“Ensaio sobre a Lucidez”: O romance dos cidadãos conscientes do seu poder

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Que acontece quando os cidadãos decidem enfrentar os sátrapas? E quando exigem dignidade aos partidos e aos seus dirigentes? Sair para a rua para expressar uma opinião é um acto revolucionário ou um dever cívico? Trata-se de subversão ou de valorizar conceitos que parecem esquecidos como a dignidade e a transparência democrática?

Tunísia, Egipto, Itália, para não ir mais longe. Três lugares onde estes dias as pessoas mais conscientes decidiram tomar a palavra e fazê-lo de forma clara, rotunda, pacífica, com argumentos sustentados em leis internacionais. Contra todas as formas de iniquidade, contra os que abusam do poder que supostamente receberam do povo, ou que dele se apropriaram com medidas coercivas, os que fazem do parlamento uma camarilha para dar um ar de legalidade a manobras turvas, os que não respeitam os cidadãos e que das cidadãs pretendem fazerfjs mercadoria, os que pensam que a sociedade é lixo e pode aceitar em silêncio toda a merda que se lhe deite em cima, contra esses reagiram os que pensam, sentem e respeitam, homens e mulheres corajosos e íntegros que não aceitam subornos nem seguem ditames ilegais, que são estão conscientes do seu valor e da universalidade dos Direitos Humanos. Esses homens e mulheres foram retratados por José Saramago em Ensaio sobre a Lucidez, um livro cada vez mais imprescindível e actual.

A Fundação José Saramago propõe leituras públicas deste romance que, sendo ficção, é também uma reflexão sobre o valor de cada cidadão e do colectivo a que chamamos sociedade. Num país sem nome e em dia de eleições, a vontade dos eleitores expressa-se nas urnas. Mas o resultado não agrada ao poder que, escudando-se numa série de decisões arbitrárias, decide dar uma lição, sem se dar conta de que os cidadãos não perdem nem abdicam do seu poder ao introduzir o voto nas urnas. Por isso não se resignam, não aceitam a manipulação, mantêm-se com dignidade diante da violência do Estado, da provocação dos mandantes, da cumplicidade dos meios de comunicação. E sucedem-se episódios diversos, uns dirigidos pelo poder para amedrontar, outros, espontâneos, de pessoas que não se resignam a ser estatística, que reclamam o direito e o dever de organizar o presente e o futuro dos seus países sem sátrapas, sem demagogos, sem meios de comunicação parciais que encontram sempre a explicação para os desmandos dos poderosos. Como se está a passar hoje em dia em tantas partes do mundo.

Ensaio sobre a Lucidez é uma ficção mas também um retrato. É um romance, talvez um ensaio com personagens, acima de tudo o desejo explícito do autor que ansiava pela participação efectiva na coisa pública por parte de todos, que reclamava os deveres e direitos nos códigos e nas consciências. Para que a vida seja mais habitável. Se no-lo permitirem, consegui-lo-emos.

Alguns momentos do romance:

Como no Cairo

Às onze horas a praça já estava cheia, mas ali não se ouvia mais que o imenso respirar de multidão, o surdo sussurro do ar entrando e saindo dos pulmões, inspirar, expirar, alimentando de oxigénio o sangue destes vivos, inspirar, expirar, inspirar, expirar, até que de repente, não completemos a frase, esse momento, para os que aqui vieram, sobreviventes, ainda está por chegar. Viam-se inúmeras flores brancas, crisântemos em quantidade, rosas, lírios, jarros, alguma flor de cacto de translúcida alvura, milhares de malmequeres a quem se perdoava o botãozinho negro do centro. (PP. 136-137)

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Papéis

algo de estranho tinha acontecido na cidade, estes homens e estas mulheres que andam a distribuir uns pequenos papéis que as pessoas param a ler e logo guardam no bolso, agora mesmo acabaram de entregar um ao comissário, e é a fotocópia do artigo do jornal apreendido, aquele que tem o título de Que Mais Nos Falta Saber, aquele que nas entrelinhas conta a verdadeira história dos cinco dias, então o comissário não consegue reprimir-se, e ali mesmo, como uma criança, desata num choro convulsivo, uma mulher da sua idade vem perguntar-lhe se se sente mal, se precisa de ajuda, e ele só pode acenar que não, que está bem, que não se preocupe, muito obrigado, e como o acaso às vezes faz bem as coisas, alguém de um andar alto deste prédio lança um punhado de papéis, e outro, e outro, e cá em baixo as pessoas levantam os braços para agarrá-los, e os papéis descem, adejam como pombos, e um deles descansou por um momento no ombro do comissário e resvalou para o chão. Afinal, ainda nada está perdido, a cidade tomou o assunto nas suas mãos, pôs centenas de máquinas fotocopiadoras a trabalhar, e agora são grupos animados de raparigas e de rapazes que andam a meter os papéis nas caixas de correio ou a entregá-los às portas, alguém pergunta se é publicidade e eles respondem que sim senhor, e da melhor que há.

