Ernesto Cardenal recebe o Prémio Rainha Sofía de Poesia Iberoamericana

O poeta, padre e revolucionário nicaraguense Ernesto Cardenal, de 87 anos, foi distinguido no dia 3 de maio com o Prémio Rainha Sofía de Poesia Iberoamericana, promovido pelo Patrimonio Nacional de Espanha e pela Universidade de Salamanca.

O poeta recebeu a notícia por telefone, às 5h30 locais, mas estava bem acordado: levanta-se habitualmente às 3h00.

Nascido em Granada (Nicarágua), Cardenal foi ordenado sacerdote em 1965, viveu no mosteiro de Gethsemani, nos Estados Unidos, e estudou Teologia no México. Participou num golpe falhado contra a ditadura da família Somoza. Para ele, poesia, fé e compromisso formam “um todo indivisível”.

A sua obra poética tornou-se parte fundamental da poesia latinoamericana da segunda metade do séc. XX, com obras como “Epigramas”, “Salmos”, “Oração por Marilyn Monroe” ou “El Evangelio en Solentiname”, fruto dos comentários dos camponeses nacaraguenses aos textos sagrados – “mais profundos do que os de muitos teólogos” – da ilha do Lago de Nicarágua, onde criou uma comunidade cristã.

Depois do triunfo da revolta sandinista em julho de 1979, Ernesto Cardenal foi ministro da Cultura, mas afastou-se do regime de Daniel Ortega em 1994. 

“Nunca fui um dissidente mas sim um poeta da Teologia da Libertação, que é a teologia dos pobres”, afirmou ao diário espanho El País. “Em grego, Evangelho significa boa nova e para os pobres a justiça é a boa nova. Essa não é a teoria do Vaticano, mas nós acreditamos em Jesus de Nazaré.”

“Não sou um político, sou um revolucionário”, esclareceu. “Aceitei o cargo de ministro com grande sacrifício para espalhar a cultura pelo povo. Nunca teria sido ministro de um governo burguês capitalista.”

Mas mostra-se dececionado com o atual governo de Daniel Ortega. Em 2004, deu ao terceiro volume das suas memórias um título claro: “A Revolução Perdida”. E diz aí: “Não esperávamos que a revolução fosse tão bela como foi, um sonho de que não queríamos despertar. O governo atual é um pesadelo de que não podemos despertar. A Nicarágua vive numa ditadura. O governo não é de esquerda nem revolucionário nem sandinista, é uma ditadura familiar de Daniel Ortega, da mulher e dos filhos.”

O que pode então fazer a sua poesia? “Claro que a poesia pode fazer muito, mudar a mentalidade da Humanidade, como sempre fez. A primeira linguagem foi a poesia, só depois veio a prosa. A poesia mantém os ideiais vivos e anuncia um mundo melhor. Já o disseram os profetas da Bíblia, tão próximos dos poetas. A poesia é anúncio e denúncia. Anúncio de um mundo novo e denúncia da injustiça.”

Com o Prémio Reina Sofía de Poesía, Ernesto Cardenal junta-se a poetas como Sophia de Melo Breyner, Nicanor Parra, Antonio Gamoneda, Juan Gelman, José Emilio Pacheco, José Hierro, Álvaro Mutis, Claudio Rodríguez, Francisco Brines, Blanca Varela e Fina García Marruz.

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