Maria Francisca

Caro Saramago,

Com que prazer cheguei a este blog, palavra que deveríamos grafar “blogue”, não? Aportuguesando-a, acalentando-a com um “e” final, para desguturalizá-la, ainda que ligeiramente. A quem estiver me lendo, peço que transmita meu obrigada ao responsável por sua criação, Pilar talvez?, posto que toda idéia tem seu Deus, palavra que tem algo de divino já em Zeus, desde os gregos! Não a consigo principiar por uma minúscula… Ontem li uma nota curiosa, e agora, neste blogue, ela parece fazer ainda mais sentido, como que tendo ganhado um rumo: voltarão a usar bois, em Cuba, nas plantações. Pensei, “que coisa mais revolucionária!”, porque, sim!, é disso que precisamos, precisamos reconsiderar os rumos desta ‘civilização’ tão atroz que tem horror à sua condição humana, a seu igual, àquilo que se lhe assemelha. E é esta reflexão que gostaria de compartilhar com vocês. Em virtude de minha profissão de tradutora — parecida com a de revisor naquilo que tem de solitário e no valor reminescente que confere à cada palavra 😉 –, soube que há planos para transformar a África no que chamam de, com a imensa soberba que caracteriza os criadores de planos — crêem-se Deus? –, “celeiro da humanidade”. Aquele majestuoso continente, que já foi tido como berço da humanidade, seria, segundo tais criadores de planos — ou de casos? –, transformado em imensas plantações de soja, não é “lindo”? Todas aquelas savanas, todas aquelas planícies “vazias”, transformadas em plantações de monoculturas a perder de vista. Já se podem ouvir os aviões fumigando pesticidas e ver os tratores freneticamente ceifando, re-colhendo, e tudo movido por controle remoto desde Nova Iorque, se o Deus dos criadores de planos assim o permitir. Aliás, por que essa gente, ou essagente, visto tratar-se de uma verdadeira entidade tal é sua força, tem sempre que colocar Deus em tudo o que faz?, em toda a destruição que promove? Enfim, e o que fazer com os seres que habitam a África? Ora, os animais, aqueles belos leões lânguidos ao sol, os elefantes desesperados por espaço, os rinocerontes à espera de suas fêmeas, os macacos e seus galhos, as hienas e as girafas, as zebras? Bem, estes são um problema razoavelmente fácil de resolver: escolherão por certo alguns, os levarão para um zoológico, lógico!, bem planejado, por certo, ora pois! Já os humanos, se são criaturas de Deus, este lhes organizará a “nova” vida, onde Deus quiser… afinal, nestes tempos, não se pode mais querer que se possa viver em outros tempos, nos tempos dos vilarejos, sem TV nem shopping centers, e, suas contrapartes, as favelas. E teremos assim uma nov’África, pujante — e, portanto, atroz, pois uma coisa não vai sem a outra, como já se vê nas áreas urbanas do continente –, finalmente ocupada por máquinas, máquinas de fazer dinheiro, máquinas de moer gente! O horror que tem o homem “moderno” ao vazio, ao silêncio… o que explica isso?! E nós, de nosso lado, desse lado que escolhemos viver a vida, essa nossa trincheira, o que podemos fazer com os “criadores de planos”? Combatê-los com nossas armas, os argumentos… quem sabe conseguir que se voltem para “outros” planos, os da existência, por exemplo… ao menos não colocarim em risco o pouco que ainda resta do mundo depois que teve inícia essa “aventura islâmico-judaico-cristã”!

Maria Francisca

01 de setembro de 2009

Pin It on Pinterest

Share This