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Anúncio nas rádios e televisões

Era o prenúncio do terramoto político que não tardaria a produzir-se. Nas casas, nos cafés, nas tabernas e nos bares, em todos os lugares públicos onde houvesse uma televisão ou um rádio, os habitantes da capital, mais tranquilos uns que outros, esperavam o resultado final do escrutínio. (P. 137)

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Retirada do Governo

O plano de retirada a que finalmente se chegou era uma obra-prima de acção táctica, consistindo basicamente numa bem estudada dispersão dos itinerários com vista a dificultar ao máximo con-centrações de manifestantes acaso mobilizados para expressar o desgosto, o descontentamento ou a indignação da capital pelo abandono a que ia ser votada. Haveria um itinerário exclusivo para o chefe do estado, mas também para o primeiro-ministro e para cada um dos membros do gabinete ministerial, num total de vinte e sete percursos diferentes, todos sob a protecção do exército e da polícia, com carros de assalto nas encruzilhadas e ambulâncias na cauda dos cortejos, para o que desse e viesse. O mapa da cidade, um enorme painel iluminado sobre o qual se trabalhou arduamente durante quarenta e oito horas, com a participação de comandos militares e policiais especializados em rastreios, mostrava uma estrela vermelha de vinte e sete braços, catorze virados ao hemisfério norte, treze apontando ao hemisfério sul, com um equador que dividia a capital em duas metades. Por esses braços se haveriam de encanar os negros automóveis das entidades oficiais, rodeados de guarda-costas e olqui-tolquis, vetustos aparelhos ainda usados neste país, mas já com orçamento aprovado para modernização.

Então, ó surpresa, ó assombro, ó prodígio nunca visto, primeiro o desconcerto e a perplexidade, depois a inquietação, depois o medo, filaram as unhas nas gargantas do chefe do estado e do chefe do governo, dos ministros, secretários e subsecretários, dos deputados, dos seguranças dos camiões, dos batedores da polícia, e até, se bem que em menor grau, do pessoal das ambulâncias, por profissão habituado ao pior. À medida que os automóveis iam avançando pelas ruas, acendiam-se nas fachadas, umas após outras, de cima a baixo, as lâmpadas, os candeeiros, os focos, as lanternas de mão, os candelabros quando os havia, talvez mesmo alguma velha candeia de latão de três bicos, daquelas alimentadas a azeite, todas as janelas abertas e resplandecendo para fora, a jorros, um rio de luz como uma inundação, uma multiplicação de cristais feitos de lume branco, assinalando o caminho, apontando a rota da fuga aos desertores para que não se perdessem, para que não se extraviassem por atalhos. A primeira reacção dos responsáveis pela segurança dos comboios foi pôr de lado todas as cautelas, mandar pisar os aceleradores a fundo, dobrar a velocidade, e assim mesmo se começou por fazer, com a alegria irreprimível dos motoristas oficiais, os quais, como é universalmente conhecido, detestam ir a passo de boi quando levam duzentos cavalos no motor. Não lhes durou muito a correria. (P. 85)

A limpeza das ruas

O editorial foi lido, a rádio repetiu as passagens principais, a televisão entrevistou o director, e nisto se estava quando, meio-dia exacto era, de todas as casas da cidade saíram mulheres armadas de vassouras, baldes e pás, e, sem uma palavra, começaram a varrer as testadas dos prédios em que viviam, desde a porta até ao meio da rua, onde se encontravam com outras mulheres que, do outro lado, para o mesmo fim e com as mesmas armas, haviam descido. (P. 102)

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Pilar diz que Saramago antecipou acontecimentos nos países árabes
(Público)

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Un tempo nuovo
L’Unitá

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