No ano da morte de José Saramago

No ano da morte de José Saramago
A Pilar del Río

O coração aquece o suco prenhe dos cavalos
e de outros animais. Apenas para iludir
ou amedrontar as pequenas memórias do amor.

É aí nesse espaço e não em todos
os caminhos do pó e da lama
infernais
que Blimunda e Baltazar acariciam o pojo
como dois desnudos seres disputando o sol
pela boca dos mais secretos desejos
em busca de todos os líquidos silêncios
do templo e dos múltiplos espaços inaudíveis.

Esses que traçam a sua própria peleja
de vozes. Um deus cheio de pústulas doiradas
pois o fogo imita nos corpos a eternidade da lágrima
que se oculta na sombra inclinada dos círios.

O narrador chega do branco horizonte dos lugares
da azinheira porque ainda não queria morrer
antes das colheitas das águas frescas
que já não desaguam. Mas Blimunda disse: Vem!

E a sílaba acreditou que a morte é lilás
como o amor. E que se há-de perdurar pelo clarão
de coisas assim. Eternamente lilases. A sílaba possível!

Então o narrador despediu-se das palavras rubras
abraçando-as uma por uma até a noite ser queimadura.

João Rasteiro
2010

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