José Saramago: um mestre do pensamento

fjsGostaria nesta intervenção de fazer, menos uma análise da obra de José Saramago, ou de um romance em particular, e falar sobretudo do seu pensamento. Fascina-me o caso do menino de origem humilde, nascido numa aldeia rural, que cresceu descalço e só teve o seu primeiro livro aos dezoito anos; do homem que não frequentou estudos superiores e em bibliotecas públicas alimentou a sede imensa de saber; que se transformou no exemplo improvável de que é possível alguém de tal condição social e de formação autodidacta, chegar a ser, não só um dos grandes mestres da língua portuguesa, mas ainda um “maître à penser” de dimensão intelectual universalista.

Lembrarei um sonho. Numa das inúmeras entrevistas, em 1998, José Saramago revela o seu mais belo sonho infantil:

Tive um sonho aos sete ou oito anos, que consigo recordar como o sonhos mais belo de toda a minha vida. Era um riacho, uma corrente de água, muito transparente, muito límpida; no fundo, umas pedrinhas pequenas, muito brancas; de um lado, numa margem, um campo, um campo de erva; do outro lado, outro campo de erva; e, ao fundo, bosques. Eu, nu, dentro de água, corria em direcção à fonte. Era uma viagem linda. Gostaria de voltar a sonhá-lo…

