“O Caderno” de Saramago nas páginas do The Times

Com o título “A infinita Internet de José Saramago”, “O Caderno” foi recenseado no suplemento literário do jornal “The Times”.

Aqui deixamos o texto publicado a 14 de Abril de 2010:

A infinita Internet de José Saramago

O infindável blogue do Prémio Nobel está cheio de entusiasmo, indignação e energia

fjsEm Setembro de 2008, com 85 anos, José Saramago sentia-se agitado. “Tens aqui um trabalho”, disse a sua mulher. “Escreve um blogue”. E assim o Prémio Nobel de 1998 começou a gravar as suas reflexões numa base quase diária, alegremente liberto das restrições da ficção e deslumbrado pela “infinita página” da Internet: “aquele local onde me posso expressar de acordo com os meus desejos”. E tão perto este blogue se aproximou do coração de Saramago que uma crítica levou-o a quebrar um voto, “que até agora tinha respeitado – nunca responder a, ou sequer comentar, qualquer crítica à minha obra”. O crítico tinha apontado os “excessos de indignação” de Saramago. O blogueiro sentiu-se injustiçado: “Como pode alguém falar de excessos de indignação num país onde esta vem faltando?”

Saramago pode por vezes parecer-se com Lear na sua ofensa, mas abre este “Caderno” com uma “carta de amor” a Lisboa: “A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres […] a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.” Esta visão romantizada é talvez pouco surpreendente dada a antipatia do autor pelo capitalismo e a sua convicção do “definitivo anquilosamento da ordem económica global”. Embora tal não seja mencionado, O Caderno abre no dia em que a Lehman Brothers solicitou a protecção contra a falência, e todo o blogue é permeado com um sentimento de raiva (e vingança) contra o falhanço dos mercados, a ganância dos banqueiros e a degeneração moral dos governos. Outros fantasmas incluem os agentes literários; os políticos israelitas; os jardins zoológicos; o G20, a Arábia Saudita; e a juventude de hoje. Saramago é membro do Partido Comunista Português desde 1969, e guarda alguma mágoa pelos defeitos dos seus aliados políticos: “A esquerda não tem uma puta ideia de como o mundo está a viver”, escreve antes de concluir que “Marx nunca teve tanta razão como tem hoje”. Infelizmente, falha em explicar exactamente em que medida, embora pare para pedir aos “economistas” e “moralistas” para quantificar quantos indivíduos é preciso condenar à desmoralização, à pobreza, ao trabalho desumano” para “produzir um rico”.

Saramago não é um estranho a um bem ordenado manifesto político. Em anos recentes foi por duas vezes candidato ao Parlamento Europeu. Aqui, no entanto, o seu julgamento é muitas vezes atraído pela retórica dos gemidos lunáticos. Uma coisa é escrever sobre Nicolas Sarkozy que “Nunca esperei muito deste senhor”; outra completamente diferente é acusar George W. Bush de ter “expulsado a verdade do mundo”. Saramago não pode acreditar que Silvio Berlusconi venha do mesmo país que Verdi. É fácil escarnecer de Saramago na sua ira, mas duas coisas devem ser ditas em sua defesa. Primeira, há algo estimulante na sua “recusa em aceitar” o mundo como se apresenta na desigualdade. Segunda, isto é um blogue, e não um manifesto, e como tal é pessoal, fragmentado e reactivo. Isto coloca, no entanto, uma questão mais abrangente sobre o fenómeno “o livro do blogue”, que arrisca a forçar uma coerência num corpo de escrita que não era suposto ser sintetizado desta forma.

Muito mais gratificantes são as suas meditações sobre literatura, linguagem, teologia. “Deus”, escreve, num eco dos Cadernos de Lanzarote (ainda inéditos em inglês), “é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”. O acto de blogar inspirou certamente o lado aforístico de Saramago, e é particularmente memorável quando reflecte sobre os seus heróis literários. Aqui está uma sobre Fernando Pessoa: “Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.” Escreve um elegante tributo a Carlos Fuentes, que “tornou compatível a maior exigência crítica, o maior rigor ético, que são os seus, com uma gravata bem escolhida.” e introduz-nos ao brilhantismo de Javier Ortiz, que escreve o seu próprio obituário.

O entusiasmo de Saramago é irresistível e os seus elogios agudos. Louva Kafka “por ter demonstrado que o homem é uma barata”, Montaigne “porque não precisou de Freud para saber quem era” e Gogol “porque contemplou a humanidade e descobriu-a triste”. Os aspectos mais privados do blogue de Saramago são também muito tocantes, quer quando demonstra estar docemente apaixonado pela esposa quer quando reflecte sobre o dia em que quase morria por falência orgânica (“Soube mais tarde que o meu corpo seria colocado na biblioteca, rodeado por livros”). Foi restaurado, escreve, “pela medicina universal chamada trabalho”. Saramago não mostra qualquer sinal de querer desistir. Despede-se do seu blogue, um ano após a primeira entrada, com notícias de que está a escrever um novo romance. “Adeus”, escreve aos seus leitores. “Até outro dia? Sinceramente, não creio.” Um rápido olhar pelo blogue, caderno.josesaramago.org, revela outro voto quebrado. Desde esse texto final, houve pelo menos mais dez.

Toby Lichtig
The Times Literary Suplement

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