Entre o narrador omnisciente e o monólogo interior: deveremos voltar ao autor?

Frequentemente, quando se fala das causas do êxito brilhante ou do fracasso  estrepitoso de um homem, há logo alguém que repete uma frase irritante, que o uso acabou por tornar clássica: «Cherchez la femme». O que com ela se quer dizer, provavelmente, é que o homem, tanto no melhor como no pior, não é nada sem uma mulher – a mulher. Deste ponto de vista, entregue a si próprio, o homem seria, pois, a imagem da mais perfeita inocência.

(Entre parênteses, não recordo ter ouvido alguma vez as palavras que fariam contraponto a estas quando fosse preciso procurar as causas do fracasso ou do êxito de uma mulher: não se diz nunca «cherchez  l’homme». Significa isto, talvez, que as mulheres conseguem governar-se sempre  melhor que os homens para chegar ao triunfo, ou, pelo contrário, para lamber e curar sozinhas as suas feridas, as feridas do corpo e da alma que a vida vai prodigalizando à esquerda e à direita. Parêntese fechado. Prossigo).

Certamente porque sempre necessito ir buscar o que se encontre a montante, e na fonte, se possível, para compreender o rio que me corre diante dos olhos, e sobretudo, confesso-o, para poder encontrar o meu pequeno caminho na floresta (para mim absolutamente virgem…) dos temas propostos ao Congresso, esmiucei, palavra por palavra, por assim dizer, os enunciados das diferentes áreas de trabalho que vos esperam aqui: literatura e identidade; influências estrangeiras e internas; géneros literários, língua, e cultura; literatura e outras formas de expressão cultural; estudos regionais; métodos e paradigmas da literatura comparada e da diversidade cultural.

Em parte alguma encontrei eu a palavra autor . Estranho caso, pensei. Então disse comigo mesmo: «Eles (vós) que falem do que os autores, muito ou pouco conhecidos, tornados em literatura, fizeram. Quanto a mim, talvez me seja possível encontrar alguma coisa para dizer sobre o que o autor  é.» Eis-me aqui, portanto, sozinho com o meu tema, em rigor sozinho comigo mesmo.

Começo por um esclarecimento que considero importante. Pelo menos do que posso alcançar ser minha intenção consciente, suponho que não existe outra, a interrogação posta no começo desta breve conferência – «Entre o narrador omnisciente e o monólogo interior: deveremos voltar ao autor?» – não é gratuita nem quer ser polémica.
 
Em primeiro lugar não é gratuita porque pretende enfrentar-se, sem virar a cara e sem qualquer precaução retórica prévia, com as minhas próprias dúvidas e perplexidades acerca da verdadeira identidade da minha voz narrativa, essa voz que, nos livros que tenho escrito, veicula o que eu creio ser, finalmente, e em todos os casos e circunstâncias, o simples ensamento do autor que sou, desta pessoa que sou, do seu pensamento próprio ou, ai de mim, o pensamento de tantas outras, por mim tomado para satisfação das minhas necessidades de narrador.

Não é polémica também essa liminar interrogação – apesar de conter já, na sua própria formulação, um reconhecimento implícito de mais ou menos evidentes debilidades conceptuais – porque não tenciona, com aquela falsa distracção de quem simula pensar noutra coisa, escapar às dificuldades do assunto, segundo o conhecido método de deslocar o debate para um terreno mais favorável.

Se proponho esta alternativa, que coloca frente a frente, por um lado, as técnicas mais ou menos elaboradas e já correntemente usadas do «monólogo interior» e, por outro lado, as técnicas do «narrador omnisciente», muito mais ingénuas, universalmente e desde sempre utilizadas, é porque penso, no fim de contas, que todos os processos narrativos, já inventados ou futuros, não têm e não terão nunca senão um objectivo: constituírem-se, cada um deles e todos juntos, como meios de pesquisa e de expressão que aspiram à globalidade. E que estes processos não são mais do que instrumentos que o autor vai usar, sucessivamente ou de modo complexo, com um único objectivo também, o de exprimir o  seu próprio pensamento. Escusado seria dizer que quando digo «pensamento» estou  a considerar também as impressões, as sensações, as emoções, os sonhos, que tudo isto são «visões» de um mundo exterior e de um mundo interior sem as quais o que chamamos «pensamento» se tornaria, pelo menos assim o creio, inoperante. O «narrador omnisciente», o autêntico, comporta-se, em minha opinião, como um deus que não se contentasse com saber tudo quanto se passou e vai passando: ele conhece, desde o primeiro facto, desde a primeira sensação, desde a primeira ideia, tudo o que a ideia, o facto ou a sensação irão ter como consequências próximas e distantes, espaciais ou temporais. Ele organizará o seu discurso, se posso permitir-me tal comparação, como o condutor duma quadriga que deverá não só segurar as rédeas e vigiar as reacções dos cavalos aos seus estímulos como também manter-se atento às eventuais irregularidades do caminho, ao itinerário que deverá seguir e aos sinais reveladores que lhe vão sendo transmitidos por uma máquina ainda mais frágil do que parece. Essa máquina, será preciso dizê-lo?, é a máquina do relato, jamais estável, jamais percorrendo uma linha recta, a todo o momento em risco de desviar-se, de tornar-se noutra coisa.

