Prémio Portugal Telecom de Literatura para Chico Buarque

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Chico Buarque, Zeinal Bava (Presidente da Portugal Telecom) e Pilar del Río

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Reportagem da TVI

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fjsA chegada de Chico Buarque à Casa Fasano em São Paulo não deixou dúvidas entre os presentes sobre o vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. O palpite das rodinhas de conversa provou-se verdadeiro: Chico Buarque foi o primeiro colocado com “Leite derramado”. Na quinta-feira, venceu como melhor livro do ano de ficção e melhor livro de ficção no voto popular do prêmio Jabuti. Recebeu com alegria o troféu e ainda brincou antes de mais uma vez sair à francesa como fez no Jabuti, sem dar entrevistas, sobre quando receberia “o checão”. O primeiro lugar recebe R$ 100 mil. “Outra Vida”, de Rodrigo Lacerda, ficou em segundo lugar. “Lar”, do poeta Armando Freitas Filho, foi o terceiro lugar. Recebem R$ 30 mil e R$ 15 mil, respectivamente. A caminho da saída Chico disse que não leu todos os outros concorrentes, mas defendeu seu romance.

– “Leite derramado” merecia estar entre os primeiros – falou.

José Saramago foi o homenageado da noite. Sua mulher, Pilar Del Río, recebeu um troféu – a árvore com letras penduradas, o mesmo dado aos três vencedores – e falou sobre o marido ao lado da escritora Nélida Pinon, amiga de Saramago. As duas participaram de uma entrevista com Jô Soares, mestre de cerimônias da premiação neste ano, que optou por reproduzir o formato de seu talk show na TV Globo para a apresentação do prêmio, inclusive com a presença de seu sexteto de músicos. Antes das entrevistas com Pilar e Nélida, foram apresentadas cenas do documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, que emocionaram a plateia.

Após o anúncio dos finalistas, Chico Buarque também foi entrevistado por Jô Soares. A conversa começou com futebol, passou pela timidez de Chico, que confessou ter ficado com “dor de garganta ao saber que teria de subir ao palco e ser entrevistado”, continuou com música e terminou na literatura.

– Eu não, mas as pessoas me consideram um escritor amador – disse, depois de corrigir sinalizando três com os dedos Jô Soares, que afirmou que dois dos quatro livros de Chico foram premiados. “Estorvo” e “Budapeste” também ganharam o Jabuti de melhor livro do ano de ficção.

“Caim”, de José Saramago, foi eleito finalista pelo júri. No entanto, a Fundação Saramago e sua editora, a Companhia das Letras, optaram por retirar a candidatura do livro ao prêmio. A decisão foi tomada levando em conta as declarações do próprio Saramago depois de receber o Prêmio Nobel. O escritor português anunciou “que não voltaria a aceitar nenhuma outra distinção literária porque são muitos os escritores que merecem prêmios e poucos os prêmios para distingui-los”. Em carta, a Fundação Saramago explicou ter decidido “que o prêmio deve ir para um autor vivo e, de comum acordo com a sua editora, a Companhia das Letras, foi tomada a decisão de retirar o livro “Caim” de entre os dez finalistas. Um escritor com presente e futuro ganhará o Prêmio Portugal Telecom no ano de 2010. Não será José Saramago, que pertence já à nossa memória”.

Também foram finalistas do Portugal Telecom de 2010 Carlito Azevedo, com o livro de poesia “Monograma”, Carlos de Brito Melo, com seu primeiro romance “A passagem tensa dos corpos”, Bernardo Carvalho, com “O filho da mãe”, Reinaldo Moraes, com “Pornopopéia”, Bernardo Ajzemberg, com “Olhos secos” e o angolano Ondjaki, com “AvóDezanove e o segredo do soviético”.

O júri final do Prêmio Portugal Telecom foi formado por Alcides Villaça, Antonio Carlos Sechin, Benjamin Abdala Jr., Cristovao Tezza, José Castello, Leyla Perrone-Moisés, Lourival Holanda, Manuel da Costa Pinto, Regina Zilberman e Selma Caetano.

Fonte: oglobo.com

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Chico Buarque é o vencedor do Portugal Telecom de Literatura 2010

Isabel Coutinho, Público

O escritor esteve ontem à noite na cerimónia da oitava edição do Prémio Portugal Telecom defjs Literatura em Língua Portuguesa que decorreu na Casa Fasano, em São Paulo, com apresentação do humorista Jô Soares que recriou em palco o talkshow que tem na TV Globo, com banda e tudo. Receber este prémio no valor de 100 mil reais (42.416 euros) para o escritor – que trabalha com “o nosso idioma”, apesar de muitas vezes “não perceber o que os portugueses estão a falar” -, é “um abraço a Portugal também e aos demais países da língua portuguesa”, disse respondendo a uma pergunta do PÚBLICO, no final da cerimónia.

