O Antigo Testamento segundo José Saramago

Dezoito anos após o escândalo provocado pela sua versão do Evangelho, o Nobel da Literatura português regressa aos territórios bíblicos com Caim, uma narrativa que redime o primeiro assassino e expõe, caso a caso, a maldade de «deus».

Ateu assumido, José Saramago provocou a ira de alguns sectores católicos ao publicar, em 1991, O Evangelho segundo Jesus Cristo – pessoalíssima reinvenção de uma história que pertence ao imaginário colectivo tanto dos crentes como dos não crentes. O que se passou a seguir é conhecido: Sousa Lara (Subsecretário de Estado da Cultura do governo de Cavaco Silva) vetou a candidatura do romance a um prémio literário europeu e o futuro Nobel da Literatura saiu do país, exilando-se na ilha de Lanzarote. Com a publicação de Caim, Saramago fecha o ciclo, completando de trás para a frente a sua versão ficcionada da Bíblia. Depois do Novo Testamento, o Antigo. Ou seja, um regresso, como admite o seu narrador, a «delicados assuntos», abordados da primeira vez «com recriminável ligeireza na opinião de alguns peritos, e em termos que muito provavelmente só virão a prejudicar-nos nas alegações do juízo final quando, quer por excesso quer por defeito, todas as almas forem condenadas».

A ver pelas reacções da Igreja a Caim, no próprio dia em que o romance chegou às livrarias, a opinião dos «peritos» em nada se alterou, o que a Saramago tanto se lhe dá como se lhe deu, consciente de que o seu livro não pode ser lido como um tratado de teologia (ou de contra-teologia) mas apenas como aquilo que é: uma ficção. Provocatória? Sim. Parcial? Talvez. Ao arrepio do religiosamente correcto? Sem dúvida. Mas ficção. Isto é, literatura. E, sublinhe-se, excelente literatura, dando continuidade à boa forma revelada no romance anterior (A Viagem do Elefante). Tudo o resto não passa de poeira mediática, reflexo de uma indignação católica pavloviana que já não faz, hoje, qualquer sentido.

Se o Evangelho… era essencialmente uma abordagem – mais uma – à questão da humanidade de Cristo, Caim assume-se como um libelo contra Deus (grafado sempre em caixa baixa). Saramago não compreende nem tolera o Deus do Antigo Testamento, essa entidade todo-poderosa que abandona as suas criaturas, lhes exige o impossível, vai «à sua vida» e regressa quando lhe apetece, é cruel, castigadora, vingativa, rancorosa e injusta. O Deus da Bíblia judaica está longe de ser uma figura simpática, mesmo à luz das interpretações feitas pelos exegetas ao longo dos séculos, tentando justificar actos aparentemente injustificáveis. Para quem acredita, o texto bíblico não se pode levar à letra. É uma linguagem simbólica, a exigir decifração. Saramago, pelo contrário, olha para o Antigo Testamento de forma literal. Na sua grelha de leitura, simplista mas legítima, o texto bíblico é o que as suas palavras dizem, não o que elas sugerem. E o que as palavras dizem, nalguns casos, é objectivamente intolerável para um ser racional que escreva no século XXI. Tão intolerável que Saramago não se coíbe de apontar, por interposta personagem, a «maligna natureza» de Deus, além de lhe chamar louco e até «filho da puta». Acusações que formuladas no século XVI, e não no laico século XXI, lhe valeriam decerto a fogueira.

Para porta-voz da sua cruzada contra Deus, Saramago escolheu Caim, um dos mais desprezados personagens da Bíblia, o primeiro dos assassinos, o fratricida que encarna uma das manifestações iniciais do Mal. A páginas 37, já Caim assassinou o irmão Abel «a golpes de uma queixada de jumento». Por inveja, costuma dizer-se. Porque Deus foi injusto e indiferente à devoção de Caim, alimentando desta forma o ódio do preterido, sugere Saramago. Nesta versão alternativa, Caim só mata Abel porque não pode matar Deus. E Deus, assumindo a responsabilidade que lhe cabe na morte de Abel, limita-se a condenar Caim à errância, «perdido pelo mundo», mas sempre sob sua protecção, assinalada pelo sinal negro que lhe marca na testa.

Após um interlúdio em que Caim atravessa de burrico as áridas terras de nod, consumando um voluptuoso «contubérnio» sexual com uma Lilith que parece saída de As Mil e Uma Noites (pretexto para Saramago se estrear, aos 87 anos, e com surpreendente verve, nos domínios da literatura erótica), o protagonista entra num bizarro vórtice, uma sucessão de lugares e tempos que não obedecem à ordem cronológica normal (são «outros presentes», porque «a terra é a mesma, sim, mas os presentes dela vão variando, uns são presentes passados, outros presentes por vir»). Num desses «presentes», Caim assiste ao quase sacrifício de Isaac pelo seu pai, Abraão, indignando-se com a estupidez daquela obediência cega aos imperativos divinos. É ele, aliás, quem impede a degola, porque o anjo salvador chega atrasado.

Finda a triste cena, Abraão admite «que o senhor enlouquece as pessoas» e os restantes episódios testemunhados por Caim – numa «espécie de contínuo guinhol, áspero, rangente, obsessivo» – corroboram essa assunção da maldade de Deus. Há a torre de Babel, por ele destruída num gesto de puro egoísmo. Há Sodoma e Gomorra, arrasadas sem ter em conta os inocentes que morriam entre os pecadores. Há as trombetas de Jericó; o bezerro de ouro desfeito por Moisés no monte Sinai (e a vingança que se seguiu); o suplício de Job, vítima de uma aposta entre Deus e o Diabo.

A viagem do livro, iniciada ainda no Génesis (com as tribulações de Adão e Eva no jardim do Éden), termina com o Dilúvio e a Arca de Noé a chegar ao monte Ararat. Laacute; dentro, porém, não estão os progenitores da humanidade futura, à espera de uma segunda oportunidade após a quase aniquilação da espécie. E isto porque Caim, não o podendo matar, encontra uma estratégia mais subtil para se vingar de Deus, ficando a sós com ele no mundo, num diálogo de surdos, prova provada de que «a história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele».

José Mário Silva

Artigo publicado na Revista Ler, n.º 85, Novembro de 2009

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