a cooperação, a paz são demasiado preciosos para continuarem entregues, quase exclusivamente, ao exercício político, por muito abnegado e edificante que ele seja ou possa tornar-se.

As culturas não representam Estados, representam povos. Esta é a premissa de que partiu a Associação Portugal-URSS para a realização do encontro que nos dias 17 e 18 de Novembro de 1988 se celebrará em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian.

A conclusão esperada deverá ser a de um passo em frente no mútuo conhecimento das culturas soviética e portuguesa, e, em consequência, no frutuoso caminho da cooperação entre os respectivos povos. Este é o nosso voto, e é para a feliz concretização dele que apelamos ao interesse, à boa vontade e à participação dos portugueses que, independentemente das suas posições políticas e ideológicas, entendam que a paz, sendo desejável, é possível, e que o diálogo cultural, sempre respeitando as diferenças, é sua vital condição.

José Saramago

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