Quelle Europe veut-on?

Do ponto de vista de uma ética abstracta, se tal conjunção existe, a Europa não tem mais responsabilidades no tribunal da História que qualquer outra parte do mundo onde se tenham disputado o poder e a hegemonia. Mas a ética, quando exercida, como é desejável, sobre o concreto social, é porventura a menos abstracta de todas as coisas: embora variável no tempo e no espaço, permanece como uma presença calada e rigorosa que, com o seu olhar fixo, nos vai pedindo contas todos os dias. Gostaria de pensar que estamos vivendo num tempo em que a Europa deveria apresentar ao juízo do mundo o balanço da sua gestão histórica, se não pretende prolongar, com o requinte de métodos que os modernos meios de comunicação de massa possibilitam, o seu vício maior, o seu pecado mortal, que é, ainda hoje, e não apenas no que se refere aos aspectos geográficos e físicos do caso, a existência de duas Europas, a central e a periférica, com o resultante e pesado lastro histórico de injustiças, discriminações e ressentimentos. Pelo que têm de óbvio, não falarei aqui das guerras, das invasões, dos genocídios e das eliminações selectivas que não pouparam nenhum espaço europeu. Falo, sim, da ofensa grosseira que é, tanto como essa outra espécie de deformação congénita a que chamamos eurocentrismo, aquele comportamento aberrante que consiste em ser a Europa cêntrica e eurocêntrica em relação ao seu próprio continente. Para alguns Estados europeus, culturalmente superiores segundo a narcísica opinião que de si mesmos alimentam, o resto da Europa sempre foi algo vago e difuso, um pouco exótico, um pouco pitoresco, merecedor, quando muito, da atenção de antropólogos e arqueólogos, mas onde, apesar de tudo, contando com adequadas colaborações locais, ainda se podiam fazer alguns bons negócios…

Não creio que venha a existir uma Europa autenticamente nova se esta em que vivemos não conseguir organizar-se segundo os ditames de uma ética da responsabilidade. E também não existirá se, mais do que os egoísmos nacionais, que frequentemente resultam de meros reflexos defensivos, não forem eliminados da nossa consciência os velhos preconceitos da prevalência ou da subordinação cultural. Tenho presente a importância dos factores económicos, políticos e militares nesta teia perversa de relações, mas, como homem de literatura, considero meu dever recordar que as hegemonias culturais de hoje são consequência, no essencial, de um processo duplo e cumulativo de evidenciação do próprio e de ocultação do alheio que teve artes de impor-se como inelutável, quase sempre favorecido perla resignação, quando não pela cumplicidade das próprias vítimas. É tempo de dizer que as culturas não são melhores ou piores, não são mais ricas ou mais pobres, são simplesmente culturas. Nisso, valem-se umas às outras, e é pelas suas diferenças, assumidas e aprofundadas, que mutuamente se justificarão. Não há, e espero que não, o ser humano. Cada cultura, em si mesma, é um universo comunicante: o espaço que as separa é o mesmo espaço que as liga, como o mar separa e liga os continentes.

O mundo inteiro anda a vestir o corpo com as mesmas roupas, ao mesmo tempo que vai usando as mesmas palavras para expressar os mesmos e cada vez mais repetitivos circuitos mentais. Começam, no entanto, a manifestar-se sinais de inquietação em áreas culturais europeias não oficiais. Parece ter-se compreendido não só que os factores culturais tinham vindo a ser praticamente menosprezados, mas também que o próprio processo integrador da União se havia convertido numa espécie de voraz Ugolino, com a diferença de que este de agora, não devorando da mesma maneira todos os seus filhos, e acaso cuidando de um ou outro com especial carinho, parecia comprazer-se nas sucessivas amputações do já de si exangue corpo da cultura europeia. Simplificando um tanto, direi que se enfrentam hoje na Europa dois partidos de forças manifestamente desiguais: o partido, maioritário, dos que têm para a cultura um projecto mercantilista, como se, tendo herdado espiritualmente Camões, Cervantes e Goethe, não tivessem outra ambição que encontrar o modo mais expedito de os converter em euros, e o partido dos outros, claramente minoritários, que ainda não esqueceram nem querem esquecer a vocação criadora europeia, rica de milénios de invenção e experimentação, e entendem que uma cultura sujeita às leis do mercado acabará fatalmente por estiolar-se. Como já está a suceder.