Qualquer, querendo, poderá adornar estas coisas a seu gosto, mas, na verdade, o que nós fazemos, em geral, nós os que  escrevemos, é resumível em duas simples palavras: contar histórias. Também é possível dizer – seguramente alguém o disse já – que os romancistas, os dramaturgos, e mesmo os poetas, existem para contar a história daqueles que não são nem virão a ser poetas, dramaturgos, ou romancistas. Talvez isto seja certo, quem sou eu para refutar, embora não consiga deixar de pensar que há nessa presunção alguma vaidade intelectual em demasia. Indo um pouco mais longe, o que verdadeiramente creio é que o romancista, o dramaturgo, o poeta, contam, não unicamente, claro está, mas sobretudo, a sua própria história pessoal, o que, em todo o caso, não é o mesmo que afirmar que um dia decidiram ser escritores somente para nos contar, de caso pensado e com o indispensável impudor, as suas pequenas vidas…

Em meu parecer, cada palavra é, em si mesma, uma história. As palavras que pronunciamos, entre o momento em que deixamos a cama, de manhã, e aquele em que a ela regressamos quando a noite chega, e também as palavras dos sonhos, ou aquelas que os sonhos tentaram descrever – constituem uma história, ao mesmo tempo racional e louca, contínua ou fragmentária, e podem, como tal e em todo o momento, ser organizadas e articuladas em história, escrita ou não. Porque, ainda que não escrevamos, vivemos todo o tempo como uma personagem, sim, como uma personagem, a história que estamos a ser.

Tudo isto, não o esqueçamos, será contado pelo escritor com uma dupla intenção, que é ora clara ora oculta: evidente e visível, em primeiro lugar, porque é preciso que a história que conta seja «reconhecida» como tal, passo a passo, pelo leitor, mas também, em segundo lugar, como se  ela estivesse dissimulada por trás da imediatidade do que chamamos consciência, com vista a ampliar e acentuar os efeitos de ressonância que dessa dissimulação possam resultar.

Esse contador de histórias é, não o esqueçamos também, em todas as  circunstâncias, um mistificador, um mistificador impenitente, de alguma maneira sem desculpa, salvo a do seu génio, se teve  essa extraordinária sorte no momento da repartição cósmica das graças… Conta sempre as mesmas histórias, sabendo bem que elas não são mais do que umas quantas palavras postas umas atrás das outras, suspensas em equilíbrio instável, frágeis, sempre sob a vertigem do não-sentido que as atrai, já livres ou conservando ainda um  resto de organização, para esse fantasma imundo que sempre está à espreita, o caos que ameaça constantemente todos os nossos códigos, cuja chave, a cada momento, corre o risco de perder-se.

Contudo, devemos ter presente que,  do mesmo modo que as verdades puras não existem, também não existem as puras mentiras. Porque se toda a verdade leva consigo inevitavelmente uma parte de mentira, nenhuma mentira é tão mentirosa que não veicule, ela também, uma parte de verdade. A mentira conterá pois duas verdades: a sua própria, elementar, digamos, a verdade da sua própria contradição («Se eu sou mentiroso e o digo, estou a dizer uma verdade»), e a outra verdade de que ela acabará, voluntariamente ou involuntariamente, por tornar-se veículo, comporte ou não esta verdade, por sua vez, uma parte de mentira. Cada uma destas forças faz mover sucessivamente, como numa engrenagem,  a força que é sua negação. Não conheço outro movimento perpétuo…

Ora projectando uma aparência de verdade ora torcendo sobre a verdade duma aparência, vamos pela vida contando histórias. No entanto, e aqui entro finalmente no cerne do meu tema, a história que, segundo creio, deveria interessar mais ao leitor, e ao contrário do que parece ser a própria evidência material do texto, não deveria ser aquela que aparentemente lhe está a ser proposta pelo relato que ele se prepara para ler. Como é possível? Que quero dizer com isto? Passarei a explicar-me. Um livro não está feito somente de personagens, de acontecimentos, de peripécias, de surpresas, de efeitos de estilo, de demonstrações ginásticas duma técnica. Um livro é, acima de tudo, aquilo que nele possa ser encontrado e nele possa ser identificado como sendo o autor, o seu autor. Pergunto-me mesmo se o que determina o leitor a ler não será uma secreta e inconfessada esperança de descobrir no interior do livro – mais do que a história que lhe vai ser contada e que ele normalmente espera num estado de espírito similar à obediência –, a pessoa invisível, omnipresente também, diga-se o que se disser, do autor. Tal como o entendo, o romance é uma máscara que esconde e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. O leitor não lê o romance, lê o romancista. O que não equivale a dizer que o leitor deva entregar-se a uma operação de detective ou de geólogo, procurando pistas ou sondando camadas tectónicas, ao fundo das quais, como um culpado ou uma vítima, ou como um fóssil, se encontraria
escondido o autor…  

