Guadalupe Magalhães Portelinha e Alípio de Freitas

Caro José Saramago:

Em conversa com meu marido sobre a polémica que se está a gerar à volta de “Caim”,  senti-me impelida  a escrever -lhe. Não que  precise do nosso apoio, nem nós somos pessoas importantes em quem se possa apoiar, mas somos cidadãos deste país, dedicados a causas, nunca indiferentes a tudo o que é humano e temos seguido com atenção e curiosidade todo o “ruído” provocado pela sua última obra. Pensamos que, felizmente e apesar de tudo, foi publicada agora e não no tempo da Inquisição e também no Ocidente e não no Irão…E quando se pensa que o criacionismo é um assunto do passado e que as pessoas de cultura, religiosos ou não, clérigos ou seculares caminham pelas estradas que a ciência lhes abre para os libertar dos mitos, eis que eles voltam armados com a força irracional de uma fé cega. O que fazer então? Isso mesmo. Continuar a contar com graça e sem preconceitos  as histórias que Moisés e seus escribas inventaram para unir as tribos de Israel e transformá-las num povo. A Bíblia, o Antigo Testamento em especial, nada mais é do que a história ficcionada de um deus único e do seu povo escolhido. Já o facto de ter  escolhido um povo é desprezar  todos os outros e algumas das mais terríveis épocas da história humana estão ligadas à ideologia de uma raça superior e de um povo escolhido. A igreja católica que se tem como única verdadeira e herdeira da tradição judaica, mesmo que muitos dos seus pastores e membros sejam pessoas de alto esclarecimento intelectual, quando se faz uma interpretação considerada heterodoxa do “texto sagrado” nivelam todo o seu conhecimento com o de um simples crente evangélico, que mais não sabe do que repetir os versículos da Bíblia, tendo-os como verdade absoluta.Gostaríamos que aceitasse a nossa solidariedade como um acto de apoio à sua luta contra o obscurantismo, para além de outras lutas em defesa dos direitos humanos, nas quais também estamos. Queremos dizer-lhe, ainda, que nos sentimos felizes e orgulhosos por tê-lo como compatriota. Mais até do que como Prémio Nobel. O seu livro Caim é um acto de cidadania que a todos nos enobrece. Muito obrigada.

Guadalupe Magalhães Portelinha e Alípio de Freitas

22 de Octubre de 2009

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