Morreu Ruy Duarte de Carvalho

fjsNascido em Portugal, naturalizou-se angolano em 1983 por motivos que, como explica no catálogo do ciclo que o Centro Cultural de Belém lhe dedicou em 2008, se prendem com o sentimento, de que teve consciência aos 12 anos, depois de a sua família ter emigrado para Moçâmedes (Angola), de que tinha ali a sua “matriz geográfica”.

No mesmo texto, reproduzido na página da sua editora de sempre, Livros Cotovia, explica: “Lembro-me de ter nascido, ou então de ter mudado inteiramente tanto de alma como de pele, pelo menos uma meia dúzia de vezes ao longo da vida e nenhuma delas foi lá onde terei, pela primeira vez, dado conta da luz do mundo. De que havia uma matriz geográfica que essa é que me dizia de facto muito intimamente respeito pela via quem sabe de uma qualquer memória genética, dei conta aos doze anos – lembro-me sempre de cada vez que ainda por lá passo e se calhar é para isso que ando sempre a ver se passo por lá – a comer pão e com um ataque de soluços no meio do deserto de Moçâmedes, por alturas do Pico do Azevedo. E de que havia uma razão de Angola que colidia com a razão de Portugal, disso dei definitivamente conta já a trabalhar nas matas do Uíge quando, em março de 1961, eclodiu a sublevação nacionalista no norte de Angola.”

No mesmo texto, o escritor e ensaísta explica a sua experiência da independência de Angola: “Acabei por voltar a Angola em 1974 e por passar a noite de 10 para 11 de Novembro de 1975 no município do Prenda, em Luanda, a filmar às zero horas, que foi uma hora zero, a bandeira portuguesa a ser arreada e a de Angola a subir no mastro”.

Em 1989 recebeu o Prémio Nacional de Literatura e o seu “Desmedida Luanda, São Paulo, São Francisco e Volta, Crónicas do Brasil” (Livros Cotovia), recebeu o Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do encontro Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, em 2008.

A sua formação passou pela Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, pelo curso de realização de cinema e televisão em Londres (realizou filmes para a TV angolana e para o Instituto do Cinema de Angola) e pelo doutoramento pela École de Hautes Études en Sciences Sociales de Paris com uma tese dedicada aos pescadores da costa de Luanda, com o título “Ana a Manda” (1989).

Foi professor das universidades de Luanda, Coimbra e São Paulo, além de ter sido professor convidado da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e realizou dos filmes “Nelisita: narrativas nyaneka” (1982) e “Moia: o recado das ilhas” (1989).

É autor de “Vou lá visitar pastores” (1999), da poesia de “Chão de Oferta” (1972) ou “A Decisão da Idade” (1976) – a sua poesia está reunida em “Lavra” (2005). Assinou ainda os diferentes estilos de “A Câmara, a Escrita e a Coisa Dita… Fitas, Textos e Palestras” (2008), “Actas da Maianga” (2003), “Os Papéis do Inglês”, “As Paisagens Propícias” (2005) e descrevia a sua obra como “meia-ficção-erudito-poéticoviajeira”.

Em 2008, Rui Guilherme Lopes adaptou a obra “Vou lá visitar pastores” (1988), sobre os Kuvale, uma sociedade pastoril do sudoeste de Angola, encenada e interpretada por Manuel Wiborg e que esteve em cena noTeatro A Barraca, na Culturgest, no FITEI (Porto), no Festival de Almada e no Festival de Agosto em Maputo, Moçambique.

De acordo com a sua editora de sempre em Portugal, a Cotovia, a sua obra “Vou lá visitar pastores” está editada no Brasil pela Gryphus, “As actas da Maianga” foi editado em Angola pela Chá de Caxinde , que também editou “Os Papéis do Inglês”, obra que chegou ao Brasil pela Companhia das Letras e a Itália pela La Nuova Frontiera.

Fonte: publico.pt

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Autobiografia de Ruy Duarte de Carvalho


Mas acho que também aprendi, entretanto, a rir-me de mim mesmo, das minhas incompetências congénitas e do mau-feitio que neste mundo sou evidentemente o único a ter. E tem uns intervalos em que tudo parece ficar virginalmente vivável, bom e bonito, conforme pensa a onça quando, segundo Guimarães Rosa, não teme nada e vai, guiada só pela alma que tem. [Continuar a ler]

Fonte: visao.pt

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Da África do Sul à contracosta, com Ruy Duarte de Carvalho

Ninguém, à excepção do Ruy Duarte de Carvalho, sabia grande coisa sobre a África do Sul para além das suas tensões recentes. É ele que vai à frente nesta viagem de 13 dias e seis mil quilómetros, portanto, e logo a seguir os seus jovens amigos: o Luhuna, que ia recolhendo numa câmara materiais de observação directa; Miguel Carmo, certeiro nas impressões e navegações espaciais; e as Martas -a Mestre que ia avivando a conversa, e a outra Marta, esta que vos escreve, gerindo a logística de uma viagem redonda, de Joanesburgo a Joanesburgo, do interior à costa pela outra costa, deixando de fora a província do Cabo Oriental, berço de lutadores anti-apartheid, ainda assim presente nas histórias de bordo. [Continuar a ler]

Marta Lança

Fonte: publico.pt

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