Millôr Fernandes

Millôr Fernandes fez de tudo: foi jornalista, escritor, dramaturgo, tradutor, cartoonista. Mas era, antes de mais, um humorista, que marcou a Cultura brasileira do último século. Morreu de falência multiorgânica, nesta terça-feira, no Rio de Janeiro, após quatro meses de internamento. A família não divulgou a causa da doença. Millôr tinha 88 anos.

Autor fértil, publicou perto de três dezenas de livros de prosa, mais três de poesia e um de desenhos. Escreveu 14 peças de teatro, cinco das quais nunca chegaram ao prelo (e duas não chegaram ao palco). E escreveu ainda 11 espectáculos musicais. Todavia, foi na imprensa que se destacou como uma das vozes de resistência da sua geração, subjugada pela ditadura militar no Brasil.

A relação muito próxima de Millôr Fernandes com os jornais começou quando o brasileiro, nascido em 1923, tinha apenas 10 anos. Foi com essa idade que vendeu o seu primeiro desenho, para o O Jornal do Rio de Janeiro. O jornalismo chegou em 1938, com a entrada no O Cruzeiro, onde manteve durante 18 anos a popular coluna “O Pif-Paf”.

Mas a coluna só surgiu no segundo período de colaboração com esse semanário, que começou em 1941, depois de ter assumido durante alguns anos a direcção de A Cigarra. A esta última revista, Millôr chegou como vencedor de um concurso de contos promovido pela própria publicação. Quanto a O Cruzeiro, deixou-o em 1962, na sequência de crítica da Igreja Católica.

Este é um ponto importante na biografia do “descrente” Millôr Fernandes, que em 1964 lançou O Pif-Paf como publicação quinzenal e com ela as bases para o início da “imprensa alternativa no Brasil” em plena ditadura militar. Poucos anos mais tarde, em 1969, participou na fundação de um dos mais relevantes títulos da resistência ao regime: O Pasquim. O jornal satírico durou, na versão original, até 1991 – embora já sem Millôr.

O escritor saiu em 1975. Ainda assim, foi o principal responsável pela continuação de O Pasquim nos cinco anos imediatamente anteriores, uma vez que foi quem assumiu a edição do periódico – que chegou a ter uma tiragem superior a 200 mil exemplares – quando toda a restante redacção foi presa, em 1970, devido à reprodução do quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo.

Millôr Fernandes colaborou ainda com a revista Veja e, em Portugal, com o extinto Diário Popular (nos anos 1960). A partir de 2000, fez da Web o seu espaço de publicação (e de compilação de trabalhos antigos), com o lançamento de Millôr Online. A Internet foi, de resto, motivo do diferendo que o levou a deixar a Veja em 2009, acusando a revista de publicar os seus trabalhos na rede sem autorização.

Para o site, o humorista escreveu a sua própria cronologia, de 1924 a 2000, onde recorda exposições, viagens, reportagens, polémicas. Millôr regressa a uma foto com Walt Disney, de 1948, e faz saber que foi em 1986 que comprou o seu primeiro computador, um XT a vapor.

Millôr Fernandes – chamou-se assim e não Milton Fernandes devido a um episódio de caligrafia confusa, que o próprio só descobriu aos 17 anos – será velado a partir de quinta-feira, no bairro do Caju, Rio de Janeiro. O corpo será depois cremado.

“Brasil perdeu muita da sua graça”

“Numa semana, o Brasil perdeu Chico Anysio e Millôr, dois génios do humor, e com isso perdeu muita da sua graça. Um era o incomparável criador de 200 tipos; o outro, um articulador de palavras”, disse ao PÚBLICO o jornalista e escritor brasileiro Zuenir Ventura, que está publicado em Portugal pela Planeta, com o livro Inveja – Mal Secreto.

“Poucos na língua portuguesa exploraram como ele o potencial sinctático e semântico das palavras – os trocadilhos, o jogo, a polissemia, a brincadeira vocabular. Com uma inteligência desobediente, imprevisível e desconcertante, Millôr aprimorou-se em desconstruir verdades aceitas e hipocrisia consagradas. Não conheci intelectual mais independente e livre. ‘Livre como um táxi’, ironizava Millôr”.

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