Momentos de céu

Vi apaixonadamente o filme de Miguel Gonçalves Mendes, “José e Pilar”. Para mim já ganhou o óscar. Não precisa de lá ir para ganhar o óscar. Já ganhou: pela beleza, pela profundidade, por dizer e mostrar aquilo que só os melhores atributos do amor, como a entrega e a paciência, podem dar. Escrevi há meses uma nota na coluna do Provedor da “Ler” sobre o assunto – e talvez tenha sido isso que tenha justificado o convite para fazer esta apresentação. Nessa nota elogiei não só a homenagem maior ao sentimento amoroso que é aí feita mas também alguns momentos de transcendência como aquele em que Saramago é filmado a ter a ideia para escrever “Caim”. Ficou por dizer que este é também um filme sobre a possibilidade de um homem que esteve à beira da morte se restabelecer, se reerguer. Depois de surgir de cadeiras de rodas, quase sem falar, aparece numa conferência com a voz clara a fazer uma das declarações amorosas mais bonitas que já alguma vez ouvi e vi. Que inclui, claro, gratidão, esse sentimento cada vez mais remoto e que convém ser recuperado como quem recupera o melhor disto tudo.

Saramago voltou à vida no belo filme de Miguel Gonçalves Mendes. Um homem volta à vida depois de ter estado a beirar a morte. Permitam-me trazer um pouco do meu sangue e citar a frase de uma personagem e de um livrinho que para aí andam: “O problema não é saber se há vida depois da morte. É saber se há vida antes”. Encontro nestas duas personalidades muito diferentes que revelam aqui a sua visão do mundo e da existência uma consagração rara dessa ideia. Ela mais enérgica, ele mais reservado e lacónico. Unem-se por um património comum, o da valorização da vida, do milagre da vida, como dizia Saramago, um homem que se dizia ateu.

Este livro, tal como o filme, é um objecto de instantes. Relembro vários, aqueles em que se celebra a intensidade dos pequenos gestos: o instante em que Pilar diz que é preciso entrarmos nas cozinhas para não nos distanciarmos da realidade, para podermos levar connosco o cheiro do tomilho, no fundo o cheiro do amor; o instante em que Pilar fala do trabalho invisível do tradutor e lembra o elogio (invejoso, de uma boa inveja) do escritor Carlos Fuentes pelo facto de Saramago viver com alguém que traduzia em simultâneo aquilo que ia escrevendo, no andar de baixo da casa; o instante em que Saramago aparece em cena a servir cafés, vindo da cozinha (sim, não é só Saramago a ter a sorte de viver com quem o traduz, também Pilar tem a sorte de viver com quem lhe serve o cafezinho); o instante em que Saramago vai ver Pilar a Sevilha e encontra-a na televisão de um café, a apresentar um programa; o momento que fala da existência não de uma relação a dois mas de três: os dois que participam e a união que constituem; o instante em que Saramago revela que o momento mais importante da sua biografia foi ter conhecido a mulher e aquele em que diz que o amor não se sabe o que é; a forma como Pilar fala da vida e das suas possibilidades: “Viver, cuidar da terra, aprender, distinguir Beethoven de Bach, ler, estudar, ajudar os que necessitam, beber vinho”.

 

“José e Pilar”, o livro, é sobre esse terceiro que é a relação que criaram José e Pilar mas também é um livro sobre José e Pilar em separado, sobre os seres humanos únicos que são e serão sempre. Gosto da organização dos capítulos intercalando as vozes de cada um deles e as línguas em que falavam originalmente. E gosto muito do empenhamento de Miguel Gonçalves Mendes, que faz perguntas sem ponta de cinismo. Tal como o filme, este é um livro não cínico, de quem anda à procura, como todos nós, mesmo que não o assumamos. Miguel partilha a sua intimidade nas perguntas e isso é bonito, além de nos permitir aprender mais. Criou duas obras com amor e coragem. Neste livro em particular, a coragem de fazer perguntas, algumas delas menos cómodas, que só ajudam a iluminá-lo ainda mais. Uma delas é sobre a morte. Mesmo quando falam da morte, José e Pilar celebram a vida, a vida antes da morte. “É preciso levar a morte a ver a vida”. Ou na versão de Saramago, autor de um verso que diz tudo: “Não o medo da morte mas esse mais humano, de não viver bastante”. E diz, quando confrontado com a ideia de transcendente, que de vez em quando temos momentos de céu. “O amor pode ser um momento de céu, uma paisagem, uma página de um livro, um poema, uma grande obra de pintura”. Acrescentaria, sem atrevimento nenhum, o amor de José e Pilar também foi e é um pedaço de céu, agora partilhado com quem o quiser visitar. Saramago disse que tinha crescido como pessoa depois da relação com Pilar. Eu, leitor, à procura, tal como o Miguel, cresci a ler este livro. Obrigado por isso!

Nuno Costa Santos
(Versão escrita da apresentação do livro “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, Quetzal, feita em Dezembro na FNAC Chiado).
Fonte: Sinusite Crónica

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