Fernando Pessoa – Plural como o universo na Fundação Gulbenkian

Fernando Pessoa é “um poeta português sem sotaque”. Esta frase é dita a brincar por Carlos Felipe Moisés, o curador brasileiro da exposição Fernando Pessoa – Plural como o universo, que já pode ser visitada na Fundação Gulbenkian e assinala o Ano do Brasil em Portugal.

A exposição foi criada originalmente para o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, onde esteve no ano passado, numa colaboração com a Fundação Roberto Marinho. Passou depois pelo Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, atingindo os 400 mil visitantes no Brasil, e chega a Lisboa numa versão aumentada e com mais espaço expositivo.

“Esta é a melhor das três [versões da exposição]”, afirma ao P2 Carlos Felipe Moisés durante uma visita guiada para jornalistas. “O espaço na Gulbenkian é mais generoso, o que permitiu que a concepção cenográfica fosse realizada na íntegra. Tanto em São Paulo como no Rio havia limitações de espaço físico. Em Lisboa podem ser vistos manuscritos e originais a que no Brasil não tínhamos acesso. O famoso quadro de Almada Negreiros está aqui, em São Paulo só tínhamos uma reprodução.” Na Gulbenkian está também a famosa arca de madeira do poeta, que foi cedida para a exposição pelo anónimo que a arrecadou, em leilão, em 2008. “O visitante dessa terceira versão da exposição é privilegiado, tem essa exposição na melhor forma possível”, acrescenta o curador brasileiro.

Numa das vitrinas, de uma das várias salas ocupadas pela exposição até ao dia 30 de Abril, vê-se uma folha de papel branco, que pertence ao espólio do poeta na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), onde Fernando Pessoa (1888-1935) escreveu a frase: “Sê plural como o universo!” Foi a partir desse manuscrito que nasceu o título “Plural como o universo”, que, como explica o outro curador da exposição, Richard Zenith, tradutor especialista em Pessoa que vive em Lisboa, remete para a multiplicidade que conhecemos em Pessoa. “Era um escritor que estava sempre em movimento e defendia que uma pessoa com uma mente activa não se podia fixar numa só opinião. Por isso, Pessoa se contradiz. Não acreditava na Verdade, para ele havia muitas verdades, com pontos de vista diferentes talvez se pudesse chegar a algum lado.”

Os curadores quiseram mostrar que “Pessoa é um poeta para todos” e fazer uma exposição para todas as idades. A exposição é lúdica, interactiva e labiríntica: não tem um percurso marcado para que os visitantes se aventurem no seu espaço. “Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o que aconteceu [nas visitas à exposição] é que as pessoas davam conta de que são tão plurais, em potência, como Fernando Pessoa”, diz Carlos Felipe Moisés.

Basta olhar em volta para nos virem à memória pedaços de poemas esquecidos. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”, do Poema em linha reta de Álvaro de Campos. Ou ainda, “Pertenço a um género de portugueses/Que depois de estar a Índia descoberta/ Ficaram sem trabalho”, de Opiário também de Álvaro de Campos.

 

Logo na primeira sala entramos no jogo do autor de Mensagem e somos apresentados ao ortónimo (Fernando Pessoa) e aos heterónimos principais (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares) através de cinco cabines, dedicadas a cada um deles. Uma sexta cabine, intitulada Eu sou muitos, representa as outras dezenas de personalidades literárias que Pessoa criou. Em cada cabine há ambiente sonoro e são projectados textos (versos e excertos). Quando se esbraceja ou se mexem as mãos para o alto, as letras na parede decompõem-se e aparece um novo texto. Fernando Pessoa – Plural como o universo tem uma grande componente multimédia: filmes (Limite, de Mário Peixoto, e Pessoas, de Carlos Nader), vozes e sons e poemas ditos e ainda páginas de livros que com um só toque do visitante se desfolham.

À entrada, pendurado no tecto, há uma instalação feita com a mesa, a cadeira, a chávena de café, o chapéu de Pessoa – é a projecção de vários elementos do famoso quadro de Almada Negreiros, Fernando Pessoa lendo Orpheu. O quadro original, que pertence à colecção da Fundação Gulbenkian, e Lisboa, de Carlos Botelho, estão na sala seguinte. Não só estes dois quadros enriquecem a exposição em Lisboa. No canto dedicado ao modernismo e à criação da revista Orpheu estão expostas três obras de Eduardo Viana, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor. “Há poucas obras artísticas feitas de Pessoa em vida, e esta é de Almada Negreiros e pertence ao sobrinho de Fernando Pessoa, Luís Miguel Rosa Dias, que a cedeu para a exposição”, explica Richard Zenith durante a visita guiada. Fala de uma sanguínea, desenho feito com lápis de sanguina datado de 1915. O que também distingue esta exposição das anteriores são as seis vitrines que mostram documentos, manuscritos e cadernos que pertencem a particulares e à BNP, alguns inéditos, na última sala da exposição. “Agora fala-se muito da crise, mas Pessoa, em 1913, fez uma lista de projectos de ensaio de carácter sociológico e político: a crise moderna, a crise elogiosa, tinha mais de dez crises. Faz parte do espólio, mas ainda não foi publicado”, diz Richard Zenith. Estão lá cartas que nunca foram mostradas em público, dois bilhetes-postais para Luís de Montalvor (um dos primeiros directores da revista Orpheu), o primeiro dos jornais fictícios de Pessoa, O Palrador, com notícias reais e fictícias, o caderno mais antigo de Pessoa (datado de 1901), onde ele registou as notas do liceu de Durban (era um estudante exímio). O caderno com a primeira mostra caligráfica de Fernando Pessoa e, um outro, onde nasceram os primeiros excertos do Barão de Teive.

O que os curadores esperam, se possível, é que os visitantes saiam da exposição com imensa vontade de ler Fernando Pessoa. “Que saiam daqui, como diria o próprio Pessoa, indisciplinados. Pessoa se definiu como um “indisciplinador de almas”, e Jorge de Sena escreve um ensaio a esse respeito”, diz Carlos Felipe Moisés. “A função da alma de Fernando Pessoa não é agradar-nos ou entreter-nos ou encantar-nos só, mas é também indisciplinar-nos”, acrescenta.

Fotografias de Márcia Lessa/Fundação Calouste Gulbenkian
Fonte: Público

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