Dando expressão a estas preocupações, chegou a falar-se há tempos na necessidade de uma Europa refundada que afirmasse a sua paixão pelas diferenças culturais, uma Europa de culturas plurais e não de Estados forçadamente unidos, uma Europa de pólos de intensidade, mais do que de capitais, uma Europa não centralizada, mas descentrada. Se não havia então nestas ideias o objectivo meramente táctico de dar aos descontentes algo com que se distraíssem enquanto a lógica implacável do mercado prosseguia o seu caminho, se elas viessem a gerar passos efectivos para uma compreensão multiplamente irradiante da Europa por si mesma e da sua relação cultural com o resto do mundo, então seria talvez possível acreditar na viabilidade da Europa generosa e espiritualmente viva cuja esperança muitos de nós teimamos em guardar no coração. A responsabilidade dos dirigentes políticos comunitários não poderá ficar-se pela ponderação ou resolução mais ou menos afortunadas das questões económicas da Europa, ao mesmo tempo que as questões sociais lhes merecem uma atenção insignificante, se não preferirmos, com muito mais realismo e verdade, chamar-lhe simplesmente indiferença. A um grand patron da indústria francesa ouvi eu dizer não há muito tempo: Le social, cher Monsieur, je m’en fout…

Não é este o lugar para falar de algumas dessas questões, como o desemprego, a insegurança nas grandes cidades, a marginalização, a precariedade das pensões, as deficiências da assistência hospitalar, o fracasso rotundo da educação de massa. Cingindo-me ao tema, direi que sempre me surpreendeu não encontrar qualquer alusão às questões da cultura sempre que vi abordar o labiríntico conjunto dos problemas sociais. Todos estamos conscientes de que se acabaram as fronteiras entre a política e a economia, que ao redor do mundo a Especulação paira sobre as nossas cabeças como antes se acreditava que o Espírito pairava sobre as águas, e, pela incontornável força das coisas, já não estranhamos que assim seja. O que não parecemos dispostos é a reconhecer que, no seu sentido mais amplo, uma consideração realmente abrangente e integradora do que designamos por «social» nunca será possível enquanto a dimensão cultural da existência social humana não for inteiramente assumida. Não como um território à parte, com fronteiras, alfândegas e pautas proteccionistas, mas como o tecido conjuntivo da identidade própria de cada pessoa e da sua pertença a um grupo, a um país, a uma civilização.

Uma Europa de culturas plurais, uma Europa descentrada, uma Europa de diferenças estaria obrigada, por essa nova natureza sua, a fazer observar uma relação de paridade operacional entre as diversas culturas que a compõem, todas elas, sem excepção. Teria de respeitar o espaço próprio de cada uma como parceira de pleno e inteiro direito, sem sujeição a outras que, também por razões de ordem política e estratégia geral, se têm comportado como «imperializantes» por uma espécie de «direito divino», recolhendo daí todos os benefícios, sem esquecer as vantagens grosseiramente materiais que qualquer tipo de hegemonia costuma facilitar. Uma Europa, assim, termo de um binómio complexo em que o outro termo fosse o Universal, nunca seria uma Europa culturalmente colonizada nem dominada por um ou dois dos seus países. Essa Europa, enfim rejuvenescida, seria a da pluralidade de culturas, a desejada Europa sem centro, uma Europa não de clientes, mas de cidadãos, ou, mais simplesmente, uma Europa de pessoas. Sem excepções que matam nem hegemonias que assassinam – o que pressuporia, provavelmente, a necessidade de um entendimento também novo da Democracia. Mas isto já seria tema para outra conversa…

José Saramago

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