Há um ano

Obrigado, Mankell.
Um abraço,
José Saramago

No dia 2 de Junho de 2010, José Saramago dispôs-se, como todos os dias, a ver o telejornal das três da tarde. A notícia de abertura reclamou toda a sua atenção: a Flotilha da Paz que pretendia romper o cerco a que estava submetida a Faixa de Gaza, transportando material escolar e sanitária foi atacada pelo exército israelita com uma violência inusitada. Saramago contemplava as cenas com a atenção que o assunto exigia, com a preocupação de quem sabe algo da vida e com o respeito que é devido às pessoas que haviam perecido por reclamar para outros a liberdade que tinham. Olhava o televisor como que hipnotizado, talvez pensando que se a doença não o tivesse impedido ele estaria ali, quando umas palavras o comoveram especialmente. Eram estas: “Entre os membros da flotilha da paz estava o escritor sueco Henning Mankell”. De imediato, saltaram as lágrimas a José Saramago e pediu que se abrisse o seu blog, porque queria entrar. Para dizer, simplesmente, “Obrigado, Mankell”. Chorou Saramago essa tarde porque sentiu a impotência por não poder fazer nada, nem pelos mortos nem pelos que sofriam o bloqueio. Chorou também de emoção por saber que um companheiro de letras estava ali, como se esse gesto os salvasse a todos.
Obrigado, Mankell: estas palavras são a última entrada no blog. José Saramago morreu dezasseis dias depois.

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