Paulo de Tarso Gonçalves

Prezado escritor,

Quem lê um livro partilha da companhia de um narrador, nunca está só. Seu conto A Viagem do Elefante convida o leitor a realizar uma dolorosa viagem de Portugal à Viena, no Séc. XVI, sugerindo uma reflexão sobre a essência da vida humana. A caminhada do cornaca indiano e de seu companheiro Salomão rumo à terra do arquiduque Maximiliano evidencia o quanto o homem é perseverante diante da adversidade e das imposições do soberano. Em 1532, D. João III enviou a primeira expedição ao Brasil, comandada por Martin Afonso de Souza, que fundou a vila de São Vicente – uma conquista. Duas décadas depois enviou à Viena um Elephas maximus como sugestão de presente de casamento a um arquiduque – uma estranha aventura. O Século XVI foi de aventuras, descobertas e grandes viagens exigindo muito sacrifício da humanidade e de indefesas criaturas. O mais interessante é que o homem sempre se espelhou nos bichos para justificar sua existência. O Elefante como símbolo sagrado de grandiosidade das culturas asiáticas tornou-se matéria-prima de um verdadeiro ensaio poético. O sentimento de dor e exploração que Salomão passou para atravessar a Europa sob a neve só pode ser sentido pelo poeta. Certo dia Aristóteles disse que a “poesia é mais séria que a história” porque estabelece verdades e a história não tendo esta condição, só pode evocar o que realmente sucedeu. A poesia se refere ao universal, enquanto a história ao particular e se limita ao relato. Segundo este critério seu conto é uma obra poética, recontando a história do ponto de vista dos injustiçados, dos oprimidos e dos discriminados. O conto fala daquilo que é universal, o sentimento da natureza humana. O cornaca e o Salomão, também são criações poéticas que retratam um pouco o destino do homem ocidental que ainda se encontra preso a certos preconceitos culturais. Ele não acredita que um dócil animal, o maior mamífero terrestre, possa exercer uma grande influência na vida social e religiosa de um povo. O elefante representa para o Hinduísmo a força, a prosperidade, a sabedoria, a vitória, compreendido como o único dos animais terrestres capazes de sustentar o mundo. Ganesha a mais venerada representação de deus para o Hinduísmo carrega em seu corpo a cabeça do elefante simbolizando fidelidade, destruidor da vaidade e do egoísmo. As incontáveis representações do elefante para a sociedade hindu fazem dele o animal mais popular da Ásia. Tudo isso é muito estranho para o mundo ocidental, que levou muitos Séculos para descobrir que o índio possuía alma e que o escravo não era um objeto de adorno. Essas considerações trazem à tona uma outra questão: a arte de narrar. Encontrar bons narradores no mundo atual está cada vez mais raro. Muitos teóricos vêm anunciando há décadas o fim da arte de narrar. Acho isso sem sentido. Nada substituirá o mestre da arte de contar e a experiência humana que é a fonte de inspiração do escritor. Lembro-me do que você disse em 2001 no Brasil: “ninguém escreveria sem viver. E todos vivem, de uma forma ou de outra. Ainda que a um homem fosse dada a obrigação de testemunhar, desde o primeiro dia de vida apenas o nascimento e o desenvolvimento de uma planta, eu creio, que ele teria uma interessante história para contar”. Suas palavras nesta entrevista revelaram a importância de se viver intensamente uma experiência humana. Dostoiévski, certo dia comentou que para ser um escritor devíamos sofrer bastante. Acredito que sem uma experiência de vida dificilmente compreenderíamos a nossa condição humana. Sua narrativa é uma prova disso, demonstra que a literatura está viva, inovada pelo estilo, numa linguagem que problematiza o sofrimento humano a partir da consciência histórica. A Viagem do Elefante é, na verdade, uma forma de narrar os acontecimentos do passado, um pesadelo, uma angústia vivida por conta dos caprichos de soberanos que pouco se importavam pelo sofrimento do povo. Vigilante da história, o narrador jamais deixará cair no esquecimento a experiência humana.

Paulo de Tarso Gonçalves

Paraná, Brasil, 08 de Agosto de 2009

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