Que voltem os gregos!

Eu pecador me confesso, relapso, convicto e contumaz. Sentado durante longas horas, em sucessivos dias e semanas, diante do televisor, bem amordaçada a consciência que tentava chamar-me ao cumprimento do dever, enchi o espírito, a alma e a memória de tapetes de relva verde, arquibancadas ululantes, bandeiras e fumos coloridos, bolas brancas com geometrias negras, treinadores fleumáticos e temperamentais, árbitros que pareciam jesuítas de roupeta, jogadores que estavam possessos do demónio e eram, ao mesmo tempo, vítimas angelicais dos seus mútuos atropelos. Tudo isto os meus olhos viram, e graças a tudo isto, em quantidade e qualidade sobreabundantes, é que pude alcançar algo com que, sem o saber, há muito tempo vinha sonhando: fartar-me definitivamente de futebol. A partir de agora, nenhum Maradona, Futre ou Butragueo fará desviar das verdades eternas e cristalinas esta minha já cansada atenção.

Contudo, não quero ser ingrato. Se é certo que aborreci o futebol, que me saturei de grandes penalidades, lançamentos laterais, dribles, pontapés de canto e mãos de Deus, terei também de confessar que foi vendo o campeonato do mundo de futebol que descobri a razão profunda por que desde imemoriais tempos se vem dizendo que o homem é um animal gregário. Desde a infância que os melhores autores me vinham ensinando que o gregarismo foi e continuava a ser condição da própria sobrevivência da espécie humana, que o homem só, ao contrário do que ousara afirmar um outro autor animado de perverso espírito de contradição, não é o homem forte, e que, enfim, é participando plenamente numa vida em comunidade, partilhando tudo, e em primeiro lugar a si mesmo, que o pequeno bicho humano poderá passar além dos seus limites, resolver as suas carências espirituais, e ascender à felicidade dos justos, desta maneira tornada prato comum e iguaria de todos. O homem, inventor da desconfiança, inventou também a boa-fé, e por isso continua a acreditar em coisas como estas.

Chega, porém, o momento em que as escamas caem dos olhos, e a deslumbrante luz da verdade assoma ao limiar do entendimento. Foi o que aconteceu comigo. Na perspectiva vasta dos estádios, as gregaríssimas multidões que rodeavam o campo, gritando, vaiando, aplaudindo, de cara pintada em muitos casos, agitando insígnias e pendões, trocando socos e insultos, assobiando os hinos nacionais dos adversários – mostraram-me, de uma vez para sempre, que o homem, tornado em ser gregário por necessidade de sobrevivência, continua a sê-lo por razão de uma outra necessidade não menos imperiosa, porém de sinal inverso: o poder, a violência, a destruição, a morte. O homem só é um homem pacífico, havendo dois será senhor um deles e servo o outro, se são três farão dois deles aliança contra o terceiro. E passar das unidades às dezenas, ou às centenas, ou aos milhares, ou aos milhões, não modifica a essência da questão, apenas complica as suas consequências. O futebol, caros senhores, e, já agora, o desporto em geral, com ou sem a presença de chefes de Estado e de primeiros-ministros, é um sucedâneo da guerra. Suspeito mesmo que todas as actividades humanas, mesmo as de mais inocente aparência, são modos de guerra, brutais ou subtis, óbvios ou disfarçados.

Ora, se assim é, sempre assim foi, mesmo naquele tempo dos Gregos Antigos que o título deste artigo vem invocando. Também então se disputavam guerras e jogavam jogos, ganhavam uns, outros perdiam, e havia senhores e escravos, e a democracia ateniense, por exemplo, examinada à luz de modernos juízos e valores, não seria muito mais que uma ironia de mau gosto. Mas aqueles Gregos eram também filósofos, e era bem possível que certo ancião, criador de um harmonioso sistema do Universo, tivesse sido, no tempo da sua juventude, o melhor discóbolo dos Jogos Olímpicos. Que voltem, então, os Gregos. Para outra vez cometerem as suas mil proezas atléticas, mais alto ainda, mais longe ainda, mais forte ainda, mais rápido ainda. Mas que tragam consigo também os outros, os filósofos, a quem não pediremos que sejam, eles, mais rápidos e mais fortes, mas apenas que nos levem, a nós, mais alto e mais longe. Todos juntos, e, sobretudo, cada um deles. E cada um de nós.

José Saramago

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