O Caderno – José Mário Silva – Expresso

Uma vez restabelecido do «colapso orgânico total» que quase lhe custou a vida, em Dezembro de 2007, o octogenário José Saramago regressou ao trabalho – esse «remédio universal» – com uma energia de fazer inveja a muitos rapazes. Entre os afazares da sua Fundação, a agenda muitíssimo preenchida e a escrita de dois romances (A Viagem do Elefante, já publicado; e outro entretanto entregue ao editor), Saramago estreou-se como blogger, escrevendo um texto por dia, cinco dias por semana, naquela a que chama «a página infinita da internet» (endereço: caderno.josesaramago.org/). Em O Caderno, primo dos cinco Cadernos de Lanzarote publicados na década de 90 (mas muito menos autocentrado do que esses diários pré-Nobel), reúnem-se todos os textos surgidos durante os seis primeiros meses de actividade do blogue, de Setembro de 2008 a Março de 2009.

Na verdade, Saramago está nos antípodas dos verdadeiros bloggers. Não faz links, não dialoga directamente com os leitores, não interage com a restante blogosfera. Limita-se a escrever as prosas breves que outros depois colocam online – o que já não é pouco. Na sua própria definição, no blogue cabem «comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice». Das qualidades que se pedem a quem escreve neste novo meio, o escritor pode orgulhar-se de possuir duas das mais importantes: a constância e o esmero estilístico. Mesmo não sendo este um Saramago vintage, reconhecemos sempre,fjs em cada parágrafo, em cada frase, em cada linha de raciocínio, o seu estilo tão característico. E reconhecemos também alguns dos seus ódios de estimação (George W. Bush; Berlusconi; a Igreja Católica), bem como várias das suas causas (a memória das vítimas do franquismo ou a luta dos palestinianos contra Israel). Não haverá exagero se dissermos que o tema central deste livro, e de quase toda a escrita opinativa de Saramago, é o desconcerto do mundo.

Pessimista, o escritor revolta-se com as mentiras que circulam «impunemente por toda a parte», aponta o dedo aos políticos que considera responsáveis pela hecatombe mundial, preocupa-se com a falta de reacção das esquerdas, e disseca longamente esse crime contra a humanidade que é a crise financeira nascida da cupidez e desvergonha dos banqueiros. Há nestas diatribes um excesso de indignação, um certo simplismo na análise dos problemas? Talvez. O certo é que Saramago nos atira à cara os lados mais negros da realidade, vergonhas inadmissíveis que outros preferem esconder ou ignorar.

Os melhores textos, porém, não são os de pendor político. São os outros. Aqueles em que Saramago se liberta da pose de intelectual empenhado e evoca escritores (Eduardo Lourenço, Jorge Amado, Carlos Fuentes) ou figuras que admira (Rita Levi-Montalcini, Federico Mayor Zaragoza, Baltasar Garzón), fala dos seus cunhados ou de Susi (a «elefanta solitária» e triste do jardim zoológico de Barcelona), reflecte a partir de um mote («como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas?») ou demonstra uma surpreendente generosidade (ao antever, por exemplo, um futuro Nobel da Literatura para Gonçalo M. Tavares).

Mesmo quando aparentemente desdenha do valor ou importância destes textos escritos em cima do momento, sem rede nem recuo, Saramago não ignora que eles traçam um retrato intelectual, psicológico e por vezes sentimental do homem que ele é, aos 86 anos, diante de um mundo que considera perdido, caótico, rompendo-se pelas costuras, talvez sem saída, mas que continua, no seu jeito oblíquo, a amar. «Creio que todas as palavras que vamos pronunciando, todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente esboçados, que vamos fazendo, cada um deles e todos juntos, podem ser entendidos como peças soltas de uma autobiografia não intencional que, embora involuntária, ou por isso mesmo, não seria menos sincera e veraz que o mais minucioso dos relatos de uma vida passada à escrita e ao papel.» Talvez não seja exagerado ver, neste Caderno feito justamente de «peças soltas», um capítulo dessa «autobiografia não intencional» que continuará a crescer, esperemos, ainda por muitos e bons anos.

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