Reparem, todo o sonho nos transmite a imagem da pureza idílica: a nitidez serena da paisagem natural, incontaminada, o riacho cristalino que corre livre, deixando ver o fundo de pedrinhas de branco imaculado, a criança inocente, desfrutando na nudez primordial a limpidez da água. Creio que o filho da aldeia de Azinhaga, o neto de Josefa e de Jerónimo, toda a vida, sonhou esta harmonia paradisíaca.
Foi precisamente por não lhe encontrar exemplo no mundo real que cresceu insatisfeito, indignado, de consciência desassossegada, para desassossegar as nossas consciências, para assolar as indiferenças, para aguilhoar as apatias, para chamar à lucidez a nossa cegueira.
Começando a caminhar, começou a questionar o mundo, diz ele, como «uma espécie de enigma constantemente renovado», observando o seu desconcerto, reparando que não é a corrente limpa que dê gosto ao ser humano percorrer em harmónica convivialidade, mas paul enlodado de miséria, poluído de injustiças, sujo de crueldade. Para usar uma imagem colhida de Levantado do Chão, é como se o mundo fosse um mapa de latifúndios, paisagem privada de senhores, zelada por feitores e capatazes brutais, com a ordem defendida por esquadrões de guardas ferozes, alimentada pela servidão de ranchos dos humildes desprezados. Vendo isto, é natural que se arreigue no feitio de Saramago, já de si seco e melancólico, como o próprio reconhece, o pessimismo: «Eu sou tão pessimista que acho que a humanidade não tem remédio».
É, sem dúvida, uma verdade histórica que, séculos após séculos, nunca os humanos deixaram de se ofender com actos ruins de egoísmo, maldade, tirania, extermínio. E não há boas razões para crermos no milagre da conversão da espécie ao respeito e à bondade. Mas, em José Saramago o cepticismo em relação à natureza humana não exime o intelectual humanista da esperança e do empenhamento na sociedade melhor. Pelo contrário: «O meu olhar é pessimista, mas é este que quer mudar o mundo». O escritor reconhece um certo idealismo na pretensão, mas é do chão fértil do pessimismo que levanta a sua obra.
Sobressai a consciência indignada de que vivemos num «mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo», alegorizado, em toda a irracionalidade e horror, no Ensaio sobre a Cegueira. Já nos seus livros de crónicas e comentários políticos, evidenciava o sentimento da opressão ideológica, social e económica sobre a dignidade humana, longamente vilipendiada. Ficcionou-o em Levantado do Chão, epopeia rural da arraia-miúda alentejana, de «vidas que não deixaram sinal», mas cujas histórias a ficção consegue elevar ao plano da grande História; um romance, sem dúvida, de boa-esperança (o nome da UCP de Lavre a partir da qual Saramago o lavrou), pois foi ele o rebento quase inicial e fulgurante em que entroncou a sua criatividade literária – como se esta criatividade fosse uma dessas espécies de árvore de grande porte, que demoram cinquenta e muitos anos de vida a atingir a plenitude da pujança, para então os frutos poderem brotar, belos e suculentos. Reconheceu Saramago: «O Levantado do Chão é a rampa de lançamento e o Memorial é o míssil». Com efeito, leitores de todo o mundo favorecem Memorial do Convento, que supera, com imponente elaboração estética, qualquer planfletarismo de protesto convencional (conservador), não deixando de criar um discurso contra-ideológico, que questiona e confronta os poderes (político e religioso) esbanjadores de recursos na edificação de vaidades, à custa da opressão e do sacrifício dos homens comuns, estes que a ficção, emendando a História oficial (sempre escrita na óptica dos dominadores), vem então justamente vivificar, dando-lhes a devida identidade e dignidade. Saramago é o inverso de Ricardo Reis, grande poeta contemplativo, para quem a sabedoria consiste tão só em contentar-se com assistir ao espectáculo do mundo; mas como pode ser sábio do sabor das águas quem fica na margem, à beira-rio, e não prova meter-se na corrente? Para mais, sendo O Ano da Morte de Ricardo Reis esse 1936 em que o Estado Novo se consolidou como ditadura e formou sinistras organizações (a Legião, a Mocidade Portuguesa), em que foram incrementadas a censura, a repressão e a tortura, em que Salazar deu todo o apoio à criminalidade franquista na Guerra Civil de Espanha, em que o nazismo de Hitler ensaiava (quem se esqueceu de Guernica?), com o fascismo de Mussolini, as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, factos terríveis, em relação aos quais é insuportável a indiferença.
Neste tempo limitado, não me alongarei na dissecação da vasta obra de José Saramago, avessa a todo o modo de exercício arbitrário e abusivo do autoritarismo. Direi, também sem querer banalizar, que ela interroga o sentido da existência: na medida em que, se até o instinto animal age para defender e preservar a vida, como podemos entender e consentir que seres racionais usem o privilégio da razão para inventar maneiras sofisticadas de se aniquilarem, ou que essa razão seja orientada para a delapidação planetária das próprias fontes vitais? Não faz qualquer sentido inteligente. E, no entanto, é este o erro, a ilusão e o horror do nosso tempo. Todo o egoísmo e irracionalidade sem acordo de mudança à vista (plasmados no Ensaio Sobre a Cegueira), não podem deixar de escandalizar uma sensibilidade inquieta, uma razão lúcida e preocupada e de salientar o pessimismo quanto à bondade da natureza humana. Mas o cidadão empenhado não admite que este pessimismo sirva de desculpa para alienar a responsabilidade de intervir na esfera pública e paralisar o dever de procurar romper os cercos (em Lavre, Lisboa, Chiapas, ou qualquer lugar do planeta onde estejam em causa a dignidade e os direitos humanos), em nome de valores éticos e políticos universais, na exigência de uma humanidade melhor. Dito nas suas próprias palavras: «Gramsci deixou escrito o retrato fiel daquilo que eu sou: “Pessimista pela razão, optimista pela vontade”.
Sem romantismo, Saramago tem a noção claríssima de que a obra literária pode maravilhar pela beleza ou influenciar pelo pensamento, mas, diz ele, «Incluir a literatura entre os agentes de transformação social é uma reflexão ingénua e idealista». O escritor, não sendo político, não deixa de expressar literariamente uma ideologia pessoal e «um sentimento ético da existência», mas, tem um poder limitado para agir efectivamente sobre a realidade. Saramago reconhece: «Nós escritores, jamais mudaremos o mundo. A arte e a literatura não têm poder face aos exércitos». Mas isso não justifica uma desculpa ou um encolher de ombros alheado, porque tal atitude significa, na prática, ser cúmplice das injustiças e das misérias do mundo. Por outro lado, como tantas vezes acentuou:

O cidadão que o escritor é não pode ocultar-se por trás da obra. Ela, mesmo importante, não pode servir de esconderijo para o autor lhe dar uma espécie de boa consciência graças à qual ele poderia dizer que está ocupado e não tem tempo para intervir na vida do país.

