Marco Túlio Cunha

Estimado Sr. José Saramago,

Com muita satisfação, terminei de ler, o seu livro ” As pequenas Memórias” e com muita curiosidade acompanhei essa aventura, que foi sua infancia, passando pela sua aldeia natal, até as várias moradas em Lisboa. Porém, a verdadeira razão porque lhe envio esta carta, é simplesmente uma. Embora tenha nascido em Lisboa em 1973, (e obviamente existir um abismo de muitas geraçoes entre nós), houve algo que considero importante na mensagem deste livro, o qual, me deixou bastante confuso, indignado e até porque não dizer, revoltado. Com o relato dos momentos que passou com o seu avô, a sua humilde casa, a sua descrição fisica e psicologica, a dura vida que o castigou, o conhecer poco das palavras e ser um autentico, e passo a citar -“..É um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filosofo, um grande escritor analfabeto.”, devolveu-me as recordaçoes do meu já falecido avô. Nada de especial tem esta comparação, tantos homens como eles partilharam essa vida de privaçoes, no entanto custa aceitar que homens com experiencias de vida tão proximas, tão sofridas, os separem pelo menos, quarenta anos. O seu livro fez-me viajar no tempo,devolveu-me as recordaçoes de uma aldeia transmontana no principio dos anos oitenta, são momentos parecidos aos seus na sua aldeia de Azinhaga. Os meus avós, as nove horas de distancia para percorrer 450 km, o isolamento, os poucos confortos etc, eu era apenas um miudo da capital que visitava os avós no Verão..no entanto, a sua mensagem apenas me faz pensar, sem que tenha uma resposta ainda clara ou justificaçoes para que ainda exista gente que defenda com unhas e dentes o Estado Novo, a sociedade tão injusta e descriminante anterior a Abril de 1974. Felizmente, hoje o meu filho, já pode ver no seu avó, não um Einstein, mas um homem livre… Sinceramente espero que o meu filho conheça o valor que costou essa liberdade, farei os possiveis para o explicar e espero que não se importe de ter os seus livros para me ajudar nessa tarefa. Aos homens como os nossos avós, verdadeiros e anónimos heroís de silencios. Meus cumprimentos,

Marco Túlio Cunha

Badajoz,08 de setembro de 2009

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