Graça Cortes

Olá José Saramago e Pilar del Rio ( a mítica),

Acompanhei-vos durante a Escritaria em Penafiel. Devo dizer que foi para mim uma grande emoção ter podido estar tão próxima de vós. Gostei de tudo o que vi e ouvi e espero sinceramente que também tenham gostado.

Depois de ter lido a viagem do elefante Salomão, estou agora a desfrutar de Caim. Devo dizer que, mais que os temas do livros, aprecio verdadeiramente a sua forma de escrever ( os meus amigos dizem que os seus livros são uma “seca”), essa maneira difícil de escrever que nos obriga de quando em vez a voltar a trás para compreendermos verdadeiramente o que a frase ou mesmo toda a página nos tenta transmitir. Lamento que a ignorância de quem se julga sábio não consiga entender a grandeza da sua obra.

Quando acabei de ler a viagem do elefante Salomão (a quem me afeiçoei assim como ao cornaca) escrevi uma pequenina reflexão sobre algumas das  obras de Saramago que já li, e simplesmente adorei, e agora lhe dou a conhecer. Mas antes devo informá-lo que não passo de uma ignorante de uma dona de casa que gosta de cultura. Logo não espere muito desta pequena e até presunçosa reflexão. Mas também não é preciso escangalhar-se a rir.

Começa assim:

Os livros de Saramago sabem-me como uma açorda alentejana com figos, em que os sabores puros se misturam sem se sobreporem, e cada colherada é uma aventura de doce e salgado com muito amor. Não é como aqueles livros que fazem lembrar a “nouvelle cuisine”…muito bonitos e elaborados mas parcos em quantidade e nutrição, decorados com um molhinho que causa uma azia quase inevitável.

Com o Saramago fica-se satisfeito, degusta-se, desfruta-se, descobre-se e fica-se de pança cheia. Não é uma escrita corrida, é sim, dura, reflectida, estudada, correcta. É difícil, volta-se para trás, relê-se e descobre-se o que ele quer dizer.

Saramago é cultura porque ele é culto, ele pensa e, acima de tudo, ele ama esta pátria que quase o desama. Ele escreve-nos e descreve-nos com aquele amor, dureza e clareza de quem não está cego pela paixão.

Saramago, quem te toma por herege engana-se. Nas tuas palavras encontro aquilo que sinto em relação às “palavras sagradas”. Não me fazes perder a Fé em Deus ou em Cristo. Pelo contrário, fazes-me pensar melhor em cada palavra, em cada frase, em cada oração, em cada versículo. Creio que aqueles que te chamam herege não amarão mais a humanidade do que tu.

Quando tornas-te Cristo humano no teu “Evangelho segundo Jesus Cristo”, ensinaste-me a olhá-lo de outra forma que me levou a acreditar mais ainda nas sua palavras.

Aprecio-te porque no fundo e apesar de veres e reconheceres as fragilidades (ou defeitos, como queiras) da humanidade, fazes aquilo que Cristo ensinou: Pedes para que sejamos perdoados porque não sabemos o que fazemos. Nos teus livros encontro muitas referências à Bíblia… De certo que a leste e nela encontraste verdades tais como “somos todos iguais” aos olhos de Deus, e fizeste tua missão espalhares essas palavras (entre outras). É estranho que não te entendam. Apenas e certamente só os tacanhos não te entendem.

Cada linha de Saramago é para mim uma surpresa, e até mesmo, às vezes, cada palavra me transporta para um mundo tão novo, que eu própria fico surpreendida. É como se de repente pequenos compartimentos do meu cérebro começassem a ser abertos e iluminados.

Além de culto deves ser mesmo inteligente, porque, modéstia à parte, não são muitos os que me conseguem surpreender pela sua inteligência. E agora já com modéstia e tudo: tenho sempre o terrível defeito de considerar aqueles que são tidos por inteligentes uns tremendos burros com a mania que são gente ( e comparar os pobres animais a estes seres às vezes até dá pena, porque eu tal como tu às vezes (muitas) também sou mais pelos animais que pelos humanos). Mas tu, surpreendes-me não pela complexidade da ideia que queres comunicar, mas sim, com a facilidade com que explicas. És directo, certeiro, quem apanhou, apanhou…quem não apanhou, que apanhasse…

Às vezes consegues ser um pouco maçudo…mas eu gosto!

  Obrigada Pilar por não o teres deixado morrer, obrigada José por teres querido viver.   

Um abraço

Graça Cortes

P.S. Ainda vamos a tempo de fundar a Internacional da Bondade… Contem comigo!

21 de Octubre de 2009

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