Saramago não aceita que o compromisso para com o seu tempo, o país, o mundo, «se cinge exclusivamente à literatura e à sua obra». Com admirável coerência, concentra a consciência no papel do escritor na sociedade, nunca abdica do compromisso ético de cidadão com a colectividade, jamais se alheia da responsabilidade intelectual de se envolver: «O escritor deve fazer bem o que faz. O melhor que puder. Mas não se deve ficar por aí. Não deve esquecer que é uma figura pública e que tem a obrigação de intervir».
Sobretudo após a notabilização mundial, bem poderia Saramago ter-se passeado a exibir os louros pelos cinco continentes, adoptando uma confortável prudência nas opiniões, procurando evitar conflitos incómodos e agradar a todos em geral (que é uma fórmula fácil para aumentar as vendas e os aplausos), na atitude de certos escritores e intelectuais que perderam a vontade humanista de contribuir para a formação de uma consciência moral indignada e solidária. Ao invés, foi sobretudo a partir da visibilidade planetária que lhe trouxe a distinção do Prémio Nobel de Literatura, em 1998, que Saramago aproveita todos os possíveis canais e holofotes para dar viva voz aos grandes problemas da humanidade, e nela, dos que têm menos voz – como, de resto, já fazia, mas então com maior e mais reconhecida autoridade. Antes do Nobel afirmava: «Em mim, o cidadão prevalece sobre o escritor». Depois do Nobel pode dizer: «Há uma coisa que presumo: é que no plano… vou usar a palavra, no plano cívico, estive à altura do Prémio. Creio que, depois do Prémio, cumpri as minhas obrigações como cidadão». A «insurreição ética» de Saramago ganha extraordinária repercussão social e mediática fundamentalmente porque as pessoas (mesmo os detractores) estão atentos e reconhecem a sua palavra, percebem que é um escritor de firme honestidade intelectual, diz o que pensa sem dissimulação, não espera ganhar mais-valias com o oportunismo e a impostura, não teme exprimir as suas opiniões incómodas, polémicas, exigentes, não abdica de falar as mais cortantes verdades. Saramago é um contra-poder e uma relevante consciência crítica do nosso mundo.
Não nos deixemos equivocar pela gravidade do porte, a sisudez, o assumido pessimismo, a crua virulência da intervenção. Dispondo-nos a olhar bem a pessoa, o mais coerente com a mensagem do escritor era, sobretudo, a simpatia – não no sentido do sorriso fácil que adorna plasticamente a aparência (e quanto somos, nós portugueses, sensíveis e iludíveis com a sedução das aparências), mas no sentido etimológico, que significa compaixão pelo sofrimento dos outros, afinidade com os anseios dos desfavorecidos, genuína comunidade de sentimentos com as vítimas da indiferença, das humilhações, da injustiça e da crueldade.
Não se cansou Saramago de clamar por uma ética de respeito, em que os seres, para merecerem chamar-se humanos, tenham a obrigação de orientar as suas relações, observando a dignidade de cada um e a vida do planeta que é de todos, delapidado para o lucro só de alguns. Podemos dizer que a obra e o exemplo ético de José Saramago são um chamamento ao que o próprio designou como «revolução da bondade». Sem esta revolução do respeito e da bondade (e quem sabe se a faremos um dia…), se o ser humano não acordar da cegueira da razão, creio bem que nos tornaremos dispensáveis a esta Terra.
Regresso ao sonho pueril de Saramago. Recordemos a imagem: «Eu, nu, dentro de água, corria em direcção à fonte». Ora aqui está: o riacho vai dissolver-se certamente num rio; mas o menino corre em direcção à fonte: ou seja, não vai ao sabor das águas, vai contracorrente. Sonho premonitório do seu destino de escritor: ele é o ser que demanda a própria origem, a fonte rebrilhante no paraíso de harmonia, nascente da vida e da imortalidade. Dizia Saramago: «Escrevemos porque não queremos morrer. É esta a razão profunda do acto de escrever». Segundo a tradição, a fonte do perpétuo rejuvenescimento, que liberta dos limites temporais, a fonte da imortalidade nasce aos pés de uma árvore. A árvore foi, no caso de José Saramago, a escrita, o tronco a que subiu por uma razão de vida, os ramos a que se agarrou, com as suas folhas frondosas e os frutos rebrilhantes, que nos veio oferecer, o posto de onde alcança o que só pode alcançar quem se ergue bem alto, levantado do chão.

Jorge Vaz de Carvalho
[Comunicação apresentada nas I Jornadas Literárias de Montemor-o-Novo, em 27 de Maio de 2011]

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