Pedro de Alcântara Figueira

Caro Saramago,

Vou certamente ler o seu Caim. É evidente que, como milhões por aí afora, estou ansioso pra ter o seu livro, mas, mas, (como dizê-lo?), queria também ser lido por você. Não sou um autor conhecido, muito pelo contrário, sou um ilustre desconhecido, mais desconhecido do que ilustre. Escrevi, e nisto vejo alguma identidade entre nós, um livro para mostrar, como você tem tentado mostrar que deus é uma criação humana, que Descartes é, antes de tudo, um homem. Isto todo mundo evidentemente sabe, ou deveria saber. Mas quando alguém é chamado de filósofo, logo se esquece que, como diz Adam Smith, o filósofo e o carregador são produto da divisão do trabalho. Fazer de Descartes, ou qualquer pensador, um homem não é tarefa fácil. É preciso contrariar os milhares de comentaristas e comentadores que atulham anualmente as não poucas bibliotecas pelo mundo inteiro e que não fazem outra coisa senão colocar Descartes no panteão dos inofensivos. Quis fazer o oposto disso. Quis mostrar que o homem Descartes, filósofo produto da divisão do trabalho, foi algo bem diferente de um fazedor de filosofia. Procuro demonstrar que a sua filosofia foi uma arma de luta contra a civilização feudal decadente e que os termos em que ela se expressa só se tornam compreensíveis se se tiver em mente o embate que ele travou. Sem isto, é impossível entender que, para ele, como para Bacon, o critério mais seguro para se chegar à verdade é a utilidade. Num mundo, o feudal, que ia se tornando rapidamente inútil e que forcejava por eternizar as suas combalidas verdades, argumentar como Descartes argumentou era o mesmo que desfechar um golpe certeiro contra todos os seus fundamentos, e sobretudo contra suas bases ideológicas. Estabelecer uma estreita identidade entre verdade e utilidade, eis a questão do cartesianismo. Ela é uma declaração de guerra contra o entulho social e ideológico que queria se eternizar. Os comentaristas jamais se colocaram a questão de que para existir Descartes não pensou outra coisa senão “destruir os fundamentos da escolástica”, ou seja, transformar em pó a ideologia religiosa. Aliás, o verbo pensar é, antes de tudo, transitivo, ou seja, quem pensa pensa em alguma coisa. Para que você lesse meu livro, que não se encontra em parte alguma, a não ser na minha estante, teria que lhe enviar um exemplar. Como faço, já que moro em Curitiba? Grande abraço para você e Pilar,

Pedro de Alcântara Figueira

03 de setembro de 2009

Pin It on Pinterest

Share This