Entrevista de José Saramago ao jornal Público e à Rádio Renascença

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“Não sou um exemplo do que é viver neste mundo”

15.06.2008

Maria José Oliveira (PÚBLICO) e Paulo Magalhães (Renascença)

Ainda em convalescença, José Saramago diz que a pneumonia lhe fez “bem”. Porque “relativizou tudo” e lhe deu “serenidade”

José Saramago afirma que foi a primeira vez que se “atreveu” a dizê-lo: se existe alguma mensagem nos seus livros, ela está no momento em que um cão lambe as lágrimas de uma mulher, no romance Ensaio sobre a Cegueira. É por essa passagem que o Prémio Nobel da Literatura (1998) gostaria de ser recordado no futuro. Em conversa com o PÚBLICO e a Rádio Renascença, Saramago comentou a suposta gaffe de Cavaco Silva, lamentou o espírito de resignação dos portugueses e falou sobre a pneumonia que o deixou às portas da morte. Em Lisboa, onde vai ficar até meados de Julho, continua a escrever todos os dias as páginas do seu próximo romance, A Viagem do Elefante, que deverá estar concluído em Agosto. Há muita gente em Portugal que não gosta da sua obra. É uma pessoa polémica…

É estranho que comecemos por aí, pelas pessoas que não gostam daquilo que eu digo ou daquilo que eu faço. Não vou dizer que lamento. Faço o meu trabalho e não roubei o lugar a ninguém. Na arte não se rouba o lugar: ocupa-se o seu próprio lugar. Foi o que eu fiz. Há posições extremadas. Ou se ama ou se odeia. Acho muito bem. Não estamos com meias-tintas. Mas há ainda uma outra categoria, mais reduzida, de pessoas que não leram e não gostam.
Que imagem tem do seu país e dos seus compatriotas? Tenho sido severo, algumas vezes. Mas houve uma altura em que disse que gostava daquilo que este país fez de mim – é um dos melhores elogios que se pode fazer. Verifico com pena que continuamos com pouca ousadia no que se refere a projectos e à sua realização. Comparo o nosso país com uma pessoa que está na borda do passeio à espera que alguém a ajude a atravessar para o outro lado. Estamos sempre à espera de alguém que venha salvar a pátria. O grande problema nacional é a mediocridade e a resignação à mediocridade. O que é um pouco contraditório. Porque temos sonhos de grandeza e o Campeonato Europeu de Futebol é um caso. Fala em falta de espírito crítico. Onde é que isso se nota no dia-a-dia? No comportamento dos cidadãos. Há quem opine criticamente nos jornais. Mas o cidadão médio tem uma preguiça enorme em riscar as opiniões que não sejam aquelas que se trocam por miúdos ao longo do dia. Há três ou quatro ou 50 problemas grandes no mundo. Não vejo a participação dos portugueses nos debates de todas essas coisas. De onde é que vem essa falta de participação? Não sei se é congénito, não sei o que se passa connosco. Connosco incluindo José Saramago? Incluindo-me a mim. Se não fosse isso, seria muito melhor do que aquilo que sou. Que já não estou nada mau. Hoje é Presidente da República o homem que era primeiro-ministro quando decidiu ir para Lanzarote… Sim, senhor. Bom proveito vos faça. Esse primeiro-ministro é hoje Presidente da República. Como é que vê o seu mandato? Nem olho para ele. Refiro-me ao mandato. Há pouco falou-se nas pessoas que não gostam de mim. Pronto, eu também não gosto do professor Cavaco Silva. É o meu direito. E de vez em quando ele dá-me razão. Há dias saiu-se com essa do dia da raça. Não foi um deslize, uma gaffe? Se ele disse dia da raça é porque pensa efectivamente que deveria chamar-se assim, embora não ouse fazer essa proposta. O Presidente deveria ter feito um pedido de desculpas público? Os políticos dificilmente pedem desculpa às pessoas a quem de alguma maneira ofenderam. Consideram-no uma pessoa céptica ou pessimista. Revê-se nisso? Não sou uma espécie de narciso que se vê ao espelho e diz “olha que bom, que pessimista que tu és”. Parece que o que é bom é ser optimista. Mesmo que não haja nenhuma razão para isso. Há pessoas que têm razões para estarem contentíssimas com o mundo, têm tudo o que querem. O que é que lhe falta? Não me falta nada. Mas eu não sou um exemplo do que é viver neste mundo. Sou um privilegiado. Mas não posso estar contente. O mundo é o inferno. Não vale a pena ameaçarem-nos com outro inferno porque já estamos nele. A questão é saber como é que saímos dele.

