Festival Sete Sóis Sete Luas em Azinhaga

Caro Marco,
Não tenho palavras para descrever a emoção que me causou a tua carta. À minha vida não têm faltado prémios, mas nenhum como este. Devo-o á tua generosidade, que eu já sabia ser grande, mas não a este ponto, que está para além do imaginável. São dívidas que não poderei pagar. Não somente esta contigo, mas também a que vou contrair com todos esses artistas que se dispõem a renunciar ao que lhes é devido. Não consegui segurar as lágrimas.
Um grande, um infinito abraço,
José Saramago

Nasce assim, de um desejo manifestado pelo José Saramago em Pontedera, por ocasião da visita do Centrum Sete Sóis Sete Luas, no dia 13 de Outubro de 2009, a ideia de realizar o Festival em Azinhaga, terra natal do grande escritor português e Presidente Honorário «militante» do Sete Sóis Sete Luas. Uma militância longa de quase vinte anos, desde Novembro de 1992, a ligar José Saramago ao Festival SSSL, que foi a primeira personagem a dar força e confiança ao projecto de trocas culturais e artísticas entre Itália e Portugal, que depois viria a ficar com o nome Sete Sóis Sete Luas, em homenagem às personagens do «Memorial do Convento». Em tantos anos pudemos, assim, conhecer a extraordinária humanidade de José, que se empenhou com o Festival, oferecendo em Novembro de 1992 os direitos de autor para Itália do seu livro «O ano de 1993», participando em conferências de imprensa (em Florença, Lisboa, Roma, Valência), em espectáculos teatrais (o «Recital», dedicado às figuras femininas nas obras do Saramago, com a participação de três grandes actrizes, como Maria de Medeiros, Laura Morante e Marisa Paredes, em Julho de 2002, e «No a la guerra», realizado em Roma, em Julho de 2004, com Emilio Aragón, Maddalena Crippa, Pilar del Río e o mesmo José na qualidade de actor), obras musicais («Cruci-verba» de Azio Corghi, com Maddalena Crippa), simpósios (em Santa Maria da Feira, com Vasco Graça-Moura e António Di Pietro, no dia do seu 80° aniversário, e em Pontedera em Março de 2004), fazendo a proposta de realizar o Festival em Castril (Granada), terra natal de Pilar, aceitando, em Abril de 2009, doar o «Prémio Caja Granada a la Cooperación Internacional» para a construção do Centrum SSSL em Cabo Verde, visitando, por fim, o Centrum SSSL de Pontedera em Outubro de 2009.

fjs

Para honrar tão generosa militância de José, o Festival SSSL pensou realizar uma emocionante homenagem artística, convidando para a Azinhaga alguns dos artistas mais interessantes dos Países e regiões da Rede SSSL (Andaluzia, Cabo Verde, Portugal, Toscana, Valência…) para produzirem obras inspiradas em «As pequenas memórias», o livro autobiográfico que conta os primeiros 15 anos de vida do escritor entre Azinhaga e Lisboa.

José Saramago, que nos ajudou desde o primeiro momento a criar o Festival SSSL, do qual será para sempre o Presidente Honorário “militante” por excelência, deixa-nos esta grande herança: acreditar na nossa capacidade de sonhar, de construir mundos novos, mais justos, fundados na razão humana.

Deixa-nos em herança, como guia do Festival, a “passarola”, a primeira máquina voadora experimentada realmente em Lisboa, no ano de 1709, e símbolo do seu romance «Memorial do Convento», que bem representa o espírito iluminado de José e é símbolo de razão e de futuro. O espírito universalista e iluminado de Saramago acompanhou sempre a sua humanidade. E a humanidade e a razão de Saramago vão continuar, por isso, a ser o guia do Festival Sete Sóis Sete Luas.

Obrigado, José Saramago

Marco Abbondanza
Director Festival Sete Sóis Sete Luas

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Falar do Festival Sete Sóis Sete Luas pode levar-nos a incorrer no erro de pensar que se trata apenas de mais um festival de música. Não é assim, de facto. A par dos mais de trinta concertos, a programação desta XVIII edição inclui, à semelhança de anos anteriores, um conjunto de exposições de fotografia e pintura, mostras gastronómicas e de produtos culturais de cada uma das regiões que integram a rede.

A edição de 2010 arrancou no passado dia 25 de Junho em Oeiras, viajando, depois, por 25 cidades de 10 países da bacia mediterrânica. Brasil, Cabo Verde, Croácia, Espanha, França, Grécia, Israel, Itália, Marrocos e Portugal serão o palco das actuações de Custódio Castelo, dos Galandun Galandaina, de Mor Karbazi, Júlio Pereira, Massimo Laguardia, Tete e Sara Alhinho, Emir Kusturica e Rocio Marques, entre outros, e das exposições de Oliviero Toscani, César Molina, Konstantinos Ignatiadis, Tchalê Figueira…

Em destaque está a inclusão de três novos locais na rede do Sete Sóis Sete Luas, Alfândega da Fé (Trás-os-Montes), Reguengos de Monsaraz (Alentejo) e Azinhaga do Ribatejo. Nesta última, terra natal de José Saramago, o programa inclui a inauguração de uma exposição colectiva. Com o título “As personagens de José Saramago nas artes”, recebe os trabalhos de pintura e escultura de diversos artistas que apresentarão um conjunto de obras de homenagem às personagens de José Saramago, com especial incidência no livro “As Pequenas Memórias”. Ainda no campo das exposições, Azinhaga receberá a exposição de Oliviero Toscani, que retratou os burros transmontanos como se de top-models se tratassem. Ambas as exposições estarão patentes entre os dias 10 e 15 de Julho. Na música, as noites da Azinhaga receberão a visita de Mor Karbasi (Israel), Eugénio Bennato (Itália), Mario Lucio (Cabo Verde) e a 7 Luas Orkestra, colectivo de intérpretes dos países que compõem a rede Sete Sóis Sete Luas.

Abrir o catálogo da exposição Zezito, As Pequenas Memórias em pdf

Tal como tem sido hábito em edições anteriores, a XVIII edição do Sete Sóis Sete Luas apresenta um projecto de carácter musical que reúne intérpretes dos vários países e regiões participantes. Com o nome de “Les voix du 7Sóis”, este colectivo aglutina as muitas vozes e línguas mediterrânicas, representadas por Talya Solan (Israel), Juan Pinilla (Andaluzia) e Pedro Mestre (Alentejo), que se juntam aos acordeões, violinos, ouds, bouzukis e vozes de Wafir Shaikheldin (Norte de África), Alen Sinkauz (Croácia) e Stefano Saletti (Itália). A orquestra actuará em Genazzano, a 18 de Julho, e em Castro Verde, a 12 de Setembro.

Pelo trabalho realizado ao longo das dezassete edições anteriores, o Festival viu reconhecida a sua importância através da atribuição, em 2009, do Prémio “Caja Granada para a Cooperação Internacional”, no valor de 50 000 Euros, verba que foi canalizada para a construção do Centro Culturar Sete Sóis Sete Luas em Cabo Verde. O edifício juntar-se-á aos dois centros culturais com o mesmo nome que são já uma realidade, e garantia de uma presença cultural regular, em Ponte de Sôr e Pontedera.

fjs

Aceder à página do Festival Sete Sóis Sete Luas

Ver programa completo

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Sete Sóis Sete Luas rinde homenaje a Saramago
El Mundo

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Ouvir Chamatheia, pela 7 Luas Orkestra

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