João de Oliveira

Caro Senhor José
 
Se a oportunidade dá lugar a um encontro entre o escritor que admiro e o leitor a prazo que sou, não posso deixar de o usar para salientar que esta reunião se pode fazer, ainda, de forma livre e respeitadora do que cada um é, foi ou poderá ser.
 
Eis o que cada obra sua tem, sem ofícios ou inquisições, sem ideologias, leis ou religiões, sem machados que cortem a raíz ao pensamento. Pelo contrário, há marés cheias de cardumes, ou de ideias, ou de máximas, ou de dúvidas, ou de coisas, seres, animais, estados diversos mas humanos, ou pelo menos humanizados. Há um nectar de vida que bebo quando leio as suas obras, matador de sedes inventadas, sentidas, consentidas; ou uma fruta sumarenta e apetitosa de palavras que a minha lingua, melhor, que a lingua do mundo descasca a cada olhar; mas há também um risco de broa e sardinha salgada que deixa os lábios da razão sensíveis, e às vezes, incapazes de concordar com o tempero que foi escolhido, mas a refeição não deixa de ser frugal.
 
Como leitor sinto-me por vezes perdido ao defender o José, em conversas de traçadinhos e tremoços, não por pensarem que sou esquerdista, que não sou, pois uso ambas as mãos para me defender, ou por pensarem que sou herege, que não sou, pois me vejo no centro do mundo e me sinto como sendo um Deus qualquer, cheio de defeitos e virtudes, e tenho direito a sê-lo, mas porque recebo do outro lado da mesa, a ignorância, a verborreia, a intolerância, eu diria um racismo de quem não sabe o que diz, não diz o que pensa, e não pensa sequer.
 
Bem haja José por fazer pensar as pessoas como eu ou diferentes de mim. Faço-lhe um repto temático e dou-lhe o nome para a obra que lhe encomendo, se ouso e posso ousar:
 
Se aceitardes podeis escrever um ensaio sobre A ARCA DO NÃO É; bebendo em mais um episódio bíblico, o do princípio da selecção das espécies, um ponto de partida para retratar a actualização do mesmo neste mundo de agora, num jogo entre o que é e o que não é. Quem sabe nos dará uma outra versão da palavra verdade que hoje desconhecemos.
 
Um abraço respeitoso,
Longos anos de vida,
 
João de Oliveira
 
22 de Octubre de 2009

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