Paulo de Tarso Golçalves

Prezado José Saramago,

Sou professor de História, brasileiro por nascimento e portugues naturalizado (meu avô Joaquim Gonçalves e bisavós José e Rosa Estrella eram da comunidade de Charneca que fica ali em Redinha, Concelho de Pombal). Cresci no Brasil, na cidade de Londrina, no Paraná. Num certo dia nono contou que em 1918 saiu de Portugal para escapar da primeira guerra mundial e, com destino ao Brasil nunca se naturalizou, viveu cinco décadas difíceis, já que seu sonho era voltar para Portugal, demonstrava muito respeito pela língua, costumes enfim pela cultura portuguesa. Na verdade sua vinda foi uma exigência de seu pai. No Brasil casou-se com uma italiana e teve apenas dois filhos, numa época que geralmente a família brasileira era formada pelo menos por uns dez filhos. Ocorre que em pouco tempo morreu sua esposa e ele caiu numa profunda depressão. Em seguida morreu a filha Rosa e o filho Anibal, meu pai. Sobrou eu e o nono e ele me criou desde os quatro anos até os quatorze quando também morreu. Fui para um orfanato, lá estudei, me formei. Hoje sou chefe de família e tenho tres filhos. Fiz pós-graduação em História do Brasil e leciono no ensino superior e secundário para o governo do Estado do Paraná. Em 2006 adquiri minha cidadania portuguesa, aliás única e mais preciosa herança que ganhei do meu avô. Se o nono não tivesse morrido de depressão, certamente teria morrido de SAUDADES (como dizia Fernando Pessoa). Tudo isso tem uma relação com a leitura que venho fazendo sistematicamente de seus livros. Não busco um sentido para esta fatalidade histórica, procuro apenas refletir sobre o sentido da MORTE, se é que ela tem um sentido. Seu livro As Intermitências da Morte problematiza o conceito quase universal da morte e seu significado para o mundo ocidental. Ao transportar a questão para o mundo da ficção você acaba humanizando a morte, onde ela aparece justamente no momento mais inesperado dos vivos. Quer dizer, não nos acostumamos pensar na própria morte, porque temos medo dela, porque nos reprime, nos levando a tomar decisões que acabam nos alienando no próprio mundo que vivemos. Sua narrativa deixa claro que precisamos matar essa noção de morte. As instituições políticas e religiosas principalmente as que visam lucrar muito com a morte deixariam de ter importância se tivessemos uma visão diferente da morte. Talvez o desejo de morrer, inclusive sendo registrado no atestado de óbito a causa da morte como: DESEJO DE MORTE. Nessas metáforas há um quê de real, pois eu mesmo quando perdi  todos meus familiares, não restando ninguém para me consolar tive conscientemente esse desejo. Acredito como certo que a causa da morte  do nono Joaquim tenha sido essa, DESEJO DE MORTE. Papai e Mamãe nunca vi ou mesmo senti, pois desejaram morrer antes mesmo de me conhecer. Foi uma experiência fantástica ter vivido meus quarenta e cinco anos refletindo sobre o sentido da morte, lutando pela vida. Aliás nono dizia que devia lutar por uma vida digna e não pelo dinheiro fácil. Aí encontrei as palavras de nono Joaquim em seu pensamento sobre Ensaio sobre a Cegueira. A visão sobre o destino do homem moderno de viver simplesmente o “agora”, “o instante”,  é mais uma maneira de evitar ou fugir da cegueira social e da morte da natureza humana existente atualmente no sistema capitalista. O “ter” fala muito mais alto do que o “ser”. Deveríamos ter em mente, como diz o “filósofo”, que todos nós nascenos, mas só alguns permanecem. Sem dúvida os que permanecerão estarão salvos da epidemia mundial que é a cegueira por não enxergar o óbvio ou por não querer ver a realidade da morte. Foi por essa razão que o nono Joaquim que ganhou algum dinheiro construindo estradas de ferro em São Paulo, Brasil, fez uma economia e logo comprou um pedaço de terra no cemitério, pois dizia que era o melhor investimento para nós mortais. Achei isso estranho, mas levei a sério e a primeira economia que fiz na vida foi também comprar um terreno noutro cemitério, porque não sei  se terei um no céu. Aliás todos os humanos deveriam ter o DIREITO de morrer e serem enterrados. Hoje milhões de indigentes nem esse direito possui. Sua profunda reflexão e a criação de uma personagem tão original como a morte leva sim os humanos desavisados a refletirem. Minha experiência com a leitura das Intermitencias da Morte se traduziu numa “vivência da morte”. Li e experimentei um sentido profundo da vida. Ainda não recebi nenhuma carta de cor violeta, talvez porque já havia conhecido a morte com bastante familiaridade, desde os quatro anos de idade, não porque perdi algo de mais precioso, mas por compreender a efemeridade da humanidade. Um abraço fraterno de um simples professor que nasceu no Brasil, foi adotado pelos portugueses e vivi para o mundo.

Paulo de Tarso Golçalves

Paraná, Brasil, 24 de julho de 2009

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