Doutoramento Honoris Causa – Universidade de Alberta, Canadá

A não poucos deverá parecer estranho que venha falar destes temas alguém que nunca se sentou nas aulas de uma universidade e que, além do resto, alimenta desde há longos anos inclinações ideológicas e políticas que o tornam, aos olhos dos bem pensantes, em alvo das piores suspeitas. Digamos, então, repetindo a frase clássica, que se trata de um caso em que o vício, talvez por não ter nada mais que perder, se resignou a prestar homenagem à virtude. Espero que os bons propósitos que me animam nesta hora de gratidão e júbilo vos mereçam credibilidade bastante para que me seja perdoado algum erro de apreciação nascido de um conhecimento insuficiente das matérias. Rogo-vos, portanto, a mais extremada benevolência de que sejais capazes.
Não ignoro que a principal incumbência assinada ao ensino em geral, e em especial ao universitário, é a formação. A universidade prepara o aluno para a vida, transmite-lhe os saberes adequados ao exercício cabal de uma profissão escolhida no conjunto de necessidades manifestadas pela sociedade, escolha essa que se alguma vez foi guiada pelos imperativos de uma vocação, é com mais frequência resultante dos progressos científicos e tecnológicos, e também das interessadas demandas empresariais. Em qualquer caso, a universidade terá sempre motivos para pensar que cumpriu o seu papel ao entregar à sociedade jovens preparados para receberem e integrarem no seu acervo de conhecimentos as lições que ainda lhes faltam, isto é, as da experiência, madre de todas as coisas humanas.
Ora, se a universidade, como era seu dever, formou, e se a chamada formação contínua fará o resto do trabalho, a pergunta é inevitável: «Onde está o problema?» O problema reside no facto de que até agora me limitei a falar da formação necessária ao desempenho de uma profissão, deixando de lado outra formação, a do indivíduo, da pessoa, do cidadão, essa trindade terrestre, três em um corpo só. É tempo de tocar o delicado assunto.
Qualquer acção formativa pressupõe, naturalmente, um objecto e um objectivo. O objecto é a pessoa a quem se pretende formar, o objectivo está na natureza e na finalidade da formação. Uma formação literária, por exemplo, não apresentará mais dúvidas que as que resultarem dos métodos de ensino e da maior ou menor capacidade de recepção do educando. A questão, porém, mudará radicalmente de figura sempre que se trate de formar pessoas, sempre que se pretenda incutir no que designei por «objecto», não apenas as matérias disciplinares que constituem um curso, mas um complexo de valores éticos e relacionais que se crê serem tão indispensáveis à vida como a aquisição dos conhecimentos teóricos e práticos indispensáveis à actividade profissional. No entanto, formar pessoas não é, por si só, um aval tranquilizador. Uma educação que propugnasse ideias de superioridade racial ou biológica estaria a perverter a própria noção de valor, pondo o negativo no lugar do positivo, substituindo os ideais solidários do respeito humano pela intolerância e pela xenofobia. Não faltam exemplos na história antiga e recente da humanidade.
Aonde pretendo chegar com este arrazoado? À universidade. E também à democracia. À universidade porque ela deverá ser tanto uma instituição dispensadora de conhecimentos como o lugar por excelência da formação do cidadão, da pessoa educada nos valores da solidariedade humana e do respeito pela paz, educada para a liberdade, para a crítica, para o debate responsável das ideias. Argumentar-se-á que uma parte importante dessa tarefa pertence à família como célula básica da sociedade, porém, como sabemos, a instituição familiar atravessa uma crise de identidade que a tornou impotente perante as transformações de todo tipo que caracterizam a nossa época. A família, salvo excepções, tende a adormecer a consciência, ao passo que a universidade, sendo lugar de pluralidades e encontros, reúne todas as condições para suscitar uma aprendizagem prática e efectiva dos mais amplos valores democráticos, principiando pelo que me parece fundamental: o questionamento da própria democracia. Há que procurar o modo de reinventá-la, de arrancá-la ao imobilismo da rotina e da descrença, bem ajudadas, uma e outra, pelos poderes económico e político a quem convém manter a decorativa fachada do edifício democrático, mas que nos têm impedido de verificar se por trás dela algo existe ainda. Se quereis a minha opinião, o que resta é, quase sempre, usado muito mais para armar de eficácia as mentiras que para defender as verdades. O que chamamos democracia começa a assemelhar-se tristemente ao pano solene que cobre a urna onde já está apodrecendo o cadáver. Reinventemos, pois, a democracia antes que seja demasiado tarde. E que a universidade nos ajude. Ela pode, vós podeis.
As minhas últimas palavras neste acto são para agradecer à Universidade de Alberta a honra que me fez concedendo-me o grau de Doutor «Honoris Causa». Recebo-o com alegria e respeito, comprometendo-me perante vós a não desmerecer da confiança que em mim haveis depositado. Muito obrigado.

José Saramago

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