A noite foi também de homenagem ao Prémio Nobel da Literatura 1998, José Saramago (1922-2010), que com “Caim” estava entre os dez finalistas mas foi retirado da lista a pedido da Fundação Saramago. Foi Pilar del Río, que em cima do palco, abriu o envelope, disse :”Toda a vida quis dizer isto” e leu o nome do vencedor: Chico Buarque e “Leite Derramado”.

Quando o escritor e músico subiu ao palco para receber mais um prémio por este seu livro – sexta-feira foi-lhe atribuído o Prémio Jabuti de Ficção – subiu ao palco e começou a conversar com Jô Soares sobre futebol (uma das suas paixões). O escritor contou que, neste momento, está a dedicar-se à música e confessou que ao ouvir a banda do programa do Jô Soares tocar em cima daquele palco, ficou com vontade de se juntar a eles: “Quando não tem de subir, dá vontade de subir.”

Falou-se inevitavelmente da canção que popularizou o compositor nos anos 60, “A banda”, que fez agora 45 anos de idade e Chico Buarque lembrou que uma das suas filhas esteve em Copenhaga, ouviu A Banda a ser tocada, disse aos amigos que a canção era de seu pai e responderam-lhe que não, que era folclore. De certa forma é, já caiu em domínio público, brincou o músico.

Jô Soares aproveitou para introduzir o tema do “escritor amador” por causa de Chico ser mais conhecido como cantor e músico. “Eu não me considero um escritor amador, mas as pessoas consideram. Isso é bom” porque de cada vez que volta à escrita a mão está destreinada e “tem que pegar a mão outra vez”. Na verdade, desde que Chico publicou o seu primeiro romance, “Estorvo”, já passaram 20 anos”.

Além de Pilar Del Río, participou também na homenagem a escritora brasileira Nélida Pinon, que foi uma das grandes amigas do escritor português.

Em segundo lugar ficou a obra “Outra Vida” de Rodrigo Lacerda (que recebeu 35 mil reais , cerca de 15 mil euros) e em terceiro, “Lar” de Armando Freitas Filho que por indicação médica não esteve presente na cerimónia (15 mil reais, 6300 euros).

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Old blue eyes, old goodbyes

Sílvia Souto Cunha, Visão

Na sala apinhada da Casa Fasano, estrutura arquitetónica de linhas contemporâneas feita de vidro e de palmeiras, lugar bem conhecido da elite paulistana, as apostas corriam sem moeda mas com afecto: quem seria o vencedor da oitava edição do Prémio PT de Literatura 2010, um dos galardões mais conceituados atribuídos a livros em língua portuguesa, com um valor de 100 mil reais.

“Chico, claro.”

“Se Chico aparecer, é ele, lógico”.

Esse mesmo, o Buarque. Cantor, compositor, dramaturgo, futebolista de mão cheia (conta quem viu) e escritor com obra feita em quatro livros. De sua graça: Estorvo, Benjamim, Budapeste e Leite Derramado (edição portuguesa Dom Quixote). Todos traduzidos e celebrados, somando ainda outra matemática prestigiada: três prêmios em quatro obras. Um deles, um prestigiadíssimo Jabuti, recebeu-o há poucos dias. É obra de operário em construção séria, para baralhar referências com gosto tropical. Personagens bem burilados que ficam no ouvido. Chico Buarque não desapontou: chegou de fininho, no escurinho da sala já ambientada pelo som de uma banda ao vivo, à espera do mestre de cerimônias, o humorista Jô Soares.

O nome do vencedor foi anunciado por Pilar del Rio com visível satisfação; e Chico subiu ao palco, em ovação. Camisa azul e branca de riscas, paletó creme, magro. Confessa que quando soube que ia receber o prémio, ficara logo com “dor na garganta” – susto de um tímido com milhares de horas de concertos e aplausos. Jô empurra a conversa para outros relvados: “Será que o Fluminense ganha?” Bola ao lado da baliza do momento…

Mas, depois, lá ataca no meio campo. Escritor versus músico é como humorista versus escritor, lança, cúmplice, Jô Soares. O mundo parece empurrar para o rótulo de “amador”. Chico, ali desportista sem bola, replica: “Acho até legal. Se eu visse outro compositor ou apresentador escrevendo livro, talvez eu desconfiasse “. Mas ele não se considera amador, corrige até Jô quando este lhe surripia um prémio literário ao currículo- e conclui que este preconceito disfarçado “até é bom. Assim sempre que regresso à escrita, tenho de aprender tudo de novo, não ganho calo de escritor”. E, Dó redentor, afiança: “Quando escrevo, deixo o violão lá no canto. Quando acaba, dá saudade, dá vontade de fazer música.” Mais tarde, em roda de euforia jornalística, que lembra bancada de futebol em dia de campeonato, responde à VISÃO que não sabe avaliar se tem já um universo literário próprio. “Mas tenho a minha linguagem”. E, diga-se de passagem, pouco preocupada com o acordo ortográfico. A pátria dele é o idioma português, claro.

