Fernando Pessoa – Cáceres

Hoje, uma certa área do mapa cultural português apresenta-se-nos de maneira que, sem metaforizar demasiado, tornou-se quase inevitável dizer que por Fernando Pessoa se chega a Lisboa e por Lisboa se chega a Fernando Pessoa, o que, em diferentes palavras, significaria que ela é a cidade deste poeta e ele o poeta daquela cidade. Para alimentar tal ideia duma relação profunda entre Pessoa e Lisboa não têm faltado as referências topográficas, quer sejam as sucessivas casas onde viveu ou os escritórios onde trabalhou, e também as pálidas fotografias do tempo, Pessoa sentado a uma mesa no Café Martinho da Arcada, Pessoa bebendo um copo de vinho no Val do Rio, Pessoa descendo o Chiado rente a um prédio que o incêndio agora devorou.
Suponho que esta convicção assenta no equívoco comum de se tomar uma parte pelo todo, uma parcela da aparência pela realidade toda. É verdade que no Livro do Desassossego a presença de Lisboa é constante, obsessiva, invade toda a obra, mas, se ao falar de Pessoa estamos sobretudo a pensar no poeta, então, forçoso é reconhecê-lo, esse quase não deu pela existência da cidade. Salvo desmentido que poesias ainda inéditas obriguem a receber, a evidência que hoje se nos depara é que, de todos os poetas que em Pessoa e a Pessoa exprimiram, apenas Álvaro de Campos falou da cidade, e não mais do que em quatro poemas, precisamente os que aqui se reúnem, mas onde Lisboa surge como simples pretexto para uma reflexão, ponto de partida para a única real viagem que Fernando Pessoa fez na sua vida, a de si a si mesmo, percurso sobre todos circular, em que a cidade foi somente um lugar de sonâmbula passagem, ou, melhor dizendo, lugar que olhou o poeta, deixando-se ele olhar.

Contudo, um único poema pode bastar para que se torne inapagável, na memória que de nós próprios temos e na memória colectiva que transportamos, o que não parecia ser mais que alusão ocorrente, desenfado de ocasião, ou jogo de palavras. Sem dúvida, os poemas «Lisbon Revisited», 1926, 1929, poderiam existir sem as referências a Lisboa, e o soneto «A Praça da Figueira», objectivamente, tem pouco para dizer-nos hoje, pois fala dum sítio de que o actual conserva pouco mais que o nome, mas o outro poema, aquele que principia «Lisboa com as suas casas de várias cores», esse queremos acreditar que ficará para sempre como a imagem perfeita de Lisboa, mesmo que um dia venham a pintá-la de uma cor só, mesmo que, como agora, uma mancha negra e terrível lhe tenha queimado o coração.

«Lisboa com as suas casas de várias cores»: assim é, e será assim, apenas por tê-lo dito um Poeta.

José Saramago

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