Muito pelo contrário: o autor está ali no livro, o autor é o livro, mesmo quando o livro não consegue ser todo o autor. Mão foi simplesmente para chocar a sociedade do seu tempo que Gustave Flaubert declarou que Madame Bovary era ele próprio. Parece-me, até, que ele não fez mais do que arrombar uma porta desde sempre aberta. Sem faltar ao respeito que é devido ao autor de Bouvard et Pécuchet, poder-se-ia mesmo dizer que uma tal afirmação não peca por excesso, mas por defeito: faltou a Flaubert
acrescentar que ele era também o marido e os amantes de Emma, que era a casa e a rua, que era a cidade e todos quantos, de  todas as condições e idades, nela viviam, porque a imagem e o espírito, o sangue e a  carne de tudo isto tiveram de passar, inteiros, por um só homem: Gustave Flaubert, isto é, o autor. Emma Bovary é Gustave Flaubert porque sem ele seria coisa nenhuma. E se me é permitida agora a presunção de pronunciar outro nome depois de ter mencionado o do autor de  L’éducation sentimentale, diria que também eu, ainda que tão pouca coisa, sou a Blimunda e o Baltasar de Memorial do Convento, e que em  O Evangelho segundo Jesus Cristo  não sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também o Deus e o Diabo que lá estão.

O que nós sempre contamos, afinal, é a nossa própria história, não a história da nossa vida, aquela a que chamamos biográfica, mas essa outra que dificilmente saberíamos contar em nosso próprio nome, não tanto porque nos desse demasiada vergonha ou nos trouxesse demasiado orgulho, mas porque o que há de grande no ser humano é grande de mais para poder ser  dito em palavras, fossem elas milhares, e porque o que faz de nós geralmente pequenos e mesquinhos é a tal ponto quotidiano e comum que por aí não encontraríamos nada de novo que pudesse comover esse outro grande e pequeno ser que o leitor é.
 
Talvez seja por estas razões e outras semelhantes que certos autores, entre os quais julgo poder incluir-me, privilegiam nas histórias que contam, não a história que vivem ou viveram, mas a história da sua própria memória, com as suas exactidões, os seus desfalecimentos, as suas mentiras que também são verdades, as suas verdades que não podem impedir-se de ser mentiras.  Essa é a única história que poderemos honestamente contar porque, em verdade, não conhecemos outra.

E então? Deveremos realmente regressar ao autor? Sim, em minha opinião, sim, mas atenção, não ao autor, como tal, desligado, como hoje demasiado o vemos, do seu ser social e ético. Receio bem que as  palavras que vou dizer vos soem como antiguidades fora de moda, mas o que proponho aqui é uma espécie de reconciliação, é o regresso apaixonado à concreta figura de homem ou de mulher que está por trás dos livros, e sem a qual, sem essa figura concreta, a literatura simplesmente não existiria. São essa mulher e esse homem que sobretudo me interessam, não para que me digam como foi que escreveram as suas grandes ou pequenas obras (o mais provável é não o saberem eles próprios), não para que aperfeiçoem a minha educação e me guiem com as suas lições (eles são, quase sempre, os primeiros a não segui-las), mas muito simplesmente para que me digam  quem são nesta sociedade que  nós somos, eles, eu, todos nós. O que peço é que eles estejam aí todos os dias, visíveis, sobretudo audíveis, como cidadãos deste presente que é o nosso, mesmo se, como escritores, crêem estar trabalhando para o futuro.

O problema, se verdadeiramente existe, se não é mais do que um fruto tardio e pouco atraente da minha imaginação, não reside no suposto facto da extinção das causas de teor social, ideológico ou político que, com resultados estéticos tão variáveis como foram as intenções, conduziram a literatura, num determinado momento, àquilo a que se chamou, com evidente espírito redutor, o comprometimento. O problema, se quereis que me exprima duma maneira mais directa e sem rodeios, é que o escritor,
hoje, em geral, recusa qualquer comprometimento, salvo evidentemente o que ele chama, se é bastante franco para declará-lo, o comprometimento pessoal e exclusivo com a sua obra. Atrever-me-ei mesmo a dizer que muitas teorizações que nos rodeiam, quantas delas belas e inteligentes, acabam, mesmo não sendo esse o seu objectivo, por se constituir como escapatórias intelectuais, maneiras diversas de esconder, aos nossos próprios olhos, a má consciência e o mal-estar profundo de um grupo de pessoas – nós, os escritores – que depois de terem presumido, durante muito tempo, de serem o farol da humanidade, acrescentam agora, à irredutível escuridão do acto criador (sabíeis que escrevemos no escuro?), as trevas da renúncia e da abdicação cívica. Entendemos como normal que, depois da sua morte, o escritor seja julgado segundo aquilo que fez. Mas, enquanto ele aí está, presente, vivo, permiti que vos diga que temos também o direito de julgá-lo segundo o que é.

José Saramago 

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