Em palco, Jô ressuscita uma nota wikipédica: ah, e essa música A Banda, que venceu em 1966 o Festival de Música Popular Brasileira? Buarque conta que uma das filhas, de passagem por Copenhaga, lá ouviu os acordos num bar, e disse que a música era do pai. A resposta pareceu piada nórdica: “Não, isso é folclore!” Olhos azuis não passa cartão vermelho à cena: “Já é quase negócio de domínio público.” O público ri, rendido, bem vestido, longe de compostura solene e literata.

Chico nem se enfada de ouvir, ao sair do palco, a banda a tocar A Banda, ao melhor estilo talk show. Ou ao posar para a foto, infelizmente sem os outros vencedores do prémio PT: Rodrigo Lacerda, autor de Outra vida, que esteve na cerimônia, usando uma camisa cor de laranja e aquilo que chamou com muita graça de “pessimismo preventivo”; e Armando Freitas Filho (que se fez representar), que escreveu Lar.

Os últimos lances são feitos de frenesim e palavras roubadas à paciência da produção e de seguranças. Chico Buarque que, por estes dias, está dedicado à música, diz que acredita “que há uma música permeando a história (de Leite Derramado)”, que “a frase tem um ritmo, quase uma melodia lá no fundo do meu ouvido”.

Chico brilhou, sim. Era Chico jogando em casa. Mas a luz galáctica pertenceu a Pilar e José. E a José e Pilar. O vídeo retirado do documentário filmado por Miguel Gonçalves Mendes, mostrando cenas da vida quotidiana e irremediavelmente perdida de Lanzarote, a declaração de amor por entre ventos agrestes e neblinas premonitórias, o rosto e a voz do Prémio Nobel (1998) a abrir o seu computador, concentrado… em fazer paciências, concentrado em homenagear o amor da sua vida em tantas dedicatórias de livros, todos sentindo a presença de Pilar naquela platéia, provocou uma vaga de comoção. A homenagem a Saramago, tomando em consideração a retirada do romance Caim da lista dos dez finalistas (por decisão conjunta da editora Companhia das Letras e da Fundação José Saramago, respeitando o desejo o escritor em dar lugar a outros escritores), pôs em campo emoções.

Jô Soares conheceu o escritor em 1982, num hotel parisiense. Saramago deixara-lhe recado: gostaria de o conhecer. Pilar brincou, mais do que se esperaria nesta homeangem que ele disse preferir chamar “celebração”, abrindo com esta divertida tirada: que Jô poderia ter casado com o seu marido, já que chegara antes dela, em 1986. O comediante brasileiro disse adorar a “ranzinzice” do escritor, uma “irritação cheia de humor” que convivia com uma visão do mundo. Acabou por falar em castelhano com a presidente da Fundação José Saramago, que a escritora brasileira Nélida Pinon, (ao lado de Pilar nesta homenagem, e que conheceu o casal durante a sua lua-de-mel), caracterizou como “um lugar lindo”, junto ao rio “onde você diz: o Brasil começou ali.” Ali, também ao lado da famosa Loja das conservas, que conquistou a imortal da Academia Brasileira das Letras: “vende latinhas de sardinha como se fosse uma livraria.”

A Fundação, repetiu Pilar Del Río, quer ser lugar vivo de idéias e debate. Para espelhar Saramago: “Tivemos muita sorte que se tenha registado (no documentário José e Pilar) o último tempo da vida de Saramago. (…) e de ver como ele, tendo 84, 85, 86 anos, escrevia todos os dias. Fez três livros. Escrevia um blogue, apoiava as lutas de outros, como a causa Saharaui, visitava a Livraria Cultura aqui em São Paulo… Estava absolutamente presente. Esteve em todas as causas e todas as coisas. Nunca nada lhe foi indiferente”, enumerou. No fim, quando saiu do palco, guardou a estatueta do Prémio nos braços. A cerimónia dos adeuses teve, desta vez, imaginamos, desejamos, um sabor menos amargo.

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