No Adeus a Mário Soares, dois textos de José Saramago

No Adeus a Mário Soares, dois textos de José Saramago

Mário Soares faleceu este sábado, dia 7 de janeiro, aos 92 anos. O nosso abraço aos amigos e familiares. Abaixo dois textos de José Saramago sobre o ex-Presidente da República.

Dos Cadernos de Lanzarote II

1 de março

O presidente Mário Soares esteve hoje em Lanzarote. Quando há um ano Pilar e eu fomos a Belém para lhe comunicar que nos mudávamos para as Canárias, dissemos-lhe: «Se alguma vez tiver de viajar para aqueles lados…» A resposta, simpática: «Lá irei.» Naquela altura pensei que se tratasse de uma promessa política, como tantas outras fadada para o cesto roto dos esquecimentos logo à nascença, mas enganei-me. Mário Soares aproveitou um convite para vir a um encontro de juristas em Tenerife e deu um salto à nossa ilha. (…) Falou-se da Lisboa Capital Cultural (repeti e aclarei as minhas críticas), de Europa inevitavelmente (tive a melancólica satisfação de ouvir dizer a Mário Soares que partilha hoje de algumas das minhas reservas, antigas e recentes, sobre a União Europeia: «Que será de Portugal quando acabarem os subsídios?», foi sua a pergunta, não minha). Aproveitei a ocasião e permiti-me substituir a pergunta por outras, mais inquietantes: «Para que serve então um país que depende de tudo e de todos? Como pode um povo viver sem uma ideia de futuro que lhe seja própria? Quem manda realmente em Portugal?» Não tive respostas, mas também não contava com elas. A sombra veio e passou, a conversa transferiu-se para temas menos encruzilhados. Passadas estas horas, ainda me custa a acreditar que Mário Soares tenha cá estado em casa. Que voltas teve o mundo de dar, que voltas tivemos de dar nós, ele e eu, para que isto fosse possível.

Dos Cadernos de Lanzarote V

19 de outubro

Descíamos uma escada rolante, Mário Soares e eu, conversando, trocando impressões sobre os méritos da representação portuguesa na Feira, e de repente Soares pergunta-me num tom que me pareceu de autêntica preocupação: «Disseram-me que você estava místico. É verdade?» Na vida comum, na vida de todos os dias, o interpelado teria estacado de chofre e exclamaria, já atrasado um passo: «O quê?» Mas ali não podia ser, a escada descia, descia sempre, e, não podendo eu transferir-me para o degrau de cima, de onde manifestaria de maneira adequada a minha surpresa, tive de contentar-me com a exclamação: «O quê?» E Soares: «Que você está místico, disseram-me.» «Quem foi que lhe contou semelhante história?», perguntei. E Soares, que não queria comprometer o seu informador: «Disseram-me, disseram-me…» A escada já nos tinha depositado em terra firme, de modo que respondi com firmeza: «Não senhor, não estou místico, Deus me livre de um tal acidente…» Mário Soares olhou-me com uma expressão de alívio no olhar e no gesto, como se eu lhe tivesse tirado um peso de cima, e murmurou: «Ah, bem…» Não voltámos a falar do assunto, mas eu tenho a impressão de que as palavras dele, lá no seu íntimo, tinham uma formulação diferente. Ou eu estou muito enganado, ou o que Mário Soares de facto me perguntava era: «Você também está místico?…»

 

Crédito da foto: Eduardo Tomé

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