Saul Bellow, também Nobel da Literatura, dizia que à medida que ia envelhecendo ia encurtando frases e as suas obras foram ficando mais magras… Escrevo menos frases longas e o livro fica mais pequeno. A idade tem uma influência grande. Não é agora, aos 85 anos, que eu poderia lançar-me a escrever o Memorial do Convento ou o Evangelho segundo Jesus Cristo. Porque olho para o calendário e pergunto: ainda estarei vivo daqui por um ano? Pensou na morte quando esteve doente? Era inevitável que pensasse. Estive muito perto dela. Se me falarem sobre a morte digo: sim, já sei, estive à porta. Não cheguei a entrar, mas estive à porta. Aceitei essa probabilidade com uma serenidade enorme. Serenidade que conservo hoje. De certa forma, diria que me fez bem aquela doença. Relativizou tudo. Estou a escrever um livro [A Viagem do Elefante] e não quero morrer antes de acabá-lo. Uma das minhas preocupações quando estava entre cá e lá, numa espécie de limbo em que a consciência de mim mesmo não era absoluta, era a de que talvez não pudesse acabar o livro. Afinal, ainda hoje escrevi mais uma página. Lá para Agosto estará terminado. Como é que gostava de ser recordado? O Nobel português?
Gostaria de ser recordado como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas [Ensaio sobre a Cegueira]. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje enquanto escritor. Se no futuro puder ser recordado como “aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher”, ficarei contente. Se alguém procurar naquilo que eu tenho escrito uma certa mensagem, atrevo-me pela primeira vez a dizer que essa mensagem está aí. A compaixão dessa mulher que tenta salvar o grupo em que está o seu marido é equivalente à compaixão daquele cão que se aproxima de um ser humano em desespero e que, não podendo fazer mais nada, lhe bebe as lágrimas.

“Não vou sentar-me outra vez no banco da escola primária”

15.06.2008

A ratificação do Acordo Ortográfico é algo que não agrada muito a José Saramago. Até porque não se deve mexer naquilo que deu “bons resultados”. Contudo, o escritor considera que o futuro da língua poderia estar “bastante comprometido” sem a existência deste acordo. Na reedição das suas obras, a mudança de grafia será feita por revisores. Aos 85 anos, Saramago diz que já não tem paciência para recorrer constantemente ao dicionário nem para regressar aos bancos da escola primária. As reedições das suas obras vão ter de aplicar o Acordo ortográfico. O que lhe parece? E que importância tem? Em 1911 fizemos uma reforma ortográfica, suponho que por decreto, e sobrevivemos ao choque. Que não deve ter sido muito grande porque não se manejam reacções nesse tempo contra o acordo ortográfico. Não deixou rasto. Ao longo da minha vida passei por algumas coisas dessas, que não eram exactamente reformas ortográficas, mas apareciam algumas coisas dessas. Aprendi a escrever a palavra mãe com “e” no final, depois veio uma reforma gráfica e passei a escrever com “i” final. Depois veio outra e passei a escrever com “e” novamente. Agora estamos em algo mais vasto e complexo que não me agrada completamente. Nestas matérias sou bastante conservador: o que está e deu bons frutos e bons resultados não se mexe. Mas tenho de compreender uma coisa: o futuro do português que escrevemos poderia estar bastante comprometido se não houvesse este acordo. É certo que haverá por parte de muita gente uma certa relutância em escrever acto sem “c” quando até agora escrevíamos com “c”. Mas o Brasil tem 200 milhões de habitantes, creio. Podemos com os nossos dez milhões impor à sociedade mundial a nossa norma por isto ou por aqueloutro. Apresentem as razões. Há aí um grupo de pessoas que respeito muito que não estão de acordo comigo. Mas creio que temos de embarcar nesse comboio mesmo que não gostemos muito. Não há outro remédio. Vai começar a escrever acto sem a letra “c”?
Vou continuar a escrever como escrevo hoje. Não vou querer estar a ir constantemente ao dicionário ver se se escreve com “c” ou não. Os revisores encarregam-se disso. Isto vai até 2015, creio, e vamos ter de actualizar dicionários. Agora que eu tenho 85 anos não vou sentar-me outra vez no banco da escola primária para aprender a escrever. Isso faço eu. Há uns apêndices que caem para outra pessoa, neste caso o revisor, que se encarregará de limpar a prosa.

“Em 1911 fizemos uma reforma ortográfica, suponho que por decreto, e sobrevivemos ao choque”, afirma José Saramago.

Entrevista publicada no jornal Público (edição impressa) de 15.06.2008 e transmitida no programa Diga Lá Excelência de 